Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 086 | Ano 9 | Out 2004
NEI LISBOA

Outro dia li um anúncio pirata em que se oferecia um pacote de alguns poucos CDs contendo duas mil músicas. Achei graça, porque não se dizia ali que músicas eram, nem sequer de que gênero musical se tratava. A oferta não apenas era a preço de banana, uns 30 reais, como também reduzia a bananas, a mera quantidade, aquilo à que normalmente se atribui um valor cultural e personalizado. Algo assim como comprar dois metros de livro verde ou vermelho para preencher espaço numa estante. Uma estante, no caso, que não pára de crescer.

Quando feliz proprietário de um PC XT, há pouco mais de uma década, meu sonho de consumo era um disco rígido de três megas, então uma enormidade em matéria de armazenamento de dados – a música nem sequer havia entrado nessa pauta. Hoje um player Apple iPod de 40 GB (treze mil vezes o tamanho daquele sonho) comporta dez mil músicas em formato MP3 de ótima qualidade. Mesmo considerando que essa progressão tenha seus limites, é bem razoável imaginar que em mais dez anos toda a produção musical da humanidade caiba no bolso da camisa.

Paralelo a isso, a distribuição digital de música e outros conteúdos através da Internet vive o seu maior momento. É verdade que a indústria fonográfica vem processando usuários e empresas de softwares na tentativa de barrar os downloads gratuitos, ao mesmo tempo em que crescem a oferta e a venda legal de música pela rede. Mês passado, o iTunes da Apple celebrou cem milhões de singles vendidos em um ano e meio de funcionamento. Outros tantos serviços do gênero pipocam mundo afora, ainda que um pouco emperrados, como o iMúsica brasileiro. Questões de direito autoral estão por serem resolvidas, há alguma resistência por parte de artistas e de setores da indústria, e a Internet de acesso rápido é um mercado ainda bastante restrito por aqui.

Mas é difícil imaginar, na medida em que essas tecnologias vão se popularizando, como se há de impedir que a pirataria siga seu faceiro caminho, tão intrínseco ao mundo digital. A distribuição legalizada de conteúdo pressupõe algum tipo de autenticação protetora que impeça a reprodução em série do que for baixado. No caso da versão 4.5 do iTunes, por exemplo, custou ao hacker australiano David Hammerton apenas oito horas para quebrar esse código. Junte-se a essas habilidades o anonimato e a dificuldade de rastreamento numa rede mundial, a crescente velocidade de acesso, a já referida capacidade de armazenamento das mídias, e talvez, num futuro próximo, você não precise se preocupar em escolher um disco para dar de presente. Dê logo todos.

Marcado .Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.


CONTEÚDOS RELACIONADOS