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Nº 085 | Ano 9 | Set 2004
NEI LISBOA

Se depender do que se viu da campanha até agora, o PT deve ganhar mais uma vez e com boa folga as eleições municipais em Porto Alegre, completando em 2008 vinte anos consecutivos na administração da cidade. É uma prova inegável de acerto e vitalidade de um projeto político ao qual ninguém consegue opor proposta mais consistente e convincente, e desarma a tese de que o partido sofreria um desgaste natural depois de tanto tempo à frente da prefeitura. Sem falar no valor de um candidato como Raul Pont, que cumpriu sua primeira gestão como prefeito com altos índices de aprovação.

O PT deve ganhar, então. Mas algum desgaste o partido há de acusar, sim, nessa eleição, e não há nada de “natural” nisso. Natural seria esperar que o governo Lula fosse em tudo diferente do governo FHC, e não uma réplica mal disfarçada. Como vai a militância petista brandir seus tradicionais slogans contra o neoliberalismo, rechaçando o FMI, clamando por justiça social e distribuição de renda, como vai insistir coerentemente nessa linha sem gritar “Fora Meirelles!” e “Fora Palocci!”, por exemplo?

As questões municipais devem dominar o debate, claro, e sempre se há de considerar que o PT daqui é diferente, que é autêntico e fiel aos seus princípios e crítico dos rumos do governo federal. Vá lá que assim seja, podemos estar absolutamente corretos e elegendo a melhor opção para Porto Alegre, mas isso apenas consolida, na necessidade de relativizar o PT “daqui” e o “de lá”, o mal-estar que o governo Lula vem proporcionando.

Uma das boas coisas que a ascensão do PT no RS nos trouxe, um dos pilares do modo petista de tratar a política, digamos assim, é a idéia de fortalecimento dos partidos, a noção de que propostas, programas e decisões partidárias devem prevalecer democraticamente às convicções pessoais. Por esse motivo o voto na legenda do PT é sempre significativo, e a militância mais abnegada carrega a sua bandeira como a representação de uma idéia, uma idéia que deveria transcender às gestões e mandatos, ao tempo e à geografia do país.

Agora já não sabe, esse anônimo e devotado militante, ao acenar seu estandarte pelas ruas, nas janelas, nos comícios, vaidoso da estrela amarela sobre o pano vermelho, mas talvez também saudoso de outras campanhas em que tal complexidade não o atormentava, já não sabe se está a defender o Orçamento Participativo ou a posição acionária do Citibank.

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