Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 086 | Ano 9 | Out 2004
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Pouca gente sabe que, nos cursos para piloto comercial, um dos primeiros testes que fazem com o candidato nada tem a ver com suas condições físicas ou emocionais ou sua vocação para a carreira. É um teste de voz. O aspirante deve dizer num microfone: “Senhores passageiros, sua atenção por favor. Fala o comandante”. E só passa no teste se tiver voz de comandante. Uma voz firme, máscula, que inspire confiança. Ele pode ter todas as condições para ser comandante, pode ser um comandante nato, mas se não tiver voz de comandante nem começa o curso. Ou você alguma vez ouviu um comandante de voz fina? Às vezes, quando se enxerga o comandante, pode-se desconfiar de que a voz no alto-falante não era a dele. Que sua comunicação com os passageiros foi dublada, que tem alguém na cabine cuja única função é falar por ele com voz de comandante. Mas mesmo que a figura não corresponda à voz, é melhor se certificar antes de reclamar da companhia aérea pelo risco de voar com alguém tão despreparado, vocalmente, para o cargo. A voz pode ser dele mesmo, apesar da sua aparência. E na grande maioria dos casos, as pessoas preferem alguém sem pinta de comandante, mas com voz de comandante, do que alguém com a pinta e sem a voz. Deve até haver casos de candidatos que se saem tão bem no teste de voz, que tem uma voz de comandante tão boa e convincente, que são dispensados de fazer o curso e recebem o diploma na hora. Ao contrário do que muita gente pensa, o italiano não é o espanhol com mais gestos. Nem acentuar a última sílaba transforma, automaticamente, qualquer língua em francês. A certeza de que é só substituir o “o” pelo “ue” leva muitos brasileiros a pensar que qualquer um de nós fala um “pueco” de espanhol. Agora, a convicção que os brasileiros mais custam a abandonar é a de que, para ser entendido por qualquer estrangeiro, basta falar português bem alto e bem explicado. Onde fica, exatamente, o colo? Não é a questão mais premente do momento, eu concordo, mas é uma coisa que sempre me intrigou. Quando se fala no “colo” de uma mulher, se está referindo ao seu, para usar outro eufemismo, busto, certo? Ou toda a área geral do seu peito. Mas quando se senta no colo de alguém, se a memória não me falha, senta-se nas pernas dobradas de alguém sentado. A questão não é apenas etimológica, envolve, afinal, uma definição de onde andamos nos depositando e depositando os outros nesta vida.

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