Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 090 | Ano 10 | Abr 2005
EXTRAPAUTA

Em nome da qualidade

Em 1996, a edição número 2 do jornal Extra Classe exibia a seguinte manchete: Em nome da qualidade. A reportagem assinada pelo jornalista Carlos Leite de Oliveira trazia para o meio educacional o debate sobre os programas de Qualidade Total, que vinham sendo empregados no meio empresarial e que já começavam a ganhar espaço nas escolas e universidades. O debate aprofundado sobre o ensino como negócio e a tendência em ver pais e alunos como consumidores, ou, melhor, clientes, impunha-se na nova ordem administrativa de reengenharia da sociedade. Tais programas ainda existem e com muita força, embora disputem espaço com outros modismos econômico-administrativos. O debate continua. Vale a pena reler a reportagem do Extra para estabelecer elos com o presente das instituições de ensino: www.sinprors.org.br/extraclasse/10anos .

Na mesma edição, passaria a escrever mensalmente para o Jornal o saudoso Barbosa Lessa, em sua coluna Imagens do Passado com o texto A primeira grande escola do Rio Grande do Sul.
Veja e o(s) sindicalismo(s)

Em matéria publicada por Veja, em 2 de março de 2005, intitulada Vidão de sindicalista, a revista coloca os dirigentes sindicais no mesmo patamar que outrora colocara os chamados “marajás”. Lembram? Certamente não cabe defesa para o dirigente do sindicato dos comerciários fluminense Otton da Costa Mata Roma, que vive uma vida de luxo com jatinho particular e tudo mais, personagem central da reportagem. Excelente o trabalho dos jornalistas de Veja para expor essa distorção. Mas no afã de esquentar a matéria, os repórteres, ou os editores, colocaram lá no primeiro parágrafo da página 48 que esse estilo de vida é a “marca” do sindicalismo brasileiro. E não é meeeesmo! Apesar de a reportagem denunciar legitimamente distorções que ocorrem no meio sindical e que tornam uma reforma necessária e urgente, não se pode considerar que jatinhos e mordomias são o padrão do sindicalismo brasileiro. Sim, existem muitos “sindicatos de fachada” e que não são representativos, vivendo às custas da contribuição compulsória exigida pela já caduca legislação brasileira para o setor, mas também existe o sindicalismo sério, que acreditamos ser o predominante e que não aparece em nenhuma linha da reportagem como contraponto. Talvez o sindicalismo brasileiro (no singular) não tenha especificamente uma cara, ou “marca” como quis simplificar Veja para seus leitores. O mais provável é que esse meio, dos sindicalismos (no plural), seja um pouco mais complexo do que consegue descrever duas páginas da revista de maior circulação do país.

Terceirização e fraude nos bancos

Quebra do sigilo bancário não-autorizada de pessoas famosas e utilização de profissionais sem carteira assinada para prestação de serviços aos bancos são algumas das denúncias que constam em um dossiê que deve ser entregue em breve ao ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini. O documento com mais de mil páginas, elaborado pela Confederação Nacional dos Bancários (CNB-CUT) e pelo Sindicato dos Bancários, traz informações sobre fraudes e irregularidades promovidas por empresas que prestam serviços aos bancos. As denúncias foram apresentadas inicialmente em seminário sobre os efeitos da terceirização no sistema financeiro, ocorrido em São Paulo. A estimativa é de que pelo menos 390 mil pessoas trabalhem em prestadoras de serviços no sistema financeiro de forma terceirizada.
Além da precarização do trabalho, o documento mostra que os clientes também são prejudicados com o pagamento de altas tarifas que não condizem com um atendimento de qualidade, como a falta de funcionários, filas e quebra do sigilo bancário. São paresentados extratos bancários das contas de Xuxa Meneguel e o de Luis Felipe Scolari como provas do vazamento de informação. É uma forma de denunciar as facilidades de obter acesso a informações bancárias quando os serviços de dados sigilosos são transferidos a empresas terceirizadas.

Amantes do trabalho

Na Universidade de Brasília (UnB), pesquisadores usam o termo worklover em contraposição a expressão workaholic, mostrando que há pessoas, mesmo com jornadas longas e pesadas, cuja relação com o serviço é prazerosa. O Laboratório de Psicologia do Trabalho da UnB vem estudando há anos a relação entre trabalho e prazer e quer desmistificar a crença disseminada de que quem trabalha muito e tem uma rotina pesada é, necessariamente, workaholic. O termo em inglês é usado para identificar aqueles tão viciados em trabalho, que acabam afetando de modo negativo todos os outros aspectos da vida. E outras definições – como estresse, síndrome do pânico, LER – surgiram e viraram moda. “Todo mundo que trabalha muito é tachado de workaholic, quando a realidade não é só essa”, afirma o professor Wanderley Codo, coordenador do laboratório, que desde 1995 funciona no Instituto de Psicologia. Os integrantes do laboratório – que reúne professores de diversos cursos da UnB, além de psicólogos, médicos, especialistas em ergonomia e demais interessados no tema – propõem o uso de um segundo termo, worklover, que não anula a existência e definições do primeiro. Porém, ele caracteriza um grande número de pessoas, cuja relação com o trabalho é altamente prazerosa. Além disso, os worklovers conseguem tempo para a família e amigos e não estariam utilizando o trabalho para fugir dos problemas cotidianos.

Presidente no feminino

O Chile é um país tradicionalmente conservador, onde a violência doméstica ainda é comum e as mulheres ganham muito menos do que os homens. Mesmo assim, a corrida presidencial tem duas candidatas na liderança. Parece certo, até agora, que os chilenos terão sua primeira presidente nas eleições deste ano. As pesquisas mostram que Michelle Bachelet e Soledad Alvear estão muito à frente dos rivais para suceder Ricardo Lagos depois das eleições de 12 de dezembro. Para Alvear, ainda há algumas atitudes machistas no país, mas as pesquisas mostram que uma mudança cultural vem ocorrendo. Para o cientista político Angeles Fernandez, da Universidade Diego Portales, as mulheres são vistas no Chile como mais honestas, mais democráticas e mais preocupadas com os pobres. O Congresso chileno vem aprovando leis que aumentam os direitos das mulheres. A mais recente torna ilegal o assédio sexual em ambiente de trabalho. Bachelet, 52, é membro do Partido Socialista, assim como Lagos e Salvador Allende, o presidente derrubado por Pinochet em 1973. Filha de um brigadeiro que foi preso e torturado por se opor ao regime de Pinochet, ela e sua mãe também foram para a prisão antes de serem forçadas a ir para o exílio. Ela diz, entretanto, que não guarda mágoas dos militares. Alvear, 54, filiada ao Partido Democrata Cristão, é uma advogada com uma extensa folha de serviços, sendo a primeira ministra de Assuntos da Mulher e, como ministra da Justiça, implementou a modernização do sistema judiciário. Como chanceler, negociou com sucesso os acordos de livre comércio com os Estados Unidos, União Européia, Coréia do Sul, Canadá e México.

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