Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 081 | Ano 9 | Mai 2004
NEI LISBOA

Big Brother, mas Big Brother meeeesmo, é o que se pôde ler nos últimos meses na série de reportagens da revista Carta Capital sobre a atuação da CIA, do FBI e de outras agências norte-americanas no Brasil. Pela gravidade do assunto, seria de esperar que ocupasse diariamente as manchetes da grande imprensa do país. Ao contrário, dele pouco se fala, o que prefiro atribuir ao despeito pelo brilho investigativo de um concorrente do que a temores persecutórios dignos da Guerra Fria. Em matéria de paranóia e arapongagem, já chega o que a própria história trouxe à baila.

Depreende-se a partir das reportagens que, em primeiro lugar, até o jardineiro da embaixada ou de qualquer consulado dos EUA é um agente camuflado da CIA, do FBI, do DEA e da NAS (agências antinarcóticos), do U.S. Customs (alfândega) ou, por que não supor-se, da segurança pessoal do cachorrinho de estimação do Bush. Em segundo lugar, todos eles passeiam, investigam e agem país afora e principalmente adentro sem ser jamais monitorados ou chamados a prestar conta de coisa alguma. Ao contrário – e em terceiro –, é a polícia brasileira quem lhes presta contas sobre milhões de dólares que ilegalmente embolsa em troca de obedecer a tudo o que os agentes 86 lhe ordenarem. E, por último, disso tudo sabem todos dentro do governo brasileiro, há muito tempo.

Pérola entre outros tantos disparates, desde 1988 um belo prédio do setor policial sul de Brasília serve de sede para o COIE (Coordenação de Operações de Inteligência Especializada), oficialmente um órgão da Polícia Federal. O prédio foi na verdade construído e equipado pela CIA que, junto com o DEA, ali dentro opera, manda e desmanda em atividades singelas como, por exemplo, grampear o Palácio do Planalto e o Alvorada. Os agentes brasileiros do órgão só se tornam “confiáveis” depois de passar por um teste de polígrafo em Washington, quando são então agraciados com um engorde salarial, obviamente em dólares. Isso explica que um doleiro – indicado pela embaixada americana – seja presença constante em tal órgão da PF, tão à vontade que por vezes é convidado a dar palestras sobre câmbio para os agentes.

As revelações adquirem patética solidez nas palavras de gente como Carlos Costa, ex-chefe do FBI no Brasil (“A vossa polícia é nossa”), ou do exaltado James Derham, quando no comando da embaixada dos EUA (“Temos o dinheiro, as regras são nossas”). Ou ainda de José Roberto Benedito Pereira, ex-corregedor da PF, instado a confirmar se o COIE era uma base da CIA (“É exatamente isso”) e a explicar porque tantos, mais de uma centena de agentes, se submeteram ao teste do polígrafo (“…havia outras bases, chegaram a 14 bases Brasil afora”). De Carlos Costa, também se destaca a espontânea declaração de que “uma das mais importantes funções que temos na embaixada é manipular, conduzir, controlar a imprensa brasileira no que nos interessa”. De fato, os filmes de espionagem são eternos. Considerando-se que o atual chefe do COIE se chama Disney Rosseti, outros gêneros de ficção e comédia também estão em alta. Mas a realidade continua imbatível.

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