Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 092 | Ano 10 | Jun 2005
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Eu ouvia o José Miguel Wisnik falar para uma multidão sobre um conto do Guimarães Rosa chamado O recado do morro lá em Parati e pensava numa palavra para descrever o que nos acontecia, dentro daquela grande tenda, naquela manhã de domingo. Estávamos embevecidos? Embasbacados? Embestados? Decidi por enlevados. Grande palavra. Estávamos todos em estado de enlevação, que combina os sentidos de tangidos para o assombro, maravilhados e – com sua sugestão de desprego do chão – embalados. Para quem não sabe (e confesso que até há pouco tempo eu também não sabia), o Wisnik é um talento raro, músico, compositor e professor de literatura, e ouvindo-o eu só imaginava como seria ser seu aluno, ou ser enlevado daquele jeito regularmente, semestre a semestre.

Ele nos guiava pelo universo poético de Guimarães Rosa apontando todas as suas riquezas e às vezes, com uma estocada da sua mente afiada, furando um veio novo de alusões e significados do qual ninguém desconfiara. E tudo com uma clareza didática que nunca tolhia o simples prazer da descoberta compartilhada. Algumas das suas sacadas foram aplaudidas em cena aberta, como se diz de solos de ópera extraordinários. No fim foi ovacionado de pé. Olhei em volta e vi gente com lágrimas nos olhos. Não estava ali, exatamente, um microcosmo deste outro universo complexo atrás de bons explicadores que é o Brasil, mas não dá para desesperar de um país onde as pessoas se comovem com a inteligência.

Não há nada mais emocionante do que o talento. Não precisa ser o de um mestre ou de um tenor. Pode ser o de um camelô, ou de uma menina negra que desafia todas as fatalidades, a da gravidade e a da sua própria origem, e salta mais alto e com mais graça do que todo o mundo. Mas nosso enlevo com a palavra bem escolhida, com a habilidade mental – uma letra engenhosa do Chico Buarque, um insight (ver dentro?) do Millôr, uma exegese brilhante do Wisnik – talvez seja uma maneira de nos consolarmos pela pobreza do resto, pela reincidente falta de talento da nossa classe política, ou classe retórica, para nos salvar da suprema burrice da desigualdade e da miséria. Até o encanto de um Guimarães Rosa tem esta conotação de compensação pela palavra inspirada da mediocridade que nos governa desde as caravelas. O talento brasileiro nos comove também pelo desperdício – tanta gente boa, tanta criatividade e discernimento, e tão pouco disso passa da palavra para a política, da poesia para o poder. Mas não desesperemos. Virá.

Tem um disco recém-lançado (*) de uma cantora nova, Eveline Hecker, só com músicas do Wisnik, que também é ótimo pianista e competente cantor. O disco, da Biscoito Fino, é produzido pela Patrícia Pillar, como se faltassem mais razões para enlevo.

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