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Nº 091 | Ano 10 | Mai 2005
ECONOMIA

Marcio Pochmann

Apesar dos 5,2% de aumento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2004, os dois primeiros anos do governo Lula não alteraram o comportamento geral da economia nacional durante os últimos 25 anos. Ocorre que a partir de 1980, o país passou a viver a mais grave crise do desenvolvimento econômico desde 1840.

Somente com o surgimento do ciclo do café na primeira metade do século XIX que o Brasil conseguiu superar os 70 anos de estagnação da renda nacional que se sucederam após o fim do ciclo do ouro. Entre as décadas de 1930 e 1970, a nação viveu uma grande fase de expansão econômica decorrente do ciclo da industrialização nacional, com crescimento médio anual do PIB de 7%.

De 1980 até os dias de hoje, a economia brasileira tem registrado crescimento medíocre, de apenas 2,1% ao ano. Se contrastar com o desempenho da economia mundial, pode-se notar o quanto a atual forma de inserção do Brasil na globalização tem sido nefasta.

Nos últimos 16 anos de forte avanço da globalização financeira, os governos brasileiros não mediram esforços para atender as exigências das agências multilaterais favoráveis às políticas neoliberais. Enquanto o mundo cresceu 70,4% a riqueza, o Brasil aumentou em apenas 41,5% o seu PIB, ou seja, 2,2% ao ano contra 3,4% ao ano do mundo.

Esse fracasso em fazer crescer a economia nacional revela o quanto o país vem se afastando do que poderia ser, tornando-se cada vez mais dependente do baixo crescimento econômico e da produção de bens de baixo custo do trabalho. Com isso, não há condições de avançar a inclusão social, muito menos alterar a má distribuição de renda que persiste no país.

Além da estabilidade na péssima distribuição pessoal da renda, assiste-se à piora na repartição funcional da renda. Explicando melhor, a distribuição pessoal da renda indica qual é a participação relativa da classe média, pobres e ricos, por exemplo, no bolo total da renda nacional, enquanto a distribuição funcional da renda permite observar a participação relativa na renda nacional da parcela do capital e da parcela do trabalho.

A renda do trabalho é oriunda do rendimento dos empregados assalariados (com e sem carteira assinada), de autônomos e conta-própria, bem como de trabalhadores rurais e aposentados. Já a renda do capital compreende os juros dos capitalistas, os lucros dos banqueiros, os aluguéis dos proprietários e renda da terra dos donos das terras.

Para um crescimento médio anual de 2,1% ao ano desde 1980 do PIB no Brasil, verifica-se que a parcela do capital aumentou 3,1% ao ano, em média, representando uma variação de 48% acima da expansão de toda a produção nacional. Em contrapartida, o conjunto do rendimento do trabalho cresceu apenas e tão-somente 0,5% ao ano, como média anual no mesmo período de tempo.

Quando se contrasta o comportamento da renda do trabalho com o do capital, nota-se que este cresceu numa velocidade seis vezes superior. É por isso que a renda do trabalho deixou de representar 50% do PIB, em 1980, para responder somente por 35,7% em 2003.

Estancar a violência do derrame de renda do trabalho para a do capital é urgente e fundamental para a construção de uma nação democrática e justa. Somente crescer a economia nacional pode ser necessário para uma boa administração política de uma nação, mas não é suficiente para alterar a estrutura distributiva no Brasil.

Aumentar significativamente a renda nacional, bem como mudar o perfil distributivo do país, não faz parte do curso do atual modelo econômico adotado no país. Este satisfaz tão-somente a plutocracia de interesses dos muito privilegiados, cujas migalhas são cada vez mais disputadas pelos pobres.

Ou se muda o modelo econômico ou se conforma definitivamente com o Brasil que vê aumentar continuamente a distância entre o que é de fato e o que poderia ser de direito.

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