Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 090 | Ano 10 | Abr 2005
IDEIAS

Marina Colasanti

“ Creio que tenho sido chamada para falar sobre diversidade cultural devido à minha própria biografia. Sendo assim, não há como não misturar minha visão sobre esse tema com minha própria trajetória pessoal. Nasci originalmente na Etiópia. Na verdade, à época de meu nascimento o país se chamava Absínia, então colônia italiana na África, onde fiquei por um ano e meio, quase dois anos. Minha cidade natal é Asmara. Com a guerra, minha família e eu nos transferimos para Trípoli, na Líbia. Ambos países africanos, mas diferentes entre si, muito embora seja uma tendência referirmo-nos geralmente à África sem considerarmos as peculiaridades locais.”

O meu país natal é um altiplano verdejante encostado ao sul do Egito, já a Líbia está colada ao Mar Mediterrâneo, bem próximo à Sicília, território italiano. Com o início da Segunda Grande Guerra, minha família resolveu voltar para a Itália, de onde havia saído originalmente. Depois disso, quando eu tinha uns dez anos de idade viemos para o Brasil, onde me naturalizei. Com o final da guerra, minha nacionalidade ficou um tanto confusa, pois a Absínia deixou de existir para transformar-se em Etiópia. Fui, portanto, etíope durante muitos anos. Hoje, por exemplo, já não posso mais dizer que nasci na Etiópia, pois depois de 45 anos de guerra “independentista” a cidade de Asmara passou a pertencer a Eritréia. Sou, portanto, eritreiana. Estou tentando reaver minha nacionalidade italiana para ter as duas. Isso me faz uma pessoa múltipla. Com profundas raízes na Itália, com o presente no Brasil. Tenho duas filhas brasileiras. Minha língua de trabalho é o português. Eu e minha literatura somos brasileiras. Em um congresso que estive na Itália falei em português apesar de meu italiano ser fluente. Quando me perguntam como é ser múltipla, não sei o que responder, pois não sei como é ser de um lugar só. Não sei como é ser de outra maneira. As nossas origens ficam no corpo, na boca e na alma da gente.

Tem um poema meu que sintetiza isso da seguinte forma: “Em todo lugar sou estrangeira, menos na minha casa. E mesmo na minha casa nenhum habitante sabe que o gosto justo da água é aquele daquela água que na minha terra se bebe”.

Mas seria muita megalomania minha achar que me dão esse tema e o discutimos por causa da minha biografia. Esse tema é o assunto do momento. É a bola da vez. Não há congresso ou seminário que não se fale em diversidade cultural. É curioso isso, porque a diversidade cultural sempre existiu.

Arqueologia
Por exemplo, no ano passado, arqueólogos noticiaram ao mundo que foram descobertas ossadas de uma espécie de humanóide até então desconhecida, o homo floresiensis, cujos fósseis, datados de 18 mil anos, foram encontrados na ilha de Flores (Indonésia). Eram seres semelhantes ao homem, com cerca de um metro de altura, que há milhares de anos povoaram uma região da Indonésia, eram inteligentes e tinham capacidade de tirar conclusões, tomar iniciativas e processar emoções. Possuíam utensílios de pedra e chegaram à ilha em canoas rudimentares. Uma lenda local diz que quando os espanhóis lá chegaram, meio século depois da descoberta da América, ainda encontraram uma população de seres muito baixinhos, muito peludos e que não falavam. Se acreditarmos mais nos arqueólogos do que na lenda, eles desapareceram aproximadamente 18 mil anos atrás e viviam numa ilha tenebrosa, porque era povoada por grandes lagartos venenosos e ratos gigantes, do tamanho de um cão labrador. No entanto, não foram esses animais que dizimaram o homo floresiensis. Dizem os arqueólogos que eles foram eliminados pelo homo sapiens. Se preferirmos ficar com a lenda, pelos espanhóis. Ou seja, éramos muitos, mesmo quando éramos poucos. Os arqueólogos da Universidade de Cambridge acreditam que muitas outras espécies serão encontradas e que a espécie humana sempre foi muito mais diversificada do que sempre acreditamos. Digo isso para destacar o seguinte: diferença sempre existiu e a cultura é uma ave de rapina. Isso apesar, é claro, dos ovos de ouro.

Romanos
A gente esquece, mas somos descendentes dos romanos, latinos. Quando abrimos uma gaveta em nossas casas, não nos damos conta de que aquele puxador é um modelo copiado dos nossos antepassados romanos, assim como as flores de laranjeira na cabeça das noivas e parte do cerimonial dos casamentos. Ou seja, nosso ritual de casamento é praticamente o ritual de casamento romano, da entrada da noiva na Igreja ao bolo, está tudo lá. E os romanos, de onde pegaram sua cultura? Essa cultura que hoje é nossa? Quando os romanos surgiram possuíam hábitos muito rudes, pois eram pastores de ovelhas. Aos poucos foram crescendo e se expandindo e, como em todas as comunidades humanas, foram tentando se apropriar do quintal do vizinho. Alguns dos vizinhos romanos eram os etruscos, essa sim uma civilização muito sofisticada. Eles por serem comerciantes já haviam buscado cultura alhures. Não há como fazer comércio sem viajar, no caso deles, pela Ásia e norte da Europa afora. Posteriormente, assim como os romanos assimilaram a cultura etrusca, também assimilaram a grega. Mas é importante que se diga que a cultura viaja sempre em mão dupla, mesmo quando a gente não percebe. Nunca ocorre em mão única.

E os romanos foram passando, em suas conquistas, na Ásia, na África, deixando a marca da sua passagem. Hoje, quando viajamos, vamos visitar as ruínas dos circos, dos templos romanos, na Turquia.

Eu fui a Israel, e fala-se aqui em Cesaréia, que é uma praia de Israel, linda, onde há um enorme “pé de mármore” que é um resíduo de uma escultura. Há uma rua em Roma chamada Via di Piedi Marmo (Rua do Pé de Mármore), onde também há um pé de mármore que é resíduo de uma outra escultura. O poema se chama Reflexão em Via di Piedi Marmo:

Esperando por mim em Cesaréia há um pé parado e só/ O pé pousado há séculos na areia com seu marmório preso/ Um pé cujas pegadas se apagaram no pé e se perdeu do seu caminho/ Há um outro pé sozinho, que me aguarda nessa rua estreita onde o sol não bate / De mármore também / Também sem um rumo / Um pé sem passo ou par / Um pé, cuja sandália já não quer / Os donos desses pés? / Não há vestígio / Corpos que há muito habitam outros tempos / Deuses ou reis que pretendiam ser eternos tombaram um dia partidas as pernas.

Latinos do norte
Mas por quê, se a diversidade sempre existiu, estamos falando tanto dela agora, sendo o assunto do momento? Talvez porque os movimentos migratórios cresceram muito, e isso é bastante visível através da comunicação de massa. Na última eleição presidencial americana, tanto Bush quanto Kerry fizeram discursos de palanque em espanhol. Isso seria uma coisa absolutamente impensável há 10 ou 15 anos. Imaginem vocês, o presidente Roo-sevelt, fazendo o discurso de palanque em espanhol, na língua daqueles latinos “desprezíveis”, imaginem, eles, os donos da língua inglesa, falarem aquele idioma. E não apenas Bush e Kerry deram discursos em espanhol como concederam entrevistas à televisão em espanhol. Alguns dados para entender as coisas: na Flórida, eles deram entrevistas para um programa chamado Sábado Gigante. O programa tem penetração em 98% dos lares latinos. Por que eles deram essa entrevista em espanhol? Porque na Flórida o voto latino corresponde a 14% do total do eleitorado. É quase um terço da quantidade de eleitores que o país ganhou desde a votação de 2000. Um terço do eleitorado é muita coisa. Isso nos diz que aumentou a tendência latina desde 2000 porque aumentou a presença legal de latinos. Afinal, para votar, você tem que estar legalizado no país. Hoje se sabe que o voto latino decide a eleição em vários Estados.

Outro olhar
A partir do censo de 2000 nos EUA, mudou o olhar – de absoluto desprezo – que os americanos lançavam sobre os latinos. Vamos ver o que acontece no mercado hoje: atualmente, os latinos nos EUA são 39 milhões. Em 2003 eles gastaram 700 bilhões de dólares. A projeção é que em 2008 eles gastem 1 trilhão de dólares. Grupos que gastam 1 trilhão de dólares são muito interessantes, são dignos de grande respeito num universo de mercado, como o nosso. A partir daí muda o olhar das grandes corporações americanas e muda o comportamento em relação a essa massa de compradores em potencial, que até então eram considerados uma parte da população sem poder aquisitivo, que usavam sombrero e não interessavam a ninguém. Hoje o quadro é diferente. É o grupo dos Estados Unidos que passa mais horas semanais on-line, o que modificou completamente a postura das empresas de informática, que estão criando programas voltados a esses grandes consumidores. Foi publicado na revista Newsweek que, frente a esses dados assombrosos, a comunidade empresarial americana está se colocando para o latino com um olhar diferente e mudando a maneira de vê-lo, de ver a si própria e os americanos. Por conta disso, ela está usando astros latinos para fazer publicidade. A Jennifer Lopez não seria possível há 15 anos. A nossa Sônia Braga chegou aos Estados Unidos e teve uma carreira limitada, porque eles são muito ferozes em relação às questões étnicas. E estão fazendo mais. Estão atentos à diversidade dos grupos hispânicos, já que nos dos EUA eles vêm de 19 países diferentes. A marca de uísque escocês Chivas Regall patrocina shows de salsa para os cubanos e merengue para os dominicanos.

Brasil e EUA
O Brasil já surgiu como uma nação baseada em diversidade. Estamos acostumados com essa diversidade desde sempre. Primeiro eram os índios, depois os portugueses e africanos. Mais tarde imigrantes de diversos países se sucederam em levas ao longo de nossa história. Mas cito os EUA por dois motivos. O primeiro é que eles são fanáticos por pesquisa e os dados são mais facilmente localizáveis. Em segundo lugar, quando há um fenômeno de vulto ocorrido lá, este fenômeno é rapidamente assimilado e discutido na academia, o que por fim acaba batendo às nossas portas. Mas existe uma diferença muito grande entre os nossos imigrantes e os deles. O nossos vieram trazidos por esforços governamentais para serem mão-de-obra semi-escrava e de baixa qualidade ou para colonizar terras impraticáveis. As culturas foram assimilando a brasileira e vice-versa, de forma muito lenta, e somente depois de muitas gerações é que pudemos conferir a ascensão social dos descendentes de imigrantes. Nos EUA o processo foi o mesmo, porém hoje não é mais assim. As comunidades étnicas convivem entre si e pouco interagem com as outras comunidades. Hoje as pessoas migram de uma forma diferente do passado. Ninguém mais vai para um outro país com o assento marcado, mas sim para marcar o seu assento ou até mesmo fazê-lo. E ninguém mais quer deixar a ascensão social para a próxima geração. As pessoas têm uma postura de, mesmo sabendo que vão ter de começar na última fila, tentam chegar às primeiras. A maneira encontrada é o estudo. Trabalha-se de dia e estuda-se à noite, assimilando os conhecimentos locais para difundir no país onde se está a própria cultura. Isso vale não apenas para os orientais que vivem nos EUA, mas para qualquer lugar. Então, temos nos EUA hoje uma cultura incandescente aparentemente estrangeira, porém já americana.

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