Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 085 | Ano 9 | Set 2004
POLÍTICA

José Luís Fiori

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Ilustração: Pedro Alice

Ilustração: Pedro Alice

Quando Giovanni Arrighi publicou seu livro O Longo Século XX, em 1994, deu uma contribuição decisiva para o amadurecimento da tese de Immanuel Wallerstein, sobre a recorrência das “crises mundiais de hegemonia”, dentro do Modern World System1 , que nasceu no “longo século XVI” de Fernand Braudel. Segundo Wallerstein, esse “Sistema Moderno” foi responsável pelo milagre capitalista europeu, cuja originalidade histórica combinou, de forma contraditória e dinâmica, uma “economia-mundo transcontinental” com uma superestrutura política formada por estados nacionais independentes e competitivos. A guerra quase permanente entre os estados, entretanto, só não degenerou em caos político e econômico, graças ao comando – ao longo dos últimos 500 anos – de três grandes potências hegemônicas que foram capazes de organizar, dos pontos de vista político e econômico, o funcionamento hierárquico do sistema: as Províncias Unidas, no século XVII; a Grã-Bretanha, no século XIX; e os Estados Unidos, no século XX. Essas hegemonias, contudo, não eliminaram os processos subjacentes de competição, acumulação e centralização da riqueza e do poder responsáveis pela repetição periódica de grandes crises e longos períodos de transição e reorganização da base produtiva, assim como da liderança mundial do sistema.

Em seu O Longo Século XX, Giovanni Arrighi retomou e desenvolveu essa tese de Wallerstein, a partir de uma idéia sugerida pela leitura da passagem da Civilização Material, Economia e Capitalismo,2 em que Braudel fala das economias que se dedicam a viver dos “rendimentos especulativos”, fato que anunciaria “uma espécie de maturidade, sinal de outono” dessas economias. Daí extraiu sua tese central de que todas as “expansões financeiras assinalariam, através da história, transições de um regime de acumulação em escala mundial para outro” 3 . No seu novo livro, Caos e Governabilidade no Moderno Sistema Mundial, lançado em 1999, Giovanni Arrighi, Beverly Silver e vários outros pesquisadores retomam esta investigação, voltam ao problema inicial da “crise americana” que se propõem a caracterizar e explicar. Segundo os autores, as “crises de hegemonia” podem ser identificadas através de três sintomas distintos, mas relacionados: a intensificação da competição estatal e capitalista; a escalada global dos conflitos sociais e coloniais ou civilizatórios; e a emergência de novas configurações de poder capazes de desafiar e vencer o antigo estado hegemônico, que já estaria fragilizado. Além disso, em todas as transições, esses sintomas apareceriam associados a grandes “expansões financeiras sistêmicas”, que seriam o efeito combinado de uma crise de sobreprodução e do aumento da disputa estatal pelos capitais circulantes. Segue-se a conclusão de que “a expansão financeira dos últimos vinte anos do século XX é o sinal mais claro de que estamos em meio a uma crise de hegemonia…”4 . O que é mais importante para os autores é que, segundo eles, depois do fim da Guerra Fria, os Estados Unidos aumentaram sua vantagem militar, mas se fragilizaram como potência hegemônica devido:

a) ao crescimento de seu endividamento externo, que fez da “maior potência militar do mundo a maior nação devedora mundial” (Idem, ibidem, p. 105);

b) à “bifurcação” do poder mundial que resultou do deslocamento do poder financeiro e do “cofre do sistema” para outros centros econômicos. Fenômeno que transformou o leste asiático “na nova oficina e no novo cofre do mundo, sob a liderança “invisível” de um estado semelhante a uma empresa, o Japão…”( Idem, ibidem, p. 297); e

c) à “sublevação” das “grandes empresas multinacionais que receberam poderes dos Estados Unidos e de seus aliados europeus para operar globalmente, mas que acabaram se independizando e solapando o poder dos próprios Estados de que dependem para sua proteção e manutenção “ (Idem, ibidem, p. 289).

Nesses fatores, sustentam sua tese de que os Estados Unidos estariam perdendo o controle do sistema mundial, uma hipótese ousada, mas apoiada em conceitos imprecisos e evidências frágeis. Senão, vejamos:

1) Apesar da importância decisiva do conceito – verdadeira pedra angular da interpretação de Arrighi –, não está claro em Braudel nem na história econômica o verdadeiro significado das “expansões financeiras” no desenvolvimento da economia capitalista mundial, porque tampouco é consensual a interpretação que Arrighi dá às metáforas utilizadas por Braudel, com relação à “maturidade” e ao “outono” do capitalismo em Gênova e Amsterdam. Não há dúvida de que Braudel diagnostica, nos dois casos, uma superabundância de capitais baratos e “especulativos”, em alguns momentos dos séculos XVI e XVIII. Mas Braudel também nos conta que os holandeses sempre investiram e emprestaram dinheiro para governos e negócios de outros países, e os genoveses foram, desde o século XV, uma espécie de cidade-banco que viveu de emprestar para príncipes e negócios de todo tipo, inclusive o dos “descobrimentos”. Seriam, portanto, cidades em estado permanente de expansão financeira, de tal maneira que não é impossível deduzir da narrativa de Braudel uma tese diferente da de Arrighi: em primeiro lugar, a expansão do capital financeiro seria uma tendência permanente e essencial do capitalismo e, em segundo, sua abundância e baixo preço teria sido uma conseqüência transitória da própria perda de poder de Gênova e Amsterdam, e não o produto de qualquer tipo de “crise de sobreprodução”. No tempo posterior à pesquisa de Braudel, no caso inglês, a expansão financeira do início do século XIX acompanhou a consolidação e não a crise da hegemonia inglesa. E não se transformou em empréstimos especulativos; pelo contrário, financiou a sua própria revolução industrial, deslocando-se da indústria algodoeira para a indústria metalúrgica das estradas de ferro. Logo em seguida, na segunda metade do século XIX, uma nova expansão financeira foi contemporânea da “crise de sobreprodução” que atingiu a Inglaterra depois de 1873. Mas tampouco deu origem a empréstimos especulativos, sustentando a venda, no exterior, dos produtos ingleses, além de injetar recursos na montagem do Império através do mundo, depois que a Índia se transformou na pérola da sua Coroa. Por último, a “financierização capitalista” do final do século XX tampouco parece confirmar a hipótese de Arrighi. Na década de 70, a “expansão financeira” foi sobretudo uma conseqüência da abundância de petrodólares no mercado europeu; nos 80, foi um fenômeno que se restringiu quase que só aos mercados desregulados anglo-saxões, tendo sido acompanhado pela retomada do crescimento da economia norte-americana, que se prolongou através de toda a década seguinte. É nos anos 90 que ocorre, de fato, uma “expansão financeira sistêmica”; mas esta foi conseqüência da desregulação generalizada dos mercados de capitais através do mundo, além de ter-se dado num dos períodos de mais intenso e continuado crescimento da economia norte-americana, dos investimentos, da produção, do consumo e da produtividade. Nesses 30 anos, por outro lado, apesar da migração de capitais para o leste asiático, os Estados Unidos seguiram sendo o principal território econômico de aplicação e investimento dos capitais do mundo inteiro.

2) Não há evidências suficientes (nem no livro, nem na historiografia econômica) que permitam sustentar que o acirramento da competição interestatal e interempresarial tenha ocorrido apenas nos momentos das grandes transições, entre distintos ciclos de acumulação. Não parecem ser causa, nem são um indicador suficiente de uma crise de hegemonia. Por outro lado, mesmo que pareça uma questão de senso comum prever o aumento da “conflitividade social” em períodos de erosão dos poderes dominantes, é muito mais complicado demonstrar que as lutas revolucionárias e os movimentos sociais tenham aumentando durante os períodos de transição da hegemonia. Pelo contrário, a “era das revoluções” de Hobsbawm coincidiu com o período de consolidação e não de crise da hegemonia inglesa, enquanto a crise mundial dos últimos vinte anos do século XX, ao contrário do previsto pelo modelo, foi uma conjuntura de desaceleração dos conflitos e de derrota dos movimentos trabalhistas e sociais em quase todo o mundo. Além disso, é interessante constatar que as grandes ondas de descolonização e independência dos novos estados, que tiveram lugar no início do século XIX e através do século XX, coincidiram com a ascensão e não com a crise das hegemonias inglesa e norte-americana.

3) Durante o período da euforia americana dos anos 90, fez parte da ideologia globalitária atribuir às grandes corporações multinacionais e aos mercados financeiros um poder maior que o dos seus próprios estados de origem. Passado o período das grandes compras e fusões transnacionais, todos os balanços feitos indicam que, no caso dos setores estratégicos – do ponto de vista tecnológico e militar –, o fator nacional foi decisivo e houve intervenções estatais das grandes potências sempre que alguma de suas grandes corporações se viu ameaçada por capitais estrangeiros. Com relação ao problema do poder e da relação entre a competição interestatal e a acumulação de capital, o esquema interpretativo de Arrighi e seus discípulos ficam prisioneiros de grandes analogias históricas sobre os momentos e os processos de “transição da hegemonia”. Falta-lhes uma análise mais detalhada do processo de competição fora do momento da transição e da disputa central, assim como das relações desta competição com os “lucros extraordinários” que são a própria razão de ser do sistema. É neste ponto que mais se sente a ausência, no livro de Arrighi, de uma discussão analítica mais cuidadosa sobre as relações originárias entre o poder político e os processos de valorização do capital e da sua multiplicação na forma de dinheiro, antes e depois do longo século XVI, como nos ensinou Braudel5 .

4) Por fim, existe um último problema sério no encaminhamento das conclusões do livro: a idéia de que os Estados Unidos se fragilizaram nas últimas décadas ao se endividarem excessivamente e ao permitirem a transferência do “caixa” do sistema para o leste asiático. Com relação ao problema do endividamento, os autores confundem o funcionamento do atual sistema monetário internacional – “dólar-flutuante” – com o que foram os sistemas monetários internacionais anteriores, baseados nos padrões ouro-libra e ouro-dólar. Nestes dois últimos, “os países que emitiam a moeda-chave podiam fechar o saldo de sua balança de pagamentos com déficits globais, mas tinham que se preocupar permanentemente com sua posição externa, para impedir que se alterasse o preço oficial da sua moeda em ouro” (Serrano, 1998, p. 1)6 . Entretanto, no novo sistema monetário internacional – que se consolidou nas décadas de 80/90 – “os Estados Unidos podem incorrer em déficits de balanço de pagamentos de qualquer monta e financiá-los tranqüilamente com ativos denominados em sua própria moeda. Além disso, a ausência de conversibilidade em ouro dá ao dólar e aos Estados Unidos a liberdade de variar sua paridade em relação às moedas dos outros países conforme sua conveniência. E, nesse sentido, a ausência de conversibilidade em ouro elimina pura e simplesmente o problema da restrição externa para os Estados Unidos” (Idem, ibidem, p. 8 e 9). Assim, ao contrário do que pensa Arrighi, a crise dos anos 70, a “expansão financeira” posterior e o fim da Guerra Fria transferiram para os Estados Unidos uma centralidade militar, monetária e financeira sem precedentes na história da economia-mundo capitalista. E não há nada, portanto, no cenário mundial que sustente a idéia de que ocorreu uma “bifurcação” entre o poder militar e o poder financeiro globais nos últimos vinte anos do século XX. Pelo contrário, ambos estão concentrados nas mãos de uma única potência, que responde ainda pelo nome de Estados Unidos. Neste contexto, fica difícil imaginar que possa surgir uma “nova configuração de poder” com capacidade hegemônica mundial em territórios que não passam de protetorados militares e cujo dinamismo econômico depende radicalmente da evolução dos acontecimentos nos próprios Estados Unidos.

Concluindo, não há dúvida de que o Sistema Mundial está em transe e é bem provável que os Estados Unidos enfrentem dificuldades crescentes, nas próximas décadas, para manter o seu controle global. O mais provável é que, se a história mantiver as regras do passado, tampouco os Estados Unidos consigam construir um Império Mundial. Mas se isso acontecer, será por razões e caminhos que não se encaixam bem no modelo sistêmico de Arrighi e seus discípulos.

1 A esse respeito, ver o artigo “Crisis as Transition”, em S. Amin et alii, DYNAMICS OF THE GLOBAL CRISIS, Mac Millan Press, London; e também o livro THE POLITICS OF THE WORLD-ECONOMY, Cambridge University Press, Cambridge, 1984.
2 Braudel, F. (1996), O TEMPO DO MUNDO, Martins Fontes, São Paulo, p. 226.
3 Arrighi, G. ( 1996), O LONGO SÉCULO XX, Contraponto/Unesp, Rio de Janeiro.
4 Arrighi, G. e Silver, B. (2001), Caos e governabilidade no Moderno Sistema Mundial, Contraponto/Editora UFRJ, Rio de Janeiro.
5 Braudel, F. (1996) OS JOGOS DAS TROCAS, Martins Fontes, São Paulo.
6 Serrano F. (1998), “Do Ouro Móvel ao Dólar Flexível, Mimeo, Instituo de Economia da URJ, Rio de Janeiro.

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