Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 090 | Ano 10 | Abr 2005
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Não se constrói a sociedade mais desigual do planeta sem alguma competência. Sempre se culpou o persistente arcaísmo social e político brasileiro, à prova de qualquer boa intenção de mudança, numa falha endêmica, quando não numa danação inexorcizável. “Brasileiro é assim mesmo” tem sido nossa explicação há séculos, o reincidente adágio do nosso desânimo. Ou o Brasil não vai pra frente porque brasileiro é, que remédio, assim mesmo, ou tem sapo enterrado em algum lugar. Algum pajé vingativo deve ter dito em algum momento do nosso passado: “Está bem, fiquem com este troço – e se arrependam!”. Mas as teses do defeito genético e da danação antiga são injustas porque não levam em conta um propósito e uma estratégia – ou seja, uma inteligência – por trás dessa nossa irresolução eterna. Nosso patriciado não resistiu com seus privilégios intactos a tanta pseudo-história que não mudava nada sem desenvolver uma tática de sobrevivência – que consiste justamente em só permitir as mudanças que não mudam. Isso que está aí é o resultado de uma sabedoria acumulada em anos de dissimulação e desconversa, não da fatalidade ou de praga.

A ascensão do PT e a eleição do Lula servem como case history, em português publicitário, dessa sabedoria aplicada. Sociólogos do futuro se admirarão com a competência com que o primeiro assalto pensado, bem organizado e aparentemente irresistível a privilégios intocados na nossa pseudo-história foi deglutido e neutralizado pelo patriciado, e dois anos de governo do supostamente novo acabaram com os banqueiros mais contentes do que nunca e com o Severino Cavalcanti, o arcaísmo com nome e sobrenome, “o brasileiro é assim mesmo” em pessoa, na presidência da Câmara. Severino é a auto-imagem do brasileiro que interessa à reação. Um símbolo de que não adianta mesmo, gente, nunca seremos diferentes.

Foi uma infeliz coincidência de inabilidade política, vaidades em fúria e azar que deu no Severino, mas foi acima de tudo um lance da velha competência conservadora em ação. Continuando com o modelo econômico do governo anterior, o governo petista aceitou a moral monetarista acima de qualquer outra; enredando-se em seus malsucedidos exercícios de esperteza política e barganha parlamentar, acabou refém do amoralismo. Há quem diga que a direita brasileira só é inteligente em contraste com a burrice da esquerda. Acho um julgamento pouco caridoso – para a direita. Não se mantém um país deste tamanho do tamanhinho que se quer sem alguma espécie de gênio.

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