Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 095 | Ano 10 | Set 2005
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Como quase todos os garotos das gerações pré-eletrônicas, eu jogava bolinha de gude. Não sei se existe algum videogame parecido para poder explicar aos jovens de hoje do que eu estou falando. Imagino que ainda se jogue bolinha de gude – e se lance piorra, e se corra com aros de arame, e se esfole o joelho batendo figurinha – em bolsões onde os brinquedos eletrônicos ainda não chegaram. Mas há anos não vejo ninguém, como se dizia na época, atirando “bolita”. Deve ser uma arte em extinção.

O jogo tinha o seu jargão próprio. Me lembro que era proibido fazer cu-de-galinha, mas não me lembro mais o que era cu-de-galinha. E as bolas tinham nomes diferentes, de acordo com seu tamanho, aspecto e função. Esqueci seus nomes. A gente saía para jogar com elas num saquinho e ao encontrar um adversário precisava decidir, antes de mais nada, se o jogo seria “às brinca ou às ganha”. “Às brinca” significava um jogo amistoso em que, ganhando ou perdendo, cada um continuaria com suas próprias bolinhas. “Às ganha” significava cada um ficar com a bola do outro que “nicasse”. Um jogo inocente ou um jogo predatório.

A decisão entre “às brinca” ou “às ganha” não era fácil. Para topar um jogo “às ganha” você tinha que ter confiança absoluta na sua capacidade e acreditar no seu dedão. E contemplar a possibilidade de perder boa parte do seu plantel de bolinhas, inclusive as favoritas. Muitas vezes, só no meio do jogo se dava conta das conseqüências terríveis de ter concordado em jogar “às ganha”. Mas aí era tarde. Mudar as regras no meio do jogo seria impensável. Um jogo “às ganha” era “às ganha” até o fim.

Fiquei pensando nessa austera lei do mundo da bolinha de gude ao ver as reações à revelação de que o escândalo da propinagem chegava ao Palocci, na semana passada. Muita gente dava a impressão de ter consciência, pela primeira vez, do perigoso tipo de jogo inaugurado com o entusiasmo inquisitório e do que a predação indiscriminada era capaz. Estou escrevendo isto com alguma antecedência (viagens, viagens) e não sei como a coisa evoluiu, mas o sentimento dominante parecia ser o de proteger o Palocci para prevenir o desastre geral e terminal que ninguém quer. O ideal a ser combinado seria jogar “às ganha” ou “às brinca” conforme a conveniência, para poupar bolinhas favoritas como o Palocci e os envolvidos em escândalos de outras siglas e outros governos.

O mundo da bolinha de gude era mais sério.

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