Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 092 | Ano 10 | Jun 2005
ELISA LUCINDA

Tenho perdido muitos poemas
vejo cada linda semente se perder
só porque não lembro de trazer o infame gravador
e por achar que deve ser ao vivo
e não salvo a fórceps
as idéias desse amor
– poema é desse departamento.
De modo que me despeço dos que nem
chegaram a ser,
esses namorados que sonhei nas barcas
no avião, no corredor…
poemas que fiz no açougue
na hora que o homem de avental
ensangüentado perguntou:
– “Corta?”
cortou.
Nascido pronto, o poema ceifado de
seu galho
sem cesta-caderno que o acolhesse,
ali ficou.
Tenho perdido poemas no estacionamento
criança que soltou minha mão no shopping
espuma que se dissipou no copo de chope.
Procuro-os.
A alguns persigo
ponho enormes anúncios em meus corredores,
ponho pendurado no íntimo banheiro,
o retrato procurado da única palavra que
sobrou
um retrato falado da palavra
sol…
Isto, era isto!
lembro que era sobre o sol…
mas o sol?
Outra vez o sol?
Este vasto movimento,
este fornecimento antigo de poesia?
Que mais você queria?
Esquecê-lo era a profecia!
Não, mas daquela vez ia ser diferente,
talvez naquele dia nem brilhar ele ia
podia até ser um sol doente
gripado, de raios congestionados
que só ia ficar bom no fim da estrofe
na vitamina SE
com S de si mesmo no último consentimento.
Não importa, foi-se
sumiu no Sumidouro dos momentos
nos bueiros dos poemas idos
minas de Angola que se interpõem
no chão de nossa falta de tempo
de parar tudo quando ele chega.
Gulosa é a forma dele.
Grande é a sua boca
e pra ser poeta tem que se estar disposto
a ser essa comida a qualquer hora.
O pior é a esperança persecutória
que não cansa de buscá-lo
a ele que se perdeu
e se multiplica de olhos essa verde moça
e se polva de mãos
e se duplica de faros e poros
e se contorce em afeição por todas as
memórias
e se imantiza em liga com os passados
vê se acha o danado do poema-semente
que se perdeu!
Vontade obstinada
de levantar uma tampa de mala
de tropeçar num desvão de calçada
e ouvir uma voz amassada
de um sobescombro gritando ainda vivo:
“ Sou eu, sou eu”.

Jamais me ponho de luto para o poema
que se perdeu
ao contrário, não vejo mas o escuto
sorrateiro
a gozar-me todo rei:
“ Se não me lembrares, a outro poeta
tocarei”.
Resta-me pouco na emboscada.
Há os novos que chegam
os que se refestelam tanto na chegada
que mal dá tempo de escrevê-los
já vêm escritos e antes de fazê-los
a roda já está formada.
Mas para os desaparecidos
jamais o esquecimento!
O recomendável
é um movimento aberto de braços
um abraço uma cama posta uma página
em branco
tudo isso será sempre seu acolhedor
há uma lã um perdão uma absolvição
uma recepção uma festa um cobertor
haverá sempre uma porta
escancaradamente aberta
para o poema que voltou.

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