Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 083 | Ano 9 | Jul 2004
CULTURA

Fatimarlei Lunardelli

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Com uma sensação de alívio, o escritor Charles Kiefer concretizou há algumas semanas o antigo projeto de passar a administração de toda sua obra para um agente literário. Rendeu-se à implacável lógica capitalista: “se as regras do jogo são essas, então vamos dançar conforme a música”. O consagrado autor, com mais de 300 mil livros vendidos, estava exausto de comercializar, brigar por direitos autorais e outros quesitos desgastantes da indústria cultural.

Numa imagem romântica, a escritura de um livro é um processo íntimo, de um criador com idéias originais lutando contra o vazio de um papel ou tela de computador em branco. Terminada a criação, começa a parte difícil. Encontrar um editor, negociar custos e divulgar são tarefas infernais para a maioria dos escritores. Nesta altura, aquilo que era criação artística passa a ser produto na selva da sociedade de consumo. Fazer o livro chegar ao leitor é um desafio e requer competência e especialização.
Neste ponto do processo entra o agente literário: novidade no mercado editorial brasileiro, é um profissional consolidado na Europa e Estados Unidos.

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Foto: Antonio Monteiro

Foto: Antonio Monteiro

Leitores de Gabriel Garcia Márquez ou Mário Vargas Llosa não imaginam o quanto o sucesso desses notáveis nomes da literatura latino-americana deve a uma agente literária considerada mítica. A espanhola Carmen Balcells foi quem “criou” esta profissão no mundo ibérico. Sua agência, da qual está aposentada, continua sendo peça fundamental na difusão mundial da literatura latina. Entre os escritores brasileiros que representa estão Jorge Amado, Antônio Callado e Clarice Lispector.

” Nós estamos vivendo, no que tange ao mercado de livros, algo novo que são ‘as’ agentes literárias”, acentua o escritor Luís Antônio de Assis Brasil. De fato, as mulheres predominam neste setor nascente. Ana Maria Santeiro, da AMS Agenciamento começou ao lado de Carmen. Em 1990, Lucia Riff abriu a BMSR, e Alexandre Carlos Teixeira, da Solombra Books, começou como herdeiro da obra da avó Cecília Meirelles. Há dez anos, a Página da Cultura é mantida por Marisa Moura, que brinca: “somos meia dúzia de três ou quatro”. Todos são do centro do país.

Dois fatores principais são responsáveis pela emergência do agente literário no Brasil: a estabilidade econômica dos últimos anos e a Lei 9.610, de regulamentação do direito autoral, editada em 1998, dando mais poder ao autor sobre a circulação e comercialização de sua obra. O livro tornou-se mercadoria atrativa, ganhou um caráter comercial e vendável mais acentuado.

Quanto vale o favor

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Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

O agente literário objetiva relações atravessadas por um forte componente emocional. Sendo representado, o escritor se livra da desgastante discussão sobre o valor comercial de uma obra com a qual mantém intenso vínculo afetivo. Assim como há editores que consideram um favor publicar um livro, existem autores que desconfiam da boa fé dos editores.

Kiefer festeja os benefícios da profissionalização: “o agente pode dar mais dignidade a esta relação que, no Brasil, tem sido de compadrismo ou favor”. Reconhece este quadro desde que morou nos Estados Unidos, em 1986, e percebeu que todos os escritores tinham um agente. Foi a amizade antiga com Roque Jacoby, da Mercado Aberto, que retardou a decisão tomada somente depois da venda da editora. “Eu até poderei continuar com a mesma editora, mas isso vai depender da negociação da agente”.

Em mercados avançados, a idéia de um escritor sem agente é inconcebível. Luís Antônio de Assis Brasil surpreendeu editores franceses ao ser procurado para publicação de O Homem Amoroso na França, em 2003. Ele não tem agente literário. Não se trata de nenhuma oposição. Simplesmente, um dos maiores autores da nossa literatura considera que não chegou o momento. “Eu tenho sabido negociar, aprendi.” Seus 15 livros, a maioria romance, saíram pela Movimento, Mercado Aberto e agora são comercializados pela L&PM.

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Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

Um detalhe não deve ser desconsiderado. Assis Brasil conjuga com a formação em Letras uma em Direito. Ou seja, domina aquilo que assusta a maioria dos escritores. “Talvez faça diferença”, afirma sorrindo. Mas recomenda o agente, especialmente para os alunos das oficinas literárias que desenvolve na PUC desde 1985. Lição seguida por Letícia Wierzchowski, cujo sucesso do romance histórico A Casa das Sete Mulheres não deve ser dissociado do fato de o livro ter sido apresentado a Maria Adelaide Amaral pela agente literária Lucia Riff. Tornou-se minissérie de sucesso da Rede Globo.

O que faz um agente literário

Conhecer o mercado editorial é a principal qualificação necessária para um candidato à profissão de agente. O momento atual é de abertura a novos autores, que, no entanto, existem em número maior do que as editoras conseguem publicar. Uma obra pode ficar parada até dois anos em uma editora antes de receber um parecer para publicação. A esta altura, o autor, se um dia pensou em viver da literatura, já está redefinindo objetivos.

O agente racionaliza o processo. Com uma obra na mão, pesquisa e busca as editoras cujo perfil é mais adequado àquele conteúdo. “É uma vantagem, pois o agente está fazendo a seleção”, acentua Marisa Moura, que investe em novos talentos. Dos 36 autores da Página da Cultura, metade estão em início de carreira. Formada em letras, com mestrado em marketing literário, Marisa faz questão de dispensar o gosto pessoal na seleção. Para avaliar os textos, contrata pareceristas atuantes no mercado, afinados com as tendências, em busca das melhores oportunidades comerciais.

A outra metade do catálogo é de autores consagrados, cuja obra administra. É onde Charles Kiefer, com 27 livros publicados e três inéditos, se enquadra. Os rendimentos de um agente variam de 10 a 20% sobre os ganhos editoriais do autor.

Para Marisa, o trabalho do agente deve beneficiar tanto o escritor quanto o editor, “um bom contrato atende as duas partes”. Do ponto de vista econômico, não cabem ingenuidades, todos estão no jogo para ganhar mais, cada um com sua tarefa. “O escritor escreve, o agente vende e o editor edita”, ensina a agente.

Os gaúchos nas prateleiras

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Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

Há mais de 50 semanas o livro Perdas & Ganhos, de Lya Luft, figura na lista dos mais vendidos da revista Veja. A ótima fase da escritora nascida em Santa Cruz é sinalizada pela transferência da editora Siciliano para Record com a edição de Mar de Dentro, em 2000. Desde então, obras novas alternam-se com reedições. Numa visita ao site da BMSR, o nome de Lya é encontrado entre os 45 autores da agência, junto com Érico Veríssimo, Kledir Ramil, Luís Fernando Veríssimo, Mário Quintana e outros do sul.

Para o editor Geraldo Huff, que já presidiu a Câmara Rio-Grandense do Livro, a análise do quadro atual de valorização da literatura gaúcha não deixa dúvidas sobre o papel dos agentes literários. Com a entrada de Kiefer, Marisa Moura passa a agenciar sete autores nascidos no Rio Grande do Sul, incluindo João Gilberto Noll e Luis Pedro Pedroso Ricciardi, jornalista com vasta publicação em cooperativismo.

A lógica da segmentação no mercado globalizado ensina que há público para tudo, basta que seja identificado. Ganhador de três prêmios Jabuti, Kiefer vende mais livros na França e na Suíça do que em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Entre o mercado potencial e a dura realidade

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Ilustração: Claudete Sieber

Ilustração: Claudete Sieber

O Brasil tem um mercado potencial apenas em tese, e isso nem o agente literário pode mudar. Na França são vendidos 22 livros per capita por ano. Os argentinos compram uma média de 8, enquanto no Brasil, estamos reduzidos a um único volume por pessoa. Esta média inclui os didáticos, paradidáticos, religiosos e de auto-ajuda. Sobra para a literatura uma cifra que é quase ficção. O mercado é restrito e o motivo é econômico. As pessoas têm pouco dinheiro e priorizam a compra de comida.

O fator cultural contribui de forma secundária no consumo reduzido de livros. Um CD musical e um livro têm o mesmo custo, mas, na hora de escolher, em virtude das dificuldades de compreensão decorrentes de uma escolaridade precária, as pessoas preferem o caminho mais fácil da música. Para Assis Brasil, a expansão do mercado depende da melhoria do ensino.

De certa forma, as oficinas literárias que desenvolve contribuem para formação de leitores. Nem todos que escrevem tornam-se escritores. Aliás, ser escritor é uma decisão que implica uma atividade contínua. Uma pesquisa sobre os participantes das oficinas indica que apenas 21,35% seguem a profissão, fazendo o que Marisa recomenda aos jovens: “escrever muito e manter-se bem-informado”. Os demais tornam-se bons leitores e difusores da literatura.

Incipiente em relação aos mercados desenvolvidos, o Brasil não explora formas mais baratas de publicação, como brochura e clubes do livro. A diversificação dos pontos de venda é outra possibilidade mercadológica que recém está se constituindo, mesmo caso dos supermercados e lojas esotéricas.

Poucos para muitos

Existem poucos agentes para muitas demandas. Sendo uma atividade nova no Brasil, é uma profissão em construção. A Página da Cultura é procurada especialmente por editoras estrangeiras interessadas em publicar aqui e por escritores brasileiros desejosos de se expandir para o mercado internacional.

Quanto aos direitos autorais, existem escritórios de advocacia especializando-se neste setor, também em expansão. Oferecem serviços de contratos e administração, mas a expectativa de um autor em relação a um agente ultrapassa o âmbito jurídico.

Conseguir tempo para conversar com todos os autores é o maior desafio no cotidiano de Marisa Moura. A relação, necessariamente baseada na confiança, também é carregada de afeto. O lado prazeroso é estar em permanente contato com a ebulição da criação. Sensibilidade também é ingrediente fundamental de um bom agente literário.

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