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Nº 081 | Ano 9 | Mai 2004
EXTRATO

César Fraga

gadotti

Ivo Gonçalves / PMPA - Divulgação

Ivo Gonçalves / PMPA - Divulgação

Ledo engano imaginar que Os mestres de Rosseau, (Editora Cortez, 559 páginas), livro que está sendo lançado pelo pedagogo Moacir Gadotti, trata sobre as influências do iluminista francês Jean-Jacques Russeau (1712-1778) como sugere o título. Nada disso, mas também isso. O autor inspirou-se nos três mestres citados de Russeau enunciados em Emílio: o eu (autoformação), os outros (heteroformação) e as coisas (ecoformação) para reinterpretar seu próprio diário pessoal e íntimo que mantém desde seus 14 anos de idade. Segundo Gadotti, um diário só faz

sentido para quem o escreve, pois é incoerente em si. Só passa a fazer sentido quando ele se estende por um longo período e a partir da revisão deste. No caso do seu, que cobre meio século – começou a ser escrito em 1954 –, torna-se fundamental para a reconstituição da sua história pessoal e intelectual, uma espécie de ajuste de contas com base na auto-reflexão – conceito que toma emprestado de Habermas. No final das contas, o que pareceria ser um livro de memórias é, na verdade, um apanhado de idéias e de pensamentos sobre a vida, educação e principalmente sobre o papel da pedagogia.

Seguindo a máxima de Paulo Freire, de que “aprendemos com a própria vida”, Moacir Gadotti utiliza a trajetória pessoal para subsidiar sua argumentação. “Nada melhor do que mostrar o que aprendemos com ela, por meio dela, para descobrir o sentido da educação que deve estar centrada na vida”, explica o autor já no início do livro. Mas o que mais tem Rousseau a ver com tudo isso? O próprio responde em outra de suas obras, Profissão de fé do vigário de Sabóia, em que escreve que tudo o que aprendeu foi pela inspeção do universo. Gadotti vai além do paralelo com o filósofo e amplia o significado, buscando novamente as palavras de Freire ao defender que tudo que aprendemos se dá pela “leitura do mundo”.

Portanto, o livro está muito longe de ser uma mera narrativa autobiográfica, muito embora esta, neste caso, se preste como matriz pedagógica e de formação. A pedagogia e a vida do autor passam a existir uma em função da outra. Os mestres de Rosseau pretende utilizar o histórico de vida como método de entendimento não só individual, mas de um grupo social por meio da “reflexão crítica sobre a prática”, outro legado de Freire.

A maior crítica do autor às práticas pedagógicas diz respeito a distância que a escola mantém de conteúdos que, segundo ele, deveriam estar mais presentes: o amor, a dor, os projetos de vida, a morte. Para Gadotti, o cotidiano e as questões relacionadas à afetividade têm de ser mais valorizadas pelo educador, a partir de uma espécie de pedagogia da existência.

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