Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 081 | Ano 9 | Mai 2004
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Kalman J. Kaplan ensina nas universidades americanas de Wayne State e Illinois. Nos conhecemos de maneira curiosa. Ele viu uma referência a um livro meu publicado nos Estados Unidos e me escreveu: eu teria alguma coisa a ver com o Verissimo cujo livro Caminhos Cruzados seu pai traduzira para o inglês, anos atrás? Confirmado que eu tinha muito a ver, escreveu que estava de viagem marcada para o Brasil e gostaria de me conhecer. Nos encontramos em Porto Alegre, no ano passado. Ele e a mulher, Moriah, são pessoas interessantíssimas. Ela estuda ocultismo e religiões esotéricas (por isso viera ao Brasil e se preparava para uma longa estada em Brasília), ele é professor de psicologia e tem trabalhos publicados sobre mitos e religiões num enfoque psicanalítico. Deixou comigo um desses trabalhos, que ganhou relevância especial com a atual discussão sobre Jesus provocada pelo filme do Mel Gibson – que ele odiou, segundo me disse num e-mail recente.

Kaplan tem escrito sobre paralelos bíblicos para os mitos gregos e o estudo que me deixou era uma comparação das histórias de Isaac e Édipo, duas versões para o drama familiar que, segundo a ortodoxia freudiana, está na origem da civilização e das suas neuroses. Isaac era o filho amado que Deus mandou Abraão imolar, Édipo o filho enjeitado condenado a cumprir a profecia feita a seu pai de que um filho o mataria. São duas figuras igualmente sacrificiais e expiatórias, e Kaplan estranha que Freud, mesmo sendo um judeu secular, não tenha preferido o exemplo bíblico ao grego para a sua tese sobre o conflito mais antigo da humanidade. O que diferencia Isaac de Édipo é a natureza do sacrifício e a conseqüência da expiação de cada um.

Deus poupa Isaac da imolação e pai e filho chegam a um acordo que, no fim, é o acordo inaugural do judaísmo. Os terrores do filho diante do pai são atenuados pela sua ritualização – como a circuncisão, que é uma castração simbólica – e o terror do pai diante do filho é transferido: a vinda do Messias, o filho que sustará ele mesmo a faca imoladora e desafiará o pai, fica para um futuro indefinido. Já Édipo cumpre a sua danação. Mata o pai, ganha as glórias passageiras do reino de Tebas e da cama da mãe, mas é derrotado pelo remorso. Sucumbe ao destino reincidente de todo homem e inaugura não uma religião mas um complexo.

O Jesus das escrituras tem muitos precedentes em mitos da antiguidade, heróis expiatórios de outras culturas cujo martírio precede a ressurreição e voltam dos seus abismos e das suas provações como líderes ou deuses. A especulação, hoje disputada, de Freud era que todos os mitos de redenção tinham origem na revolta dos filhos rebeldes contra o pai tirano, nas hordas primitivas. Os filhos matavam e comiam o pai e aplacavam o remorso, o medo de serem literalmente comidos por dentro em retribuição, designando um dos seus como o culpado, sacralizando o crime e o criminoso e imolando o irmão/herói numa oferenda ao pai vingativo. Os mitos judaicos e os mitos gregos substituíam o monomito primevo de formas diversas, mesmo que os dois mitos fossem essencialmente os mesmos. A história de Isaac é um mito de conciliação, a de Édipo um mito de recorrência trágica. As duas buscam a superação do conflito pai x filhos, a de Isaac pela integração sob os olhos de Jeová – nas palavras do profeta Malaquias, “e converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição” – a de Édipo pela resignação aos ciclos da condição humana, inegociáveis, pelo menos até que venha a psicanálise. Já a tradição messiânica dá no Cristo, cujo triunfo histórico se deve ao seu ineditismo. No mito cristão o filho confronta o pai, mas o filho e o pai são a mesma coisa. O pai não mata o filho, o filho é imolado em oferenda a si mesmo. E é a carne do irmão/herói, não a do pai, que os irmãos comem, simbolicamente, na eucaristia, subvertendo o rito primevo enquanto o repetem.

E o mito cristão não é cíclico. Ele rompe a reincidência protelatória do mito judaico e a dos eternos retornos do mito grego. Seu herói venceu, expiou a culpa coletiva transformando-se por nós no seu próprio pai sem precisar matá-lo, e em vez de um acordo como o de Isaac com Abrahão com a bênção de Jeová ou a submissão a um destino trágico como o de Édipo, trouxe uma novidade que nenhum mito, antes, oferecera: a salvação.

Marcado .Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.


CONTEÚDOS RELACIONADOS