Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 084 | Ano 9 | Ago 2004
NEI LISBOA

Alguém precisa resolver essa questão da aceleração do tempo. Não é possível que os dias continuem encurtando desse jeito sem que o governo tome uma atitude ou que a ONU intervenha para estancar o processo. Com semanas passando cada vez mais rápido e o mês voando sem que a gente perceba, um belo dia vamos consagrar aquela expressão “parece que foi ontem” a qualquer coisa acontecida – foi tudo ontem mesmo. E o belo dia pode ser amanhã.

Calcula-se que a última década tenha durado oito anos e meio, na média, ponderando as especificidades regionais e distorções atribuídas ao efeito estufa. Aqui em casa, posso garantir, foi bem menos. Tenho plena consciência de que uma hora não é mais uma hora há já bastante tempo e que inclusive bastante tempo não é tempo o bastante há horas. Por exemplo, uns meses atrás recebi a notícia de que ia ser pai, e agora me dizem que esse toquinho falante aqui no pé da minha cadeira tem um ano e meio de idade. Obviamente ninguém vai me convencer de que essa contagem se dá pelo sistema antigo, em que o ano tinha 365 dias e o dia as suas 24 horas, que aliás eram mais do que suficientes para a gente trabalhar, estudar, ir ao cinema, arrumar a casa, jogar conversa fora ao telefone ou no boteco e ainda encarar um madrugadão na TV. Não, não, algo me diz que a curvatura espaço-tempo precisa de um ortopedista tanto quanto a minha coluna vertebral.

Consta que Einstein, em cartas a sua primeira esposa, Mileva Maric, referia-se a formulação da teoria da relatividade como “o nosso trabalho”, o que deu origem a uma polêmica sobre a real colaboração da esposa – que brilhante cientista não era – nas suas descobertas. Hoje pode-se deduzir sem receio que o “trabalho” a que se referia Einstein era a criação dos filhos do casal, tarefa legada exclusivamente à mulher, e que foi observando os pimpolhos crescerem que todos os insights da relatividade ocorreram ao pai. Livre de atribulações com mamadeiras e fraldas, pôde dedicar-se por inteiro a sistematizar em equações a magia da vida que via desabrochar sob os cuidados da Mileva.

Mas isso foi lá no tempo em que a relatividade era só uma teoria. Não é mais: agora mesmo olhei no relógio e vi que a última hora se passou em 45 minutos, e se eu não mandar logo essa coluna vou descobrir pelo César Fraga (editor do EC e pai fresco como eu, não vai aceitar fraldas como desculpa) que o meu tempo não apenas era relativo como se foi de vez.

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