Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 084 | Ano 9 | Ago 2004
MOVIMENTO

Jimi Joe

Paralelamente às atividades de radialista e jornalista, nos últimos 30 anos João Batista Marçal pesquisou incansavelmente as origens e evolução dos jornais feitos pelas classes trabalhadoras no Estado. O resultado dessa pesquisa se transformou, primeiro, num acervo de importância histórica que Marçal abrigou na sua casa, na Vila Santa Isabel, em Viamão. O acervo logo virou alvo de busca de estudantes de comunicação e também atraiu pesquisadores estrangeiros como a norte-americana Joanne L. Back, que acabou fazendo um livro lançado nos Estados Unidos a partir dos dados que conseguiu no autobatizado Acervo João Batista Marçal. Marçal, nascido em Quaraí, onde também detectou ecos da imprensa operária durante sua pesquisa, lançou por conta própria o livro A Imprensa Operária no Rio Grande do Sul – 1873/1974 (292 págs. Edição do autor)

“Retratando mais de um século de jornalismo independente, A Imprensa Operária no Rio Grande do Sul – 1873/1974 documenta todos os jornais criados e publicados por trabalhadores das mais diversas áreas econômicas”, diz Marçal. Desde O Social, feito pelos comerciários de Porto Alegre em 1873 para, entre outras coisas, defender o direito ao descanso semanal remunerado, até o Coojornal, editado por uma cooperativa de jornalistas entre 1974 e 1979. O livro de Marçal, no entanto, começou a ser construído há bastante tempo. “Talvez não a idéia do livro em si, mas o meu interesse por essa imprensa que hoje chamamos de alternativa, o jornalismo feito por trabalhadores em defesa de seus interesses, surgiu quando eu era adolescente, lá em Quaraí, na fronteira do Rio Grande do Sul com Uruguai e Argentina”, diz ele.

“Mas a essa altura eu já tinha presente que uma das grandes teses marxistas que a gente aprende, a de que só existe um movimento operário atuante onde há processo de industrialização, não era totalmente verdadeira.” Marçal afirma isso porque sua pesquisa revelou que diversos jornais feitos por trabalhadores – na verdade, alguns dos primeiros jornais que chamaram sua atenção ainda em Quaraí – surgiram naquela região do estado que é basicamente uma região agropastoril. “Causa espanto em muita gente que naquele garrão do Rio Grande houvesse um grande número de jornais de esquerda feitos por anarquistas, comunistas e socialistas.” A explicação para esse fenômeno está no que Marçal classifica de “contrabando ideológico”. “Muitos militantes, especialmente os anarquistas, vindos da Espanha para Argentina e Uruguai, e logo obrigados a abandonar aqueles países, acabaram se fixando em cidades fronteiriças brasileiras como Santana do Livramento, Uruguaiana e tantas outras.”

Livro recupera história do trabalho no estado

Para escrever seu livro, Marçal acabou estudando toda a formação da classe trabalhadora gaúcha. “E o interessante de ver nesse processo é que as publicações, assim como os personagens que as fazem, se movimentam como seres vivos, atuantes. Meu livro fecha com um mapa da imprensa operária do Rio Grande do Sul, onde se tem a noção exata da grande movimentação nessa área durante esses cem anos que a pesquisa abrange.”

Na hora de publicar o livro, Marçal optou, assim como suas fontes de pesquisa, pelo caminho da completa independência. Ao fazer uma “edição do autor”, ele diz ter conseguido superar muitos dos impecilhos colocados por eventuais candidatos a editores. “Alguns não queriam publicar todas as fotos que eu julgava fundamentais, enquanto outros consideraram o meu texto muito ousado ou radical. Daí, resolvi fazer tudo por minha conta, desde a capa, a diagramação e tudo mais.”

O longo processo de feitura de A Imprensa Operária no Rio Grande do Sul rendeu a Marçal um outro trunfo: a formação de um enorme arquivo sobre essa imprensa que ele chama de “imprensa de mãos calejadas”, feita pelos próprios trabalhadores. “Nunca ganhei um tostão por esse trabalho, que me inferniza até hoje”, diz o pesquisador em tom bem-humorado. E completa, em tom mais sério, que acha que seu acervo realmente mereceria ter o apoio de alguma instituição, estatal ou não. Além disso, para formar seu acervo, Marçal acabou fazendo contatos, mantidos ativos ainda, com entidades européias como a Fundação Celtrinelli, na Itália, e o Museu de História Social, de Amsterdam.

Intercâmbio de informações com europeus

A existência de exemplares de publicações operárias e de outros trabalhadores em arquivos europeus representa o que Marçal chama de “visão conservacionista”. “Os anarquistas, que foram pioneiros na organização do movimento operário no sul do Brasil e que em sua grande maioria eram oriundos de países europeus como Espanha e Itália, tinham isso como hábito: qualquer publicação que fosse feita aqui tinha um exemplar enviado para a Europa.” O reconhecimento do trabalho de pesquisa feito por Marçal teve uma contrapartida em maio desse ano, quando, tendo como motivo o Dia do Trabalhador, o livro de Marçal e parte do seu valioso acervo foram alvo de uma exposição promovida pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Marçal, que, embora se confesse um tanto avesso a modernidades como a internet, já ganhou um site (www.jb.marcal.cjb.net) criado por alunos da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) da própria Ufrgs. Informações sobre o livro: 51 3326-7744/3225-2577 (Palmarinca), 51 3227-4613/3226-7779 (Martins Livreiro)

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