Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 080 | Ano 9 | Abr 2004
ENTREVISTA | EVO MORALES AYMA

Josep Maria Deop, especial da Espanha

evo

Foto: Gerardo Lazzari

Foto: Gerardo Lazzari

Há quem diga que Evo Morales Ayma, deputado e líder cocaleiro de origem indígena na Bolívia, não saiu vitorioso no segundo turno das últimas eleições presidenciais em seu país por se tratar de pleito indireto. É o herdeiro natural do posto de “queridinho” das esquerdas européias e sul-americanas, principalmente depois da queda de popularidade do subcomandante Marcos, do México, e de Lula, no Brasil. Começou na política boliviana em 1988 quando foi aprovada a Lei Antinarcóticos, ainda vigente, que penaliza diversas substâncias, dentre elas a folha da coca. A partir daí, foi eleito secretário executivo das Seis Federações do Trópico de Cochabamba, a organização máxima dos cocaleros (produtores de coca). Graças a suas atividades nesta entidade, ganhou fama nacional, liderando bloqueios de estradas, greves, marchas e atos de protesto.

Mesmo sendo conhecido por assumir posições bastante radicais e polêmicas e de ser acusado por seus opositores não só de ter ligações com o narcotráfico, como de defender os interesses do setor. Evo Morales tem uma aparência cordial, amistosa. Para se ter uma idéia do perfil deste que pode vir a ser o próximo presidente boliviano: ele foi trompetista de um grupo musical de certa projeção nacional, maratonista e quase se tornou jogador de futebol profissional.

É notório desafeto da embaixada norte-americana na Bolívia e literalmente detestado pela oligarquia de origem européia que ainda controla a política do país. Nos últimos anos, Morales converteu-se num símbolo da resistência indígena e popular diante das pressões dos Estados Unidos para dominar a política e a economia bolivianas. Seu partido, o MAS (Movimento ao Socialismo) obteve mais de meio milhão de votos nas últimas eleições (2002), e ele mesmo se perfila como um firme candidato a presidente no próximo pleito que se realizará daqui a três anos. Se conseguirá ou não dependerá, também, do apoio que receber da Europa. Aliás, o principal objetivo de sua recente visita ao continente europeu visa justamente a angariar apoio externo.

A entrevista a seguir foi concedida em sua passagem recente pela Espanha durante um intervalo das viagens que fez a Madri, Barcelona e Amsterdã, nas quais apresentou seu ideário político, com a intenção de afastar a imagem de líder conflitivo e tosco que lhe é normalmente atribuída.

Extra Classe – Acusam-lhe de querer impor uma ditadura narcoterrorista. Isso procede?
Evo Morales
– Sim, claro, mas quem o faz? Quando se faz uma acusação deste tipo há que se ter em conta quem a lança. Me acusaram de tudo: de receber dinheiro das FARC colombianas, da Líbia…, só lhes falta me acusarem de esconder as armas químicas de Saddam Husseim…, porém nunca apresentam provas. Além do mais, sempre falam de mim como o “líder cocaleiro”, sem se recordarem de que sou deputado, represento mais de meio milhão de bolivianos e de que, se as eleições fossem hoje, ganharíamos com mais de 50% dos votos. Querem me anular, mas não entendem que minha força provém, na realidade, do povo. É o povo quem delibera, e eu quem obedece.

EC – Mesmo com a força do povo, as forças políticas a que o senhor se opõe não facilitarão sua vida na oposição. Que tipo de dificuldade o senhor prospecta que enfrentará na hipótese de se tornar presidente?
Morales
– Com certeza, são muitos os obstáculos que vamos encontrando. Por exemplo, é necessário que nos preparemos para resistir a um golpe de Estado. Tenho convicção de que há uma parte da sociedade, muito pequena, mas muito influente, que não aceitará nosso triunfo nas eleições municipais de dezembro, e muito menos nas eleições presidenciais. Se as ganharmos, temo que possa haver um golpe de Estado impulsionado desde os Estados Unidos. Se isso chegar a acontecer, a sociedade tem que dar uma resposta nas ruas para que não paire dúvidas a respeito do nosso compromisso com a democracia.

EC – Falamos de confrontos com o exército?
Morales
– Falamos de defender a democracia. Além do mais, a imensa maioria dos soldados e suboficiais são quechuas e aymarás (de origem indígena)* que estariam ao nosso lado. Sim, existe o risco de aparecerem grupos paramilitares… Há, evidentemente, uma vontade de “colombianizar” a Bolívia com o intuito de justificar um golpe de Estado. Um alto oficial me comentava outro dia que “desapareceram” 60 metralhadoras do seu quartel… Isso é muito preocupante.

EC – A fuga do Presidente Sánchez de Lozada para Miami, causada pela “Guerra do Gás”, colocou em destaque toda uma série de novas forças sociais e políticas que até aquele momento haviam permanecido marginalizadas. Falo do Movimento Indígena Pachakuti (MIP), de Felipe Quispe; da Central Boliviana de Trabalho (COB), de Jaime Solares ou de vocês mesmos. Que relações vocês mantêm com essas outras forças que ameaçam o velho sistema político e social?
Morales
– É evidente que compartilhamos muitos aspectos de nossa luta com a COB e o MIP, sobretudo no que diz respeito à recuperação dos recursos naturais, da relação com a terra, da rejeição aos privilégios das multinacionais… Mas também creio que cada um tem que desenhar sua própria estratégia. Às vezes se age precipitadamente. As greves, por exemplo, não podem ser preparadas de um dia para o outro (referindo-se a última convocação de greve geral da COB, que contou com o apoio do MIP, mas não do MAS)*. Não podem ser anunciadas só para assustar. Faz falta planificar tudo muito bem e discutir com os colegas.

EC – Há quem diga que falta vigor de vocês com o governo.
Morales
– Falta vigor? Que incrível! O que acontece é que nós somos conscientes de que o Presidente não pode mudar todo o sistema em três ou quatro meses. Então, o que queremos é que nos ofereça sinais claros de que está disposto a fazê-lo. Queremos uma mudança de modelo econômico e de sistema político. A economia está nas mãos do presidente e de seu gabinete, enquanto a política está nas mãos do Parlamento. É isso que estamos discutindo, tentando que a Assembléia Constituinte incorpore à reforma da constituição por nós proposta. Sem essa reforma, dificilmente conseguiremos grandes vitórias. Os movimentos socias têm que pressionar para conseguí-la.

EC – Apesar das diferenças que possam existir entre o Senhor e Felipe Quispe, líder do MIP, parece evidente que a derrota do velho sistema político só pode chegar através de uma aliança entre as suas forças. Vocês contemplam esta possibilidade, de imediato, nas próximas eleições gerais?
Morales
– Se não chegarmos a nos entender como dirigentes, seguramente nossos povos nos unirão. Creio que são os povos que devem nos dizer o que fazer. Sempre apoiei o companheiro Felipe Quispe para que pudéssemos caminhar juntos, apesar de ele haver dito algumas barbaridades sobre mim. Mas creio que, antes ou depois, o sangue nos chamará à unidade. Uma aliança agora? A necessidade de nos unirmos existe, mas é o tempo quem dirá. Nossas bases caminham e se manifestam unidas, só faltaria que esta unidade das bases se traduzisse numa unidade dos representantes. De minha parte, não tenho nenhum afã de liderança ou de protagonismo… farei o que a minha gente disser.

EC – O ex-presidente Sánchez de Lozada se encontra escondido nos Estados Unidos… Em outubro, mais de 80 pessoas morreram nas mãos do exército que chegou a disparar rajadas de metralhadora em direção às colinas que rodeiam La Paz. Que possibilidades reais há de extraditar Sánchez de Lozada e submetê-lo a um julgamento na Bolívia
Morales
– Creio que dependerá muito da mobilização popular. Porém a situação é complicada, porque este senhor tem ao seu lado uma máquina burocrática desenhada para lhe proteger… Caso o julgamento na Bolívia não seja possível, já impulsionamos uma solicitação para o Alto Comissionado para os Direitos Humanos das Nações Unidas, pedindo o apoio do Parlamento Europeu… Estamos estudando uma demanda internacional, para os casos de genocídio, perante o Tribunal de Haya. São crimes que não podem ficar impunes e trataremos de esgotar todas as vias.

EC – O que mudou na Bolívia para que os senhores tenham passado de quatro deputados para 27 em somente quatro anos?
Morales
– É que a nossa é uma carreira de longo caminho percorrido, mas nos últimos anos acabamos ganhando um grande impulso. Nós viemos de um país dominado por uma estrutura colonial e há aqueles que ainda não se acostumaram a nos ver no Parlamento, a nós, os índios, os “selvagens”… Haviam nos transformado em mendigos na nossa própria terra. E não é que não tivéssemos lutado contra. A nossa é a história da luta constante pela dignidade. Mas sempre nos esmagaram ou nos traíram… Como podíamos dizê-lo? Até hoje nós, os índios, fomos bons depondo presidentes, mas sempre nos equivocamos no momento de eleger os substitutos… Agora seremos nós mesmos que nos governaremos.

EC – É correto observar no discurso um forte componente de resgate de identidade?
Morales
– Sim, sim. A revolução de 1952, que outorgou o voto aos índios e conseguiu alguns êxitos, foi protagonizada, sobretudo, por mineiros. Agora, ao contrário, os atores principais são índios. Inclusive agora os mineiros começam a recuperar sua própria identidade, a se sentir indígenas para dizer: “nós somos os senhores absolutos desta nobre terra…”. Antes os mineiros lutavam sobretudo pelo salário; a luta dos povos indígenas, ao contrário, é pelo território. Não podemos perder mais tempo brigando pelas migalhas do salário… Esta é a grande diferença no que diz respeito aos movimentos anteriores. Os trabalhadores acreditavam que eram os arquitetos da revolução e que nós éramos os pedreiros. Agora, podemos dizer que o “omelete” virou. Esta é a grande força da nossa luta. Temos que divulgar que não surgimos do nada, que faz muitos anos que lutamos.

EC – O senhor se converteu num símbolo da luta contra o pensamento único, apesar de, publicamente, se mostrar contrário ao protagonismo. Dentro do MAS, como fazem para dar impulso a novas lideranças, sobretudo de mulheres?
Morales
– Estamos trabalhando muito nesse terreno. Parte do nosso salário de deputados se destina a estimular debates, oficinas, cursos de formação. E muitas mulheres estão começando a ocupar cargos de responsabilidade. Somos conscientes de que ainda arrastamos um déficit…, mas queremos trabalhar juntos, afinal de contas nós, homens e mulheres, enfrentamos os mesmos problemas.

EC – Há um outro tema fundamental para que se entender a identidade boliviana: o sentimento de frustração pela perda do mar a partir da Guerra do Pacífico com o Chile, no final do século XIX. O atual presidente, Carlos Mesa, voltou a falar nesse assunto. O senhor não crê que há uma utilização partidária para não deixar que se enfrentem os verdadeiros problemas da Bolívia?
Morales
– Pode ser que sim, mas é evidente que a Bolívia tem que recuperar a soberania deste território. É uma ferida histórica que temos que resolver logo. Nossa posição é conhecida por toda a comunidade internacional. O Chile tem que nos devolver o território usurpado e invadido. Esta é a posição do MAS, de todo o povo boliviano e, é claro, de todos os povos indígenas. Nós somos solidários com os irmãos aymarás e mapuches do Chile; não são eles que têm que responder por este problema, e sim o Governo de Ricardo Lagos.

EC – O senhor se vê como presidente em 2007?
Morales
– Bom, tudo pode acontecer. Se as eleições fossem hoje mesmo, ganharíamos por maioria absoluta, com mais de 50%… Mas Evo não depende de Evo. Evo depende do povo. Se o povo me quiser como candidato, estarei ali, com ele. Se há outro companheiro, também estarei com ele… Não se trata de dizer: eu ou ninguém, nem de verdades absolutas… Evo continuará estimulando o MAS como instrumento político para transformar a sociedade.

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