Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 082 | Ano 9 | Jun 2004
CULTURA

Fatimarlei Lunardelli

O barulhinho da pipoca crocante faz parte das emoções cinematográficas de Camila Moraes Wudich. Para ela, cinema e pipoca combinam sempre, mesmo em casa, vendo filmes no vídeo. Mas admite, o gosto é diferente. Na fila para assistir à Tróia, ela não sabia que a pipoca vendida nos shoppings é importada, nem que o filme é uma superprodução cujo lançamento em maio foi mundial e que, no Brasil, ocupou 25% do circuito exibidor. Camila foi motivada pela propaganda na tv. Aos 15 anos, ela faz parte do público que sustenta a rentável indústria audiovisual. No mundo inteiro, são as pessoas entre 15 e 25 anos que mais freqüentam cinemas, nos horários vagos de uma vida ainda sem compromissos profissionais e familiares.

Para elas, as grandes produções são concebidas desde a narrativa dos filmes, a divulgação, até o lançamento no estilo splash, sistema que ocupa centenas de salas simultaneamente. Para Camila, Tróia é um filme legal para ver com os amigos, e sua única preocupação é devorar pipocas ao longo de uma tarde divertida.

O cineasta Cacá Diegues, diretor de Deus é brasileiro, costuma dizer que o filme tornou-se coadjuvante da pipoca. De fato, os desdobramentos da sociedade de consumo transformaram as bombonieres em estrelas nas salas de cinema. É o ponto de maior rentabilidade para o exibidor, mais do que o filme.

“Nosso negócio não é cinema, é entretenimento”, esclarece Ricardo Difini Leite, da empresa GNC Cinemas, proprietária de um circuito de 33 salas entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Partindo da lógica de que o filme é idêntico em todas as salas, há um estímulo para atrair o público através de diversificadas estratégias de marketing.

Há dez anos não era assim. O mercado modernizou-se na década de 1990, sob o impacto da entrada no Brasil do capital estrangeiro com o conceito dos multiplex. Trouxeram a racionalidade das operações visando à redução de gastos e técnicas de sedução do público.

O atual mercado de cinema contabiliza 1800 salas em todo o Brasil. Cerca de 350 são empresas estrangeiras: os multiplex. Ancoradas em uma área de lazer ou compras, várias salas reunidas oferecem títulos diferenciados com uma alternância de horário de 10 minutos entre as sessões. Existe sempre um filme por começar, e, enquanto o público aguarda, estrategicamente posicionado na área das doçuras e refrigerantes, é envolvido pelo aroma da pipoca. É para não resistir.

Nos bastidores da projeção, as unidades do passado foram substituídas por uma cabine conjugada que reúne todas as máquinas necessárias. A concentração no espaço dispensa a necessidade de um operador por equipamento, e alguns poucos técnicos fazem todo o sistema funcionar.

Tudo vem de fora, exceto o público

As novas gerações não conhecem as cadeiras de madeira na qual os cinéfilos de outrora acomodavam indiferentes o corpo, hipnotizados pela luz da tela. As acolchoadas poltronas de hoje, com respaldo alto, porta-copos embutido, espaço para pipoca e braço removível para namorados são importadas da Espanha. Uma única empresa nacional, a Giroflex, associada à americana Irwin, fabrica as poltronas exigidas pelos novos tempos.

Quanto aos projetores profissionais de 35mm, nossa dependência tecnológica é histórica. Nunca desenvolvemos uma indústria própria. Desde sempre, o mercado está inundado de Bauers alemães, Gaumonts franceses ou Cinemecânicas italianos. Em termos de som, cujos avanços têm sido vertiginosos, são as empresas americanas Dolby Stereo e Dts, da Sony que dominam o setor.

A pipoca é um personagem recente que se diferencia pelo cheiro. O milho vem dos Estados Unidos, distribuído para a maioria dos cinemas brasileiros por uma empresa argentina. Os argumentos são irrefutáveis: desde o sabor com ervas aromáticas, passando pela maciez e o aproveitamento. Experimentou-se o milho de um plantador do Paraná, mas metade ficava no fundo das máquinas sem estourar. Uma frustração.

A falta de investimentos para pesquisa no Brasil produz nossa dependência até no óleo para estourar a pipoca. É importado junto com o milho. O resultado do uso de óleo comum aparece no depoimento do distribuidor Roberto Plotecia: “Era um cheiro pestilento por todo o shopping, que todo mundo reclamava”.

Hollywood arrecada metade dos ingressos do mundo

Os filmes que dominam o mercado também são estrangeiros. Na verdade, norte-americanos. São os blockbuster, superproduções com efeitos especiais de última geração, astros conhecidos, orçamentos milionários que rendem uma fortuna. Metade dos gastos vai para o marketing de lançamento, quase sempre mundial. Com esses filmes, não mais do que cinco por ano, a indústria de Hollywood arrecada metade da movimentação financeira do setor audiovisual no mundo.

O gráfico apresenta o desempenho dos dez maiores mercados em 2003.

Os dados são do Atlas du Cinéma, uma edição especial da revista francesa Cahiers du Cinéma, lançada no recente Festival de Cinema de Cannes, em maio. A Índia possui a indústria mais poderosa, restrita ao consumo interno com predomínio do filme nacional. Já as produções hollywoodianas lideraram na maioria dos países.

O mercado nacional é forte na Ásia, revelam os números do Japão e da Coréia.

Ditadura do mercado

foto_pipoca_ricardo

Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

O primeiro gesto do mercado cinematográfico na segunda-feira pela manhã é conferir o desempenho dos filmes no fim de semana. A partir dos dados, começa um jogo de negociações que termina na terça-feira à tarde, com a definição da grade de programação da semana. É uma luta de braço entre vários interesses em confronto. Um dos parâmetros é a média de ocupação das salas, cada uma com perfil definido pelo público freqüentador e os filmes que exibe. Mas, se um blockbuster estiver sendo lançado, não importa que o filme em cartaz tenha superado a média.

Das 59 salas de Porto Alegre, o GNC Praia de Belas 3 possui um dos maiores índices de ocupação do Brasil. O circuito se beneficia do charme de ter sido o primeiro cinema de shopping da cidade, no início dos anos 1990. Apesar do crescimento do mercado, Ricardo Difini, sócio da empresa e presidente da Federação Nacional das Empresas Exibidoras, considera a expansão controlada: “existem nichos, mas o número de salas não vai aumentar muito”.

Um exibidor só consegue filmes rentáveis se possuir várias salas para negociação. Se for do interior a situação fica mais difícil e só irá receber cópias ao final do circuito dos centros urbanos. Mas aí o filme já está nas locadoras. É um desestímulo para os pequenos. A hegemonia pertence a três empresas: as brasileiras UCI e Severiano Ribeiro, no mercado desde 1917, e a norte-americana Cinemark, no país desde 1997. Juntas possuem 32% das salas, mas faturam 52% da arrecadação total. A explicação é simples, aponta Difini: “estão localizadas em grandes cidades”.

Filmes de arte passam por corridas de obstáculos

foto_filmes

Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

O gerente da Columbia Pictures para o Rio Grande do Sul, Roberto Plotecia, não tem ilusão quanto à característica do mercado cinematográfico: “é uma luta dos grandes contra os pequenos”. Com uma carteira anual de cerca de 100 títulos para lançar, Plotecia ocupa-se tanto de blockbuster, como a série Homem Aranha, quanto pequenos filmes de diversos países, co-produzidos por sua empresa para distribuição internacional.
Consciente da dimensão econômica da atividade, mas igualmente apaixonado por cinema, Plotecia defende os filmes pelo aspecto cultural. É o caso da excelente produção uruguaia Corazon de Fuego, melhor filme do júri popular no Festival de Gramado do ano passado, que ficaria inédito no Brasil, apesar da distribuição da Columbia. A empresa havia obtido lucros no Uruguai e Argentina e não queria arriscar. Plotecia negociou a permanência da cópia e lançou no circuito de arte de Porto Alegre e Santa Catarina. Foi suficiente para cobrir os custos de lançamento e dar lucro à distribuidora, que fica com 50% sobre a bilheteria.

O Rio Grande do Sul, aliás, é conhecido na cinematografia por um diferencial: “Porto Alegre tem um público de elite, é bom para filme de arte”, declara Plotecia. Mesmo assim, fazer um filme “menor” chegar às telas é uma corrida de obstáculos que começa na produção, nas estratégias para transformar um projeto em imagem.

O cinema brasileiro no meio do negócio

foto_pipoca_bilhete

Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

O cinema brasileiro teve em 2003 um desempenho excepcional, ampliando espaço no mercado interno. Por trás dos números, no entanto, é importante sinalizar a participação estrangeira nos filmes de massa. O maior sucesso, Carandiru, é um blockbuster brasileiro. Custou R$ 12 milhões, foi lançado com 250 cópias e apoio de mídia televisiva da co-produtora Globo Filmes. A Columbia Pictures fez a distribuição nacional e a Sony, internacional. No Brasil, Carandiru foi visto por mais de 4,6 milhões de espectadores.

A maioria dos filmes, no entanto, são projetos pequenos, que lutam à sombra dos gigantes. Por isso, a insistência na polêmica legislação de cota de tela, uma espécie de reserva de mercado que obriga as salas a exibirem os nacionais. É o modelo francês, aplicado em cinematografias periféricas. Parte do sucesso da produção asiática deve-se à política de cotas em vigor na Coréia desde 1985, contra a qual os norte-americanos tentaram uma ofensiva sem sucesso.

Pipoca nacional

No Brasil, a legislação vem dos anos 1930, criada na ditadura Vargas. Na metade da década de 1970, época de acirramento diante do grande volume de filmes brasileiros, a reserva de mercado tornou-se caso de polícia com o fechamento de salas infratoras. A obrigatoriedade atual é de 63 dias por ano e um novo capítulo começou no final de abril. Um decreto presidencial deu à Agência Nacional do Cinema poder de fiscalizar e aplicar multas nas salas que não cumprirem a cota. “É a volta da Embrafilme com poder de polícia”, alerta Difini, lembrando que o desempenho do ano passado não dependeu de nenhuma lei.

É verdade, o cinema brasileiro está em ótima fase. Conforme levantamento do site Filme B, especializado no mercado cinematográfico, existem 190 filmes em diversas fases de realização. Cerca de 30 estão com data marcada para estrear até o fim do ano. Diante do predomínio da lógica do cinema hegemônico de massa, no entanto, não há garantia de acesso do público. A diversidade é mais facilmente encontrável na locadora da esquina, para uma modesta sessão caseira, acompanhada por pipoca nacional.

Marcado .Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.


CONTEÚDOS RELACIONADOS