Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 096 | Ano 10 | Out 2005
NEI LISBOA

O futebol é uma caixinha de surpresas: se empata, se perde e se ganha. Esse postulado de aparente obviedade, tantas vezes repetido pelo treinador Dino Sani na década de 70, sobreviveu em essência intacto até os dias de hoje, mas já não dá conta das possibilidades extras que o esporte tem apresentado. Agora se sabe, a tal caixinha pode também conter um valor de suborno pelo qual o árbitro de uma partida ajeita o resultado de acordo com o desejo do corruptor. Ou seja, ainda se ganha, se empata e se perde, mas, em alguns casos, sem nenhuma surpresa.

O escândalo bem que podia ter esperado um ano mais. É um momento dos mais impróprios para se desfazer ilusões do povo brasileiro, já maltratadas pela política, sem falar na ameaça à liderança do Inter na tabela. Mas vamos ter que encarar mais essa, a realidade não escolhe hora para aparecer e resolveu incomodar também a nossa fé esportiva. O que sobra para a gente acreditar se o futebolzinho de domingo com tudo que o cerca – o esforço dos jogadores em campo, o entusiasmo das torcidas, as querelas dos comentaristas – é feito de bobo por uma rede de vigaristas brincando com a paixão nacional, fazendo apostas com nossas esperanças?

Muitas vezes me perguntei o que leva alguém a se tornar juiz de futebol, imaginando até que muitos o façam por falta de aptidão ou de oportunidade para uma carreira como jogador. É profissão de risco sem grande compensação financeira, onde os acertos custam a ser lembrados e os erros – e nem precisam ser erros – muitas vezes redundam em agressão física. Há com certeza um conforto moral em toda posição de magistrado, a contribuir para um mundo mais justo. E há, também, a recompensa simbólica de sentir-se o chefe do jogo, a autoridade determinante do destino da partida e portanto da expectativa de milhões de pessoas, em se tratando de uma febre como é o futebol no Brasil e em boa parte do mundo.

Corromper-se, em meio a tal grau de exposição pública e de fervor esportivo, é mais do que se beneficiar materialmente, é sentir prazer em debochar da humanidade – e também em arriscar a própria vida. Inventar um pênalti inexistente e mudar o resultado de uma final de Copa do Mundo, por exemplo, equivaleria a brincar de Deus. Deve haver uma motivação do gênero, Freud saberia explicar. Mas imagino que o sonho último, inconfessável, desse Edílson Pereira de Carvalho, fosse o de ser preso em flagrante no centro do campo, em pleno Maracanã lotado. E, quem sabe, vestido de baiana.

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