Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 083 | Ano 9 | Jul 2004
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Nos meus tempos de Aliança Francesa, lá pelo século XIX, era sempre tenso o momento de ler em voz alta ou usar numa frase o nome francês para pescoço. Pescoço em francês era um desafio à seriedade e ao autocontrole da classe. Não nos olhávamos. Ninguém fazia um ruído que pudesse ser confundido com riso abafado, ou o gemido de quem se continha a muito custo. Por que os franceses, com uma língua tão bonita, tinham inventado de dar logo aquele nome ao pescoço? Lembro de um filme da Atlântida em que o Grande Otelo, obrigado, por alguma razão, a falar francês com uma mulher, chegava à mesma situação que nos atormentava. Não havia como evitar: ele precisava dizer pescoço. Disse “Le pescocê”. Afinal, estava na presença de uma dama.

A coisa mudou muito desde então. O “palavrão”, que no caso era uma palavrinha, caiu em uso corrente e hoje é ouvido em sala de aula, filme, rua, casa e convento sem que ninguém sofra muito com isto. O que é ótimo: pra que ter medo de palavras? Velhos tabus desmoronam, armários em que as pessoas escondiam o que eram são escancarados, os bois ganham nomes, os is ganham pontos e tudo está na cara, e às claras, num mundo, afinal, tornado adulto e sem vergonha. Mas persistem certas áreas em que reina o eufemismo, ou a necessidade tática de chamar as coisas por outro nome, e por isso tenho pensado muito no Grande Otelo. O que ainda é chamado de “pescocê” quando deveria ser chamado de outra coisa?

O economismo neoclássico sofreu alguns abalos nos últimos anos, com a deserção ou a autocrítica de alguns dos seus luminares, mas nem toda a evidência acumulada de que o domínio do seu pensamento único só aumentou a desigualdade e a miséria no mundo impede que ele continue a ser chamado de “pescocê”. O Brasil do PT desencaminhado é um exemplo doloroso das conseqüências deste estranho acidente semântico, ocorrido não se sabe bem quando: o dia em que as frases “responsabilidade fiscal” e “responsabilidade social” passaram a ser antônimas, e excludentes. Mas se insiste que aqui não é assim, ou se insiste que o nome certo disso é “pescocê”. A intervenção americana no Oriente Médio e a diferença entre seus objetivos anunciados e suas causas verdadeiras são a maior consagração atual da solução Grande Otelo.

A…

Mas faça você a sua própria lista. Apesar de toda a bem-vinda liberalidade, o mundo ainda está cheio de “pescocês” que não ousam dizer seu nome verdadeiro.

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