Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 092 | Ano 10 | Jun 2005
EDUCAÇÃO

Stela Rosa

Por solicitação de nossa reportagem, os pesquisadores da UnB fizeram um recorte do estudo destacando os benefícios concedidos aos educadores da rede privada no Rio Grande do Sul, onde a realidade é semelhante ao resto do país, porém com algumas peculiaridades: uma média maior de afastamentos do que a nacional, a incidência de apenas um caso de depressão, nenhum caso de afastamento por problema vocal e a maior parte dos benefícios concedidos por doença ocupacional para os professores universitários. Para a responsável pela pesquisa e coordenadora do Laboratório de Saúde do Trabalhador, professora Anadergh Barbosa-Branco, além dos índices também serem baixos, a média maior no Rio Grande do Sul pode apontar para maior consciência dos direitos, uma organização sindical mais forte e acesso a um plano de saúde. “São fatores que podem influenciar”, frisa.

Nacionalmente, além da educação, foram pesquisados registros dos trabalhadores dos ramos de atividade de fabricação de produtos químicos, fabricação de produtos de metal, intermediação financeira, metalurgia e saúde. Só para se ter uma idéia da discrepância, para cada professor que recebe um benefício acidentário, são contemplados 4,27 profissionais da intermediação financeira (bancários), mesmo a diferença de vínculos empregatícios entre essas atividades sendo quase o dobro: 756.894 docentes e 445.199 bancários. As concessões previdenciárias por problemas na voz também comprovam a baixa incidência. Enquanto os docentes são 3,2 vezes mais acometidos que os bancários com disfunções nas cordas vocais, estes últimos tiveram cinco vezes mais afastamentos caracterizados como relacionados ao trabalho. “Isto demonstra que os bancários estão melhor organizados que os professores e, por isso, acabam tendo mais facilidade de terem suas doenças reconhecidas como do trabalho”, avalia Anadergh Barbosa-Branco.

Para o chefe do Serviço de Medicina Ocupacional do Hospital de Clínicas e professor da Ufrgs, Damásio Trindade, a falta de programas de controle médico sobre as doenças ocupacionais é a principal dificuldade para fazer o nexo entre a enfermidade e o trabalho. “Os médicos ainda não estão preparados para ver o paciente na sua integralidade, averiguando, além dos sintomas, a relação de uma doença com o desenvolvimento de determinadas tarefas, o meio e a qualidade de vida”, analisa Trindade, exemplificando com lesões como a tendinite que nos professores, por exemplo, pode estar relacionada com o esforço constante da escrita no quadro e o carregamento de peso. Ele alerta ainda que, como outras profissões, a atividade de docência tem fatores de risco, sim. “Muitas pessoas acham que não, mas a exposição crônica ao trabalho gera fator desencadeador de problema de saúde, como é o caso do professor que diariamente está exposto a algumas pressões e repetição de movimentos”, avalia Trindade. Entre os riscos das tarefas desenvolvidas pelos educadores, ele aponta o estresse, problemas na voz e lesões por esforço repetitivo como as principais doenças que podem acometer esses trabalhadores.

Vínculo afetivo com o aluno, compromisso com a escola e com os pais ou medo de perder emprego? Quais dessas opções pesam mais na hora de o professor encarar a sala de aula mesmo doente? Nem mesmo eles sabem apontar as causas desse comportamento. No entanto, essa realidade pode explicar por que os docentes são os profissionais que menos se ausentam do trabalho por causa de doença. Eles também ficam no último lugar da fila quando o que está em jogo é relacionar o seu afastamento a uma doença ocupacional. Esse dado foi constatado em uma pesquisa realizada pelo Laboratório de Saúde do Trabalhador da Universidade de Brasília (UnB). No estudo, foram levantados os benefícios concedidos pelo INSS em 2002 a partir do 15º dia de afastamento, tanto os referentes ao auxílio-doença como os acidentários, aqueles decorrentes de acidentes de trabalho, incluindo os que acontecem entre percurso de ida e volta para a empresa, assim como as doenças causadas pelo trabalho. Médicos e psicólogos alertam que, por trás da estatística, o que acontece de fato é que, para garantir o emprego, os professores extrapolam o limite do recomendável, colocando em risco a própria saúde.

Afastamento entre docentes gaúchos está acima da média nacional

Dos 51.653 docentes registra-dos em todos os níveis de educação (pré-escolar e infantil, fundamental, médio, universitário e formação permanente – professores de educação especial, de supletivo, educação a distância, etc.) no Rio Grande do Sul, foram concedidos 1.258 benefícios, e os por doenças ocupacionais (incluindo acidente de trabalho), 153 casos. Mesmo o número sendo pequeno, é maior que a média nacional, visto que, enquanto no Brasil somente 8% dos benefícios concedidos foram por doenças ocupacionais, no Estado foram contabilizados 12,18%. Anadergh Barbosa-Branco explica que na prática isto significa que os docentes gaúchos conseguiram estabelecer mais o nexo da sua doença com o trabalho.

Por outro lado, as lesões (fraturas de membros, de pés, tornozelos, braços, pernas, etc.) e as doenças osteomusculares (tendi-nites, tenossinovite, etc.) destacam-se entre as principais causas de afastamento reconhecidas pelo INSS, tanto nos benefícios de auxílio-doença como os das enfermidades decorrentes do trabalho, semelhante ao restante do país. No caso específico dos reconhecidos como doenças ocupacionais, 60,13% foram registrados entre os professores universitários, to-talizando 92 casos. Para a pesquisadora, isso é resultante de um patamar salarial mais alto, condições de fazer acompanhamento médico e o acesso a informações. “Os professores universitários acabam tendo mais consciência dos diretos e se sentem mais seguros de lutar por eles”, ressalta. Outro fato que chama atenção é que nenhum professor gaúcho recebeu auxílio acidentário por problemas nas cordas vocais, e na educação infantil todos os auxí-lios acidentários foram concedidos apenas por lesões, ou seja, fratura de algum membro, decorrente de acidente.

Em relação à voz, Anadergh Barbosa-Branco explica que as disfunções nas cordas vocais não constam na lista de doenças relacionadas ao trabalho. Essa razão talvez aponte o porquê da inexistência de afastamento por problema na voz no Rio Grande do Sul, porém a pesquisadora afirma que “quando os médicos justificam como doença ocupacional, o nexo é aceito pelo INSS”, diz. Já a fonoaudióloga e ex-professora, Andréa Ortiz Corrêa, alerta para o fato de que os próprios docentes não percebem que podem estar desenvolvendo uma doença, situação que conheceu bem de perto. Ela é um dos casos que acabou em uma mesa de cirurgia para tirar um nódulo, resultado do uso abusivo da musculatura vocal. “Voz rouca e cansada no final do dia é vista com normalidade. Sinal de que trabalhou bastante. Mas não é saudável”, destaca Andréa Ortiz, ressaltando que o docente precisa se dar conta de que a voz é o seu principal instrumento de trabalho, fato que os coloca no primeiro lugar da fila de risco, e em último nas estatísticas. “O radialista, por exemplo, se estiver com a voz rouca, não vai gravar um programa, mas o professor entra na sala e força ainda mais”, conclui. O medo de perder a vaga, para Andréa, desponta como um dos principais motivos que leva o professor a continuar trabalhando e, somado a isso, o fato de estabelecer um vínculo. “E quanto menor os alunos, maior a ligação”, afirma.

Já contrariando a estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS), que prevê que até 2020 as doenças mentais serão a segunda causa de incapacidade para o trabalho, apenas um caso de afastamento por depressão foi constatado. Para Ana Maria Rossi, presidente da ISMA-BR, um braço da International Stress Management Association no Brasil, associação que estuda o estresse e suas formas de prevenção, tal fato deve-se ao preconceito existente em torno dessa enfermidade. “Algumas pessoas escondem ou terminam se automedicando por medo de serem rotuladas e perderem o emprego”, analisa. O estresse, segundo Rossi, é uma das causas que pode acarretar a depressão, e os profissionais vêm cada vez mais apontando o trabalho como um fator gerador de situações estressantes. Em uma pesquisa realizada pela ISMA-BR em 2004, que será lançada em junho próximo em Porto Alegre, dos 752 profissionais de diversas empresas, 48% apontaram como motivos de estresse a carga horária extenuante de 50 a 52 horas por semana e 57% associaram, também, com o medo de perder o emprego.

Fora das estatísticas

Professor realmente não adoece. Conclusão que poderia se tirar da investigação feita pela nossa reportagem em algumas universidades e escolas privadas de Porto Alegre e da Região Metropolitana: não foi localizado sequer um docente afastado das instituições por doença. Já dentro das salas foi fácil encontrá-los, como o caso da professora universitária que preferiu não se identificar. A rouquidão e uma leve tosse revelam que as cordas vocais sentem o esforço ao término de cada aula. “Minha voz não era assim tão rouca”, conta. Mesmo com necessidade de fazer uma cirurgia para retirada dos nódulos vocais, optou por esperar as férias. Após tirar licença de 15 dias, quando perdeu totalmente a voz, não cogita em se ausentar novamente. “Pega mal, é complicado”, desabafa. O próprio médico do Serviço de Engenharia e de Segurança Médica do Trabalho (SESMET) da universidade aconselhou-a a não entrar em benefício. “É difícil se afastar, há uma pressão velada da instituição e um certo preconceito dos colegas e dos alunos”, avalia. Esse é apenas um entre os milhares de casos que não serão contabilizados pelo INSS.

No limite do corpo

Se houvesse alguma forma de contabilizar os professores que trabalham no limite, de acordo com os próprios educadores que conversaram com o Extra Classe, seriam milhares. Um deles seria Enécio da Silva, professor de nível médio. Ele viveu a experiência de sair da sala para o hospital. Com problema cardíaco genético, não deu a atenção devida ao alerta dos médicos de diminuir o ritmo, depois de ter passado mal e sido hospitalizado. A rotina permaneceu igual até que o corpo o fez parar: no meio de uma aula, sentiu tontura e a pressão baixou. “Sentei na cadeira e ainda cheguei a comentar com os alunos que era uma indisposição passageira. Saí de ambulância para o hospital”, conta.

Em função do vínculo afetivo, a professora de educação infantil, Leila da Silveira Barcelos, trabalhou com dores durante um ano e não deixou de dar aulas nem quando sentiu que estava piorando dia a dia. De outubro a dezembro, as dores aumentaram, e o braço e o peito incharam. Somado a isso, também pesava o fato de ser separada e responsável pelos três filhos. “Eu nem conseguia pensar em abandonar minha turma. É complicado, e quanto menor o aluno, mais responsável a gente se sente”, diz. No final do ano, foi detectado um câncer entre o pulmão e o coração e, em janeiro, ela foi operada. Atualmente, ainda sente dores no braço, continua de auxílio-doença e não sabe se volta a dar aulas ou se vai se aposentar.

A sobrecarga de trabalho levou o professor de educação física, Cláudio Mitchell Neis, a uma cirurgia no joelho. Ele pretende voltar à rotina antes dos 15 dias de licença. Inclusive, informalmente, já esteve na escola participando de reuniões. Coordenador do setor de esporte, sente-se de tal forma responsável que é difícil parar, mesmo conhecendo os riscos. Tempo atrás foi vítima de uma depressão ocasionada por questões pessoais e continuou trabalhando até que um dia teve uma crise na escola. Ele sabe que passar dos limites é perigoso e que pode trazer um comprometimento ainda mais sério, mas reconhece que entre os professores isso é comum. “Tem muita gente trabalhando doente, com depressão”, afirma Cláudio, que também é presidente da Associação de Professores da escola.

Berenice Lamas, especialista em psicologia do trabalho, explica que por trás dessas situações há também uma questão da auto-idealização de que, como professor, ele tem de dar conta do recado, “mesmo com febre, mesmo com dor”, ressalta Lamas. Segundo a psicóloga, tal fato é gerado pela responsabilidade social com a educação e a formação dos alunos assumida perante a sociedade. “O educador trabalha com o conhecimento e o sujeito é o ser humano”, destaca. A exigência de contato diário com o aluno faz com que “raramente um professor se permita adoecer”, analisa Lamas, destacando também que a complexidade das pessoas, as diversas realidades sociais com as quais convive e a extensa carga horária acarretam um alto nível de estresse. “A obrigatoriedade de equilíbrio emocional constante deixa esse profissional mais suscetível a doenças emocionais e físicas”, pontua Lamas, que também é professora da PUC.

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