Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 090 | Ano 10 | Abr 2005
NEI LISBOA

Diz que a Saúde andava batendo pelo interior atrás de contaminação microbiana de poços. Chegou no rincão do guasca, fez exames, ofereceu todas as explicações. Aí o distinto olhou bem pro técnico do governo e lascou: “Doutor, respeito muito seu estudo, mas o maior micróbio que eu conheço é o tatu, e ele cava quando muito dois metros. O meu poço tem nove”. Boa, hein? Ouvi do Vinicius Cor-rêa, do Batuque de Cordas, que jura ser verdade, dúvidas e copyright pra ele. Seja como for, pra mim faz todo o sentido, também nunca vi micróbio maior que o tatu, e capincho não conta, não tem casca.

É no que dá estudar demais, esses técnicos do governo pensam que sabem tudo, mas muitas vezes não conhecem nada da realidade local, que é o que realmente importa. Lá no Maranhão, por exemplo, tiveram de aprovar uma complementação orçamentária para que a ligação vicinal Araras-Monte Verde fosse concluída; a verba inicial não fora suficiente. E a complementação parece que também não foi, porque meses depois se aprovou outra verba para o mesmo trecho de estrada. Depois disso, então, a fiscalização esteve no local e atestou a conclusão da obra. Em todo esse processo, ninguém deu atenção ao detalhe de que tanto o povoado maranhense de Araras quanto o de Monte Verde jamais existiram, e para tanto não seria necessário nenhum estudo, bastaria consultar os moradores da região, os quais diriam também que por ali, de vicinal, só se viu buraco de tatu.

Esse é o Brasil que adoramos dizer do Severino, do outro, do pobre nordeste, sugerindo que aqui no educado e politizado sul as coisas seriam diferentes. Não são, são apenas mais sofisticadas, requer certa especialização aos crápulas sacanear um povo com nível médio de educação, mas há enorme oferta de bons cursos, estágios e empregos públicos nessa área. Não deve ser preciso cavar mais de dois metros. Até um tatu é capaz de descobrir nesse brioso Rio Grande a mesma locupletação e desvio de função do Estado que nos grotões nordestinos, feitos a céu aberto e talvez com menos hipocrisia. Contra esses micróbios sociais, a sabedoria popular é arma muito frágil, algumas vezes acerta, outras nos diverte, mas não elege nem fiscaliza com consciência e informação. Para certas coisas, estudar nunca é demais.

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