Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 084 | Ano 9 | Ago 2004
ENTREVISTA | GILLES LIPOVETSKY

César Fraga

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Fotos: Luiz Carlos Murauska/ Folha Imagem

Para alguns, a pós-modernidade morreu; para ele, nunca existiu. Na tarde do dia 17 de julho, o Extra Classe ouviu por telefone o filósofo Gilles Lipovetsky, 59, reconhecido teórico do individualismo, que visita o Brasil em agosto para conferências em Campinas (SP) e para o lançamento, em Porto Alegre, do livro Metamorfoses da Cultura Liberal (Sulina, 88 pags.). Ele nos falou diretamente de sua residência em Grenoble (França), onde leciona filosofia. Recentemente lançou na Europa, ainda sem previsão de publicação no Brasil, Les temps hipermodernes, livro que esmiúça o conceito de hipermodernidade, criado por ele. Para o filósofo, o homem hipermoderno está fragilizado pelo medo em uma era de exageros. Mas Lipovetsky não é um apocalíptico. É um otimista que defende as democracias liberais e critica os que satanizam a mídia. Leia a seguir o que o autor de A era do Vazio (1983), O Império do Efêmero (1987), O crepúsculo do dever (1992) e A terceira Mulher (1997) tem a dizer.

 

Extra Classe – A pós-modernidade está morta ou nunca existiu?
Gilles Lipovetsky
– Para responder em poucas palavras, eu acho que ela nunca existiu. Eu fui um dos teóricos que popularizou o termo, assim como outros, é claro. Quando eu abordei essa noção de pós-moderno, o fiz numa tentativa de explicar fatos novos e uma nova realidade. Os fatos que eu estava assinalando, assim como os demais teóricos, são bem pontuais: o fim das ideologias, o surgimento de uma nova cultura hedonista, o destino da comunicação e do consumo de massa, o psicologismo, o culto do corpo. Todas essas realidades mostravam que havia um novo capitalismo e também um novo tempo da vida democrática. Foi para marcar essa mudança muito importante que empregamos o conceito de pós-moderno, assinalando, assim, uma bifurcação. Entendo que isso foi correto e verdadeiro naquele momento. Abordamos esses fenômenos sob o conceito de pós-moderno, pois percebíamos um sentimento de liberação em relação aos grandes discursos políticos, em relação ao isolamento dentro dos costumes, inclusive no que diz respeito à vida sexual. A pós-modernidade surgia para nós como uma saída da prisão, ao mesmo tempo em que a modernidade foi um grande ciclo histórico dominado pelo futuro. Tudo girava em torno de grandes perspectivas históricas: a revolução, a luta de classes, os nacionalismos. Toda a modernidade desde o século 18 construiu-se em nome do futuro, em nome do novo. A nova sociedade que se implantou durante os anos 1950, 60 e 70 estava mais centrada no presente – no hedonismo, no prazer, no consumo, na liberação sexual, – com o fim das grandes crenças políticas. Então, foi isso que legitimou, ao nosso ver, essa idéia de pós-moderno. Mas, mais uma vez, eu insisto, os fatos estavam certos; foi a conceitualização que não estava correta, pois evidentemente não se era pós-moderno, mas se vivia em uma outra modernidade.

CONCEITO

EC – Quais as razões que o levaram a desenvolver o conceito de hipermodernidade?
Lipovetsky
– Como dizia, não havia o fim da modernidade, mas era possível identificar sua nova face. Temos pelo menos duas grandes razões para aceitarmos essa idéia de que não estamos em uma sociedade pós-moderna, mas em uma outra modernidade, ou mais exatamente em uma hipermodernidade. A primeira é que os princípios fundamentais constitutivos da modernidade – a valorização do indivíduo e da democracia em primeiro lugar, a valorização do mercado num segundo plano e em terceiro a valorização da tecnociência – não foram substituídos, apenas radicalizados. Não houve mais do que isso. Agora não há mais nenhum inimigo destes princípios. Portanto, não estamos mais em uma modernidade destruída, mas em um regime hiperbólico, superlativo, porque já não existe um contra-modelo ao que está posto. Até então existiam perspectivas nacionalistas, revolucionárias que propunham outros modelos. Hoje, não há outro modelo que não a democracia ou o mercado globalizado. Há críticas, é claro, mas são críticas dentro desse sistema e não são radicais. Essa é a razão pela qual eu proponho hoje conceituar o período em que vivemos de uma maneira que me parece mais correta, ou seja: a modernidade passou para uma velocidade superior em que tudo hoje parece ser levado ao excesso: são os hipermercados, o hiperterrorismo, as hiperpotências, o hipertexto, hiperclasses, enfim, o hipercapitalismo. O que isso significa? Que a modernidade não tem mais limites, não tem mais críticas fundamentais em relação a si mesma. Daí a percepção que temos hoje de que a aventura da modernidade, no fundo, está apenas começando, e temos um sentimento, que vem de toda parte, de que as coisas estão chegando ao extremo. Quando vamos às grandes metrópoles como São Paulo ou Los Angeles, qualquer uma delas, temos essa sensação de ausência de limite, de uma cidade asfixiada por si mesma. Isso também pode ser visto na pornografia, na qual tudo é mostrado, tudo é visível, tudo está numa espécie de superavaliação extrema. No que se refere à tecnologia, por exemplo, hoje é possível fazer clonagem, modificar o rosto de uma pessoa, sem contar os milhões de páginas publicadas na internet, atualizadas a cada dia. Tudo entre em uma lógica de excrescência que é a própria forma da modernidade. A segunda razão é que o momento da pós-modernidade foi um pouco jubilatório e entusiasta e podemos ver isso na liberação sexual e na contracultura. Foi o fim dos grandes messianismos políticos e não havia uma grande preocupação com a situação material das pessoas. Os tempos mudaram. Hoje, temos uma sociedade que repousa no presente, mas um presente que se tornou muito ansiogênico. As pessoas têm medo. O sentimento de medo substitui o de liberdade. Hoje todos estão habituados à liberdade, estão embriagados por ela. A revolução sexual não tem mais nenhum sentido para as novas gerações porque essas pessoas foram criadas nesse contexto. O momento da liberação, que foi um momento de euforia, já não tem mais sentido. Em contrapartida, há novas ansiedades por diferentes motivações: AIDS, transgênicos, epidemias, poluição, aquecimento do planeta, novas-tecnologias, globalização. Estamos em um mundo de incertezas, de risco. Tudo isso me faz rejeitar o conceito de pós-moderno. Essa conceituação tinha um sentido cultural e não estrutural.

EC – Qual a relação desse novo conceito com a nova ordem econômica mundial de mercado globalizado?
Lipovetsky
– Essa pergunta me parece muito pertinente, pois o mercado como tal é uma realidade moderna. O liberalismo econômico é uma doutrina que data do século 18, ou seja, uma invenção da modernidade. Ora, o triunfo do mercado por meio da globalização mostra bem que hoje estamos na hipermodernidade. Em primeiro lugar, porque o mercado generalizou-se em nível planetário e, em segundo, não há mais um modelo que se contraponha a isso, como já falei antes. Ninguém mais acredita no comunismo, por exemplo, abolindo a propriedade privada como uma solução. Essa visão perdeu a credibilidade. Em terceiro lugar, a única perspectiva que temos hoje é regular esse mercado. O Brasil está bem adiantado nesse ponto, com idéia de defender os países do sul do protecionismo do norte. Também defende a perspectiva de abrir as fronteiras por entender que não existe ainda mercado suficiente, ou seja, é preciso mais mercado para que seja suficiente para todos. Enfim, são críticas no sentido de aperfeiçoar o mercado e não de aboli-lo. É preciso modernizar o mercado, as empresas, racionalizá-las e rentabilizá-las. Estamos em uma espécie de fuga para frente em uma modernização cada vez mais intensa que me parece ser a própria marca da sociedade hipermoderna.

TECNOLOGIA

EC – Como as novas tecnologias e o mercado repercutem no comportamento das pessoas? Esses dois fatores contribuem para uma exacerbação do individualismo como característica cultural dessa nova sociedade?
Lipovetsky
– Podemos dizer que a primeira modernidade, aquela que nasceu no século 18 inventou o individualismo, assim como inventou a democracia e o mercado, como já mencionei. Estamos em uma nova era da modernidade que institui o hiperindividualismo. Lá no início, o individualismo era limitado pelas ideologias, pelas diferenças sexuais, pelo papel da igreja, pelo papel do estado na economia. Hoje, na sociedade de consumo, esses limites foram abolidos, e isso tornou os indivíduos cada vez mais senhores de sua própria existência em todas as categorias da população: jovens, homossexuais, mulheres. Evidentemente esse fenômeno começou com a sociedade de consumo nos anos 1950 e 60 e a partir dos anos 80 o mercado e as novas tecnologias contribuíram para acelerar esse processo. Temos aí os telefones celulares, os computadores pessoais, aparelhos de vídeo domésticos, a internet, etc. Graças às novas tecnologias, os indivíduos passaram a ter um uso do seu tempo de forma diferenciada, inclusive contribuindo para a dispersão dentro da própria família. Antigamente se tinha apenas um telefone e um aparelho de TV em uma residência, o que atualmente já é bem diferente. As pessoas têm o uso do seu tempo com práticas muito mais individualizadas também. A internet permite estabelecer contato com pessoas no momento em que se quiser. Por toda parte há uma sociedade dos livres serviços que se acentuou, e eu insisto mais uma vez, devido à sociedade de consumo e agora mais ainda pelas novas tecnologias.

PARADOXO

EC – O senhor afirma que vivemos em uma cultura paradoxal, dividida entre excesso e moderação. Como o senhor descreveria esse fenômeno?
Lipovetsky
– A descrição disso é muito fácil. Gosto muito dessa pergunta, pois geralmente não há uma descrição suficiente das coisas. É preciso descrevê-las antes de mais nada. Muitas vezes, nas análises da época, nos contentamos com uma teorização, e aí está a fraqueza das coisas. Para explicar melhor, vou dar o exemplo da sexualidade. De um lado, temos uma lógica do excesso. O exemplo típico é a pornografia, é claro. São imagens, cenas supervalorizadas, exageradas que mostram uma sexualidade sem nenhum limite, onde tudo é possível. O paradoxo é que na prática cotidiana a vida sexual não está a esse ponto de excesso. Os homens e as mulheres continuam tendo um certo autolimite e um número de parceiros sexuais limitado. Isso é interessante. De um lado, parece que tudo é possível, tudo é permitido e não é bem assim. É óbvio que há minorias de excesso, mas de forma alguma representam um comportamento-padrão. Trata-se de fenômenos muito periféricos e minoritários. Em geral a vida sexual das pessoas é bem-comportada. Há estatísticas que mostram que pelo menos 80% da população tem um único parceiro durante o período de um ano. Essa é uma descrição da realidade que eu chamo de tensão paradoxal. Há muitos outros exemplos. Talvez no Brasil isso ainda não seja muito nítido, mas, nos países europeus em sua totalidade, temos de um lado uma sociedade voltada para as novas tecnologias, para a invenção do futuro, para o fim das tradições e, ao mesmo tempo, há o culto do patrimônio. Os museus que se multiplicam por toda parte, a proteção da paisagem e do meio ambiente e também o retorno do religioso que é alimentado por mensagens e textos milenares, do passado, portanto. Aqui temos outro dispositivo completamente paradoxal de uma sociedade voltada para o presente com o consumo associado à felicidade e que, ao mesmo tempo, está se reconciliando com o passado. No caso do consumo, temos, de um lado, uma loucura gerada por liquidações, lançamentos, datas festivas e, em contraponto, uma obsessão pela saúde em um comportamento crescente de preocupação com o corpo, cuidados com a alimentação, priorizando produtos saudáveis e de qualidade. Estamos em uma sociedade paradoxal e acho que devemos tomar cuidado para não unificar demais as coisas, pois de um lado há um excesso de modernidade, mas no sentido da oferta, pois a demanda tem sim dimensões de excesso, mas também de moderação e de uma espécie de reequilíbrio. Isso é extremamente interessante porque significa que talvez não devamos reconduzir o modelo da manipulação da alienação, mas que podemos viver numa sociedade em que há normas muito fortes, mas que não tem um impacto considerável na existência dos indivíduos. No caso da publicidade, há uma espécie de invasão. Ela está por toda parte e ao mesmo tempo nunca tivemos tantas críticas a ela. Não faltam exemplos desses paradoxos.

PESSOAS

EC – Quem é o homem hipermoderno e qual relação desse homem com o estado, as religiões e as ideologias? O contexto em que vive o torna mais frágil?
Lipovetsky
– Para resumir, o homem da sociedade hipermoderna é um hiperindividualista. Esse é o conceito. Mas o que significa hiperindividualismo? Que ele é mais responsável pela sua própria existência. Ele tem menos proteção coletiva, das instituições. Ele está mais entregue a si mesmo, o que implica ter de se buscar a si e se auto-inventar. Portanto, como diz a pergunta, ele está mais frágil. Essa noção de fragilidade é uma noção capital para melhor entender qual a face desse novo indivíduo. Essa fragilidade tem uma medida que é o índice de suicídios, de depressão, de ansiedade, de consumo de medicamentos. Isso se mostra por toda parte: o indivíduo que é mais legislador de sua própria existência é também mais frágil do que antigamente. Ele sofre mais pressões do tempo, ora no trabalho, ora na vida privada. Isso faz com que o século 21 que se anuncia seja um século de novos conflitos, não tanto de lutas de classe, mas de conflitos internos, dentro desse homem. Acho que esse hiperindivíduo não se separa da dimensão conflitual da vida privada. Por isso vivemos as separações de casais, os divórcios que têm um caráter muito ansiolítico. Acho que as pessoas cada vez mais suportam com dificuldade os outros e acho que há uma aspiração à comunicação, mas sempre com maior dificuldade em obter uma comunicação satisfatória com os outros. Nos dizem muitas vezes que o homem hipermoderno sofre com sua sexualidade, com as normas ditadas pela chamada tirania do prazer. Acho que isso não é bem verdade. Os novos dramas não estão tão ligados à sexualidade, mas à comunicação, na relação com os outros. Essa é uma primeira dimensão. A segunda dimensão é que na sociedade hipermoderna a confiança no estado e nos aparelhos políticos está declinando. Se o esquema estiver certo, a sociedade de mercado entrega cada vez mais os indivíduos a si mesmos, então haverá demandas em relação ao estado, mas serão bem menores ou, pelo menos, de uma natureza diferente das ocorridas no período anterior. É provavelmente a razão pela qual há menos crenças na política e mais dificuldades em viver (no sentido da existência). Então, estamos assistindo a uma maior aproximação das pessoas em relação às religiões. O fenômeno é bastante complicado de ser resumido, porque, de um lado, pode haver uma recomposição de certas formas de fanatismo e até de uma força do grupo sobre o indivíduo, mas, por outro, o fenômeno que me parece mais significativo é o modo como as religiões estão sendo recicladas pela lógica individualista. Concretamente isso significa religiões à la carte. Ou seja, na época hipermoderna os indivíduos buscam algo na religião – uma espécie de ancoragem comunitária, um busca de identidade, alguma resposta a certas perguntas, uma espécie de paz interna – coisas que o consumo, o trabalho e lazer não dão. Mas, ao mesmo tempo, cada um vai buscar isso do seu modo, com práticas muito diversas, misturas e sincretismos. Isso faz com que as próprias religiões obedeçam às aspirações e tendências do indivíduo autônomo.

MODA

EC – Todos correm atrás da moda na ansia de serem modernos. Quando alcançam o que buscam na moda, ela que é mais veloz já passou. Em seu livro o Império do Efêmero o senhor analisou esse tipo de comportamento muito em voga e cada vez mais intenso. O senhor vê nessa atitude obsessiva das pessoas em torno da moda e da cosmética uma nuance cultural de nosso tempo na condição de causa ou de conseqüência?
Lipovetsky
– Para falar sobre isso, gostaria de retomar a questão da descrição. É preciso nuançar as coisas. A descrição feita na pergunta é correta para determinadas facções da população, mas não para sua totalidade. Os jovens, por exemplo, abaixo de 25 anos, vivem um frenesi e uma obsessão pelos modelos e pela moda. Nesse caso, mais uma vez caímos nas tensões paradoxais das quais falamos anteriormente. Eu sou muito sensível ao fato de que, depois de certo tempo, essa pressão da moda é bem menor e os indivíduos mantêm um maior distanciamento em relação a ela, em particular no caso das vestimentas. Nós devemos diferenciar as coisas. No caso das roupas, o despotismo é menor do que antigamente. Mas, em contrapartida, se tomarmos o exemplo da moda do corpo, na questão das rugas e traços do rosto, aí temos uma pressão bem maior. A conseqüência disso é o estímulo à cirurgia estética, o desenvolvimento de regimes e práticas que antes não existiam ou não eram representativos e hoje adquirem uma dimensão muito grande. É todo o consumo que está ligado à moda: os objetos, a casa, a decoração, as viagens, o lazer, o esporte. Nós estamos em uma época de explosão da moda. Não devemos apenas considerar a velocidade da moda. Há também uma multiplicidade. Já não temos uma única moda, temos várias ao mesmo tempo. De um lado perdemos liberdade, mas de outro temos maior liberdade. É novamente a questão da descrição do fenômeno e devemos ser muito prudentes para não pegarmos somente o modelo das fashion victims como sendo a realidade última de nosso mundo. Em muitas áreas, a chamada tirania da moda é menor do que se diz. Por exemplo, ao observarmos a decoração dos apartamentos na classe média européia, e acredito que no Brasil não seja diferente, há uma grande diversificação de estilos de decoração. É um pouco como na moda de vestimenta. Há uma variedade de referências. No final das contas, o que os indivíduos buscam? Eles procuram estar na moda? Não. Eles tentam personalizar seu apartamento. Hoje há o que eu chamaria de uma subjetivização da moda.

LIMITES

EC – A hipermodernidade significa a destruição de limites? Isso não pressupõe um certo caos? Apesar de tudo, o senhor é um otimista e se contrapõe aos mais apocalípticos. Qual a sua visão nesse sentido?
Lipovetsky
– As duas coisas. De um lado, há a hipermodernidade e, ao mesmo tempo, o recuo dos limites – da ciência, por exemplo, que impõe limites à morte, cria técnicas de procriação artificial. Tudo isso faz com que a ciência queira ir mais longe, assim como a mídia, a pornografia, etc. Mas, diante disso, há duas leituras, uma pessimista que analisa o fenômeno sob o signo do niilismo, nos dizendo que a hipermodernidade não tem mais limites, que quer apenas ser mais moderna, eficaz e competitiva. Ao mesmo tempo essa corrida para frente cria desigualdades e a democracia não tem mais nenhuma força, não restando senão o trabalho da hipermodernidade que leva a uma espécie de caos ou de selva, o que não é prazeroso. Mas há uma outra leitura possível e é a que eu proponho, que nos diz que a hipermodernidade é um momento paradoxal porque há tudo isso, mas, ao mesmo tempo, também há valores e costumes. Há valores éticos que não morreram, como o respeito à pessoa humana, pelo pluralismo. Existe a crítica a essas desigualdades. É claro que as desigualdades estão aumentando, mas o jogo ainda não terminou. Tudo isso está muito recente. Quem pode dizer que não haverá uma reviravolta? E isso é possível porque os valores não estão mortos. O hiperindivíduo ainda tem crenças e se entusiasma com as coisas. Não com todas as coisas ao mesmo tempo. É um erro completo de diagnóstico dizer que não há senão a técnica e a busca da eficácia e da competitividade. Essa é uma leitura heidggeriana do mundo moderno. Creio que é uma leitura parcial, porque ela esquece que se no mundo moderno há esse aspecto da técnica e competitividade, há também os valores humanísticos e democráticos. Esses valores podem ser mais ou menos fortes em determinado momento, mas de forma alguma eles morreram. E repito, a partida está longe de estar acabada.

MORAL

EC – O senhor afirma que a humanidade vive em uma sociedade pós-moralista. Como isso se dá?
Lipovetsky
– Durante milênios os ideais religiosos foram os únicos grandes ideais, e, para alcançá-los, as pessoas deveriam aprender a se sacrificar, sacrificar inclusive suas vidas. Muitos morreram pelas cruzadas. Os modernos, claro, colocaram à frente valores humanistas, mas, ao mesmo tempo, também colocaram à frente valores da revolução, da nação, ambos sacrificiais. A prova disso é que muitas pessoas foram enviadas à morte em nome desses valores. O que chamo de sociedade pós-moralista e que corresponde à sociedade hipermoderna é a face moral deste período. Temos valores, mas isso não pressupõe o sacrifício de vidas.

EC – A economia não precisa de moral?
Lipovestky
– Agora que não temos contra-modelo ao liberalismo, a economia precisa respeitar um certo número de regras éticas. Aliás, isso é um interesse do próprio capitalismo. Quando não há confiança, não há mais vida econômica possível. Acho que as regras éticas permitem, na verdade, jogar o jogo. Se você trapacear, não vai poder jogar por muito tempo. A ética no mundo dos negócios tornou-se um fator muito importante em escala global para que o sistema possa funcionar.

MÍDIA

EC – A visão clássica da mídia é de dominação. O senhor vê na mídia um instrumento real de democratização. Explique-nos melhor seu ponto de vista.
Lipovetsky
– É bastante complicado, pois há vários ângulos de abordagem. O que eu pretendo é combater um certo modelo em que ela é uma superpotência. Acho que a mídia tem poder demais nos comportamentos, mas também sobre a informação. Para a massa, o essencial é a televisão. De um lado, isso pode orientar comportamentos, mas, de outro, isso trás uma série de informações. Essas informações criam indivíduos mais reflexivos a longo prazo, mais capazes de comparar aquilo que são e aquilo que os outros são. Acho que devemos nos livrar de um modelo behaviorista da televisão e da mídia, como se bastasse multiplicar as mensagens para que os indivíduos as aceitassem. Ou seja, vamos bombardear as pessoas com slogans, com programas, e as pessoas aceitarão como esponjas. Há um livro, recentemente traduzido na França, sobre o caso Clinton, que demonstra que as campanhas da imprensa não bastam para mudar a opinião pública americana. Na Europa, acontece o mesmo. Na época do tratado da União Européia, 95% da imprensa era favorável ao passo que tínhamos apenas 51% dos europeus de acordo. Como podemos compreender quando temos praticamente a unanimidade da mídia com um ponto de vista e os cidadãos reagindo de outra forma? Todos sabem que há campanhas publicitárias que não funcionam. Pode-se gastar milhões de dólares com uma idéia e isso dar em nada. Precisamos ser muito prudentes com essa concepção de que o consumidor e o cidadão seriam indivíduos totalmente remodelados e fabricados pela mídia, porque mais uma vez estamos hoje em uma realidade que chamo mídialiberalismo. Assim, os indivíduos podem tomar distância, e creio que a mídia pode orientar os comportamentos de um lado e favorecer a individualização dos seres de outro.

DESIGUALDADE

EC – Como anda a saúde da cultura liberal e das democracias liberais? Passam por uma metamorfose? Onde deverão chegar dentro da lógica de caos organizador da hipermodernidade?
Lipovetsky
– Podemos dizer que desde a queda da União Soviética o liberalismo está num caminho triunfante de modo que a Internet está aí como uma mídia livre. Hoje, o modelo liberal é o modelo arquidominante e não possui adversários. Mas em Porto Alegre, por exemplo, existe a reunião dos altermundistas que trazem críticas à globalização. E é muito bom que haja críticas à globalização, pois ela trás problemas. Não é algo que deva ser celebrado em todos os seus aspectos, pois traz muitos problemas. A globalização permite que nações tenham acesso à modernização, enquanto outras são aprisionadas na pobreza e na miséria. Então há efeitos muitos desiguais da globalização liberal. Não há mais como dizer, como Marx, no século XIX, que haverá ou a ordem, ou o caos. Não devemos colocar o problema dessa forma. As pessoas têm uma parte de liberdade. Elas podem corrigir as coisas. Então, o problema não está em saber se a hipermodernidade leva ao caos ou a uma ordem superior, acho que o problema está em corrigir aquilo que nos parece inaceitável. Todas as previsões que foram feitas por Marx não se realizaram. Aquilo que prevíamos nos anos 1950, 60 e até nos 80 não se deu assim. E isso não é porque os homens são idiotas e desprovidos de inteligência. É porque a história humana é só em parte determinada. Uma parte determinante repousa na ação dos homens. A meu ver, a globalização é irreversível, mas o problema é sabermos qual globalização? Ninguém pode responder a essa pergunta, pois há conflitos. Deverá haver novos atores históricos, mas muito provavelmente isso ocorrerá em um universo aberto. E essa ordem aberta pode ter a forma de uma sociedade desigual, como é o caso do Brasil. Contudo, há iniciativas que se apresentam que podem fazer as coisas rumarem num sentido inverso, daí a importância das críticas ao modelo.

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