Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 092 | Ano 10 | Jun 2005
IDEIAS

François Jost

O especialista francês em televisão, François Jost, lança seu primeiro livro em língua portuguesa apesar de já ter sua obra bastante conhecida pelos pesquisadores brasileiros. O artigo abaixo é um fragmento de seu livro Seis Lições sobre Televisão, que está sendo lançado nacionalmente pela Editora Sulina, do Rio Grande do Sul.

Todo mundo sabe mais ou menos o que é mentir. Cada um, exceto patologia mais ou menos leve, traça a fronteira entre o que vive e o que inventa, mesmo para a ficção, que vem se prestando a infindáveis discussões, há algumas dezenas de séculos, acredito ser possível entender ficção a partir de uma definição simples como “criação, invenção de coisas imaginárias, irreais” (Larousse,1996).

Que razões levam, então, quando intervém a imagem, ao fato de que nossas certezas vacilam? Alguns afirmam sem pejo que as imagens mentem: outros, que elas são manipuladas, sem se darem sistematicamente conta de que não é a mesma coisa tê-las como responsáveis de todos os males, ou acusar aqueles que delas se utilizam.
E as coisas não ficam mais claras quando consultamos especialistas, quer se tratem de teóricos ou de cineastas. Metz afirma que “todo filme é um filme de ficção” (1979), Godard que “o cinema é vinte e quatro vezes a verdade por segundo”. A primeira tese é por demais geral e bem pouco coincide com a nossa intuição: se todo filme for uma ficção, alguns são mais ficção que outros?! Teríamos vontade de acrescentar: Star Wars mais do que meus filmes de férias; Jurassic Park, mais do que o telejornal… Se o cinema é a verdade, de que verdade estamos falando? A verdade de uma tomada Lumière será aquela de Amarcord?

As recentes evoluções dos gêneros televisivos nos trazem de volta à realidade: quando a reivindicação de uma mídia de falar em nome do real se torna tão insistente que acaba por convencer parte do público de que toca o real melhor do que qualquer do-cumentário antes dela, a ponto de se falar em telerrealidade ou em real televisão, torna-se urgente substituir os slogans por uma concepção que permita pensar o audiovisual na sua diversidade. Em 1983, Eco (1985) já observava que o próprio da neotelevisão, precisamente, era abolir essa fronteira realidade/ficção. Não se tem certeza de que a televisão tenha tido êxito; mas, em todo caso, ela conseguiu perfeitamente nos fazer acreditar nisso. E faltam palavras para caracterizar todas as formas mistas que proliferam há mais de duas décadas.

Para se examinar essa questão com mais clareza, pode-se substituir a questão tradicional “O que é a ficção?” pela seguinte: “De onde vem a ficção?”. Se não é habitual formulá-la, é forçoso constatar que muitas teses opostas respondem a ela implicitamente. Vem da imagem?, perguntam-se os defensores de sua verdade ou de sua falsidade. Vem de seus usuários?, interrogam-se os contendores da manipulação.

Se é arriscado definir diretamente a natureza da imagem, tentemos outro caminho. Façamos o retrato falado de três usuários: o pintor, que procura representar a realidade; o repórter, que traz a imagem de um acontecimento; o copista, que valoriza qualquer imagem através de uma assinatura.

Em latim medieval, fictio significa engano e, paralelamente, um fato imaginado, oposto enquanto tal à realidade. Filosoficamente, a assimilação da imagem com semelhante acepção do termo, remonta a Platão. E o que diz o filósofo? “O criador de imagens, o imitador, nada compreende a realidade, apenas conhece a aparência.” E, para se fazer entender, Platão compara o trabalho do artesão que fabrica um objeto àquele do artista que o representa. O marceneiro, para construir uma cama, deve ter idéia da forma, de sua essência, de que o móvel será apenas uma realização particular. Ele não a inventa, mas a reproduz (tal como o pedreiro constrói uma casa a partir de uma planta). Agora, qual é o caso do pintor que desenha essa cama? Ele não somente se contenta em imitar um objeto que não fez, e não sabe como se faz, como também se limita a o imitar, não segundo a realidade, como o artesão que se inspira na forma, mas, sim, segundo o que o ângulo e o ponto de vista deixam ver, ou seja, ao que é visível. “O pintor”, conclui Platão, “nos representará um sapateiro, um carpinteiro e, mostrando-o de longe, enganará as crianças e os homens desprovidos de razão, porque terá dado à sua pintura a aparência de um carpinteiro verdadeiro”. O quadro não é mais do que uma imagem refletida em um espelho. Platão visa aos pintores e aos poetas, esses imitadores que quer banir da Cidade Ideal. Não temos a impressão de já ter ouvido alguns desses discursos quando vemos as discussões que hoje suscitam as imagens de síntese e a informação televisiva?

Analistas da virtualidade visual sustentam que, com efeito, a imagem se tornou pura aparência, já não atestando de forma alguma a realidade do objeto: “Não se está mais dentro do espelho, está-se dentro da tela”, diz Baudrillard (1995), fazendo eco ao filósofo grego. Indo um pouco além, constata-se que a confusão temida por Platão entre realidade e imitação agora é total: “Como fazer para educar as pessoas nesse novo mundo, evitando acentuar nossa tendência em confundir virtual e real?¹ ”.

Quanto ao telejornal, embora pretenda falar da realidade, observa-se freqüentemente que ele a reduziu ao visível, a ponto de, às vezes, a existência dos acontecimentos depender de sua capacidade de ser visua-lizado². Pensemos na situação seguinte, diária na televisão: um jornalista, inquirindo sobre a vida dos italianos, entrevista um marceneiro e mostra algumas imagens do seu trabalho (ele está fazendo uma cama). Platão não lhe censuraria por estar confundindo a aparência visual e a realidade dessa profissão ou dessa categoria social?

A imagem, portanto, é, na tradição platônica, ontologicamente um engano, porque nunca atinge o nível de existência de seu modelo. Ela é uma ficção, no sentido de que não pode ser a realidade: a representação supõe uma relação entre um signo e seu objeto.
Perguntas dos Humains associés a Philippe Quéau, n°7, 1995.
Por isso a impressão seguidamente expressa de que a Guerra do Golfo não ocorreu (título de um livro de J. Baudrillard). Ver também: “Só se acredita no que se vê a imagem sendo avalista da verdade […]. É o paradigma do ao vivo, ou paradigma CNN. Acham-se aí todos os ingredientes da racionalidade ocidental: o domínio sobre o tempo, a dicotomia verdadeiro-falso, que aqui se traduz pela oposição mostrar-ocultar”(Wolton, 1991, p.85).

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