Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 083 | Ano 9 | Jul 2004
EXTRAPAUTA

O Tribunal de Nanterre (França) julgou Edgar Morin inocente da acusação de “difamação racial” e “apologia de atos de terrorismo”. O julgamento foi em maio, conseqüência do que o próprio filósofo classifica como uma campanha de intimidação. As pressões que culminaram no processo iniciaram logo após a publicação do artigo “Israel-Palestina: o câncer”, co-assinado com o deputado europeu Sami Naïr e a escritora Danièle Sallenave, publicado em 2002 no Le Monde. Parte da comunidade judaica francesa sentiu-se ofendida com o conteúdo do texto. Mas gente do cacife de Alain Touraine, Jean Baudrillard, Régis Debray, Frederico Mayor, Mario Soares, Paul Ricoeur, Gianni Vattimo, Pierre Vidal-Naquet e Paul Virilio foram alguns dos mais de 100 intelectuais que assinaram a “Declaração em favor de Edgar Morin”, que por sinal é de origem judaica. “Questionar o atual governo de Israel e a maioria dos israelenses que o apóiam não tem nada a ver com uma condenação dos judeus. Esse processo mostra que pesadas ameaças, que tomam freqüentemente a forma de intimidações, pesam sobre a liberdade de expressão na França… Os acusadores de Morin pensam, provavelmente, que defendem o Estado de Israel. De fato, eles podem reacender o anti-semitismo ao identificarem completamente a política atual do governo israelense com o Estado de Israel e com todos os judeus. Nosso futuro depende do acordo entre israelenses e palestinos”, resume o texto da declaração. No final do texto, os signatários homenageiam Morin, que, segundo eles, “sempre se opôs a todas as formas de exclusão do outro e, por suas posições, serve à causa da paz e não à guerra”.
Com quantas tartarugas se faz a Justiça?

O Ibope fez uma pesquisa de opinião sobre Justiça, Judiciário e juizes brasileiros. O universo pesquisado foi de 16 grupos, na faixa etária dos 16 aos 24 anos e dos 35 aos 50 anos, das classes AB+ e CD, em quatro capitais brasileiras, entre elas Porto Alegre.

Os resultados já estão sendo apresentados “à boca pequena”, em pequenos grupos, por dirigentes da AMB – Associação dos Magistrados Brasileiros -, que encomendou e financiou a pesquisa. Uma das conclusões é que “o juiz se constitui em elemento fundamental para a credibilidade e a confiança no sistema; desperta sentimentos de respeito e solidariedade, já sendo visto como alguém poderoso, mas que trabalha muito e tem grande responsabilidade”. Por outro lado, Poder Judiciário e Justiça não desfrutam da mesma simpatia do público. Segundo o Ibope, a imagem do Judiciário brasileiro, de forma generalizada é de “uma entidade distante, fechada em si mesma, estática e predominantemente negativa”. Além disso, a população entrevistada manifestou desconhecimento sobre o papel real do Judiciário, confundindo suas atribuições com as do poder Executivo e da própria polícia no que se refere à segurança e criminalidade; e com as do Legislativo, na elaboração de leis.

Os pesquisadores do Ibope perguntaram qual seria o animal que melhor retrataria o Judiciário. A maioria dos entrevistados apontou a “tartaruga” como resposta. Mas, segundo o que vem sendo divulgado a partir das conclusões do Ibope, a média das justificativas não se refere ao animal por sua característica clássica de “lentidão”, mas que a tartaruga, apesar de ser um animal lento, também é calmo, se protege no casco, tem vida longa, sendo experiente e sábio. Então tá.

Império à brasileira

Enquanto o presidente Lula se preparava para levar seu séquito para Nova Iorque, numa espécie de lua de mel com Wall Street, em viagem que a Folha de São Paulo apelidou de turnê, os diários argentinos de Buenos Aires divergiam sobre o papel do Brasil em relação aos EUA e aos interesses argentinos. De um lado, o La Nacion em matéria intitulada “O grande irmão do norte”, sobre o Brasil, demonstra a insatisfação dos hermanos com a política externa brasileira. Para eles, apesar de já não ter a vocação imperialista de outras épocas, o Brasil estaria decidido a exercer uma liderança paternalista na América Latina e a atuar como o contrapeso dos Estados Unidos. Bom, até aí nenhuma novidade. O La Nacion destacou, porém, que um ponto distingue a política exterior brasileira, e é a sua coerência ao compará-la com a da Argentina que seria o óbvio oposto. Mas, no miolo do texto, o especialista em comércio Juan Tokatlian acaba elogiando as ações brasileiras. Já o Clarín deu longa reportagem intitulada “Potências do futuro”, ou seja, os países como Brasil, Rússia, Índia, China, ao falar da viagem do presidente Néstor Kirchner a Pequim. E tanto Clarín como La Nacion ressaltam a reação da chancelaria argentina à União Industrial Argentina (UIA) – que criticou a abertura do país aos produtos brasileiros. A chancelaria acusou a UIA de agir “com objetivo político” e “pensar como nos anos 1990, num país que podia viver encerrado em si mesmo”. Parece que a imprensa argentina está do lado dos empresários.

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