Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 092 | Ano 10 | Jun 2005
NEI LISBOA

Vai parecer precipitação, dito assim pouco mais de um mês depois do último cigarro, mas o fato é que parei de fumar. Há quem sugira que se espere dois anos antes de fazer tal afirmação. Posso colocar de outra forma, então, que até mais me agrada – simplesmente, eu não fumo. Aliás, nunca fumei. Aquele que não passava meia hora do dia sem acender um cigarro, aquele que estava condenado a carregar um pacotinho e um isqueiro para onde quer que fosse, aquele que acumulava problemas respiratórios e circulatórios, que não tinha fôlego para nada, que habitava todas as estatísticas funestas de incidência de câncer no pulmão e na laringe, aquele era outro. E foi esse outro quem parou de fumar. Eu, simplesmente, não fumo.

Mas isso também pode parecer coisa de cristão-novo, alardeado assim dessa maneira. Como também parei de beber (o que no meu caso era um forte pré-requisito para parar de fumar), já andam perguntando o que mais pretendo deixar de fazer, e se por acaso Jesus encontrou um lugar no meu coração. Nada disso, e não pretendo virar apóstolo do ministério da saúde, nem esqueci o quanto podiam se tornar chatos alguns ex-fumantes, a ponto de fazer a gente pitar em dobro só pra exorcizar aquela preleção beneditina. Aliás, nessa matéria estou seguindo os passos de uma conhecida que já há muitos anos largou o vício. Tal como ela, não censuro ninguém, tampouco evito ou fujo de lugares e tribos de fumantes. Ao contrário, tiro proveito, encosto do lado e sinto o cheirinho, hmm, é bom sentir aquele cheirinho.

Sei que isso pode parecer masoquismo, ou uma certa temeridade da minha parte, mas não me causa nenhum frisson especial e nenhuma saudade, pode acreditar. Porque, em mim, enquanto fumante, não se tratava de um cheirinho. Era, sim, um fedor. Era, sim, uma crosta de alcatrão que se instalava nas narinas, nas cordas vocais, nos alvéolos. Era, sim, uma nuvem de fumaça que estava sempre ao meu redor, impregnando a minha casa, as minhas relações, o meu bem-estar, a minha felicidade. Nunca fui um fumante feliz. Fumei durante vinte e oito anos ininterruptos, uns vinte e sete deles altamente contrariado e de mal-humor. Claro, ser escravo de tal vício representava não apenas enormes danos à saúde mas também uma permanente sabotagem ao meu trabalho de cantor. Então, tinha vários e bons motivos para me livrar dessa praga. E consegui. Parei de fumar. E isso até parece mentira, mas não é.

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