Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 096 | Ano 10 | Out 2005
PALAVRA DE PROFESSOR

Gisele Gallicchio

A morte de Jean Charles de Menezes lembrou-me Henfil. Não, não por que ambos eram mineiros, nem porque Henfil morou nos Estados Uni dos, cuja experiência foi relatada em Diário de um cucaracha. Mas de um texto que Henfil escreveu sobre um garoto que foi pisoteado e espancado por ter roubado uma corrente de ouro e vomitou bílis antes morrer. O texto iniciava: Fulano (não lembro o nome) nasceu pobre… Este tinha sido o seu crime, conforme Henfil. O que isso tem a ver com Jean, afinal? O que Henfil escreveria se estivesse vivo? Não pretendo falar por ele, porém com ele, roubando-lhe algumas idéias. O corte de Henfil, ao mencionar o caso do menino, era de classes. Jean atualiza a condição de classe na geografia do mundo. Mundo que se desenha segundo outro eixo, norte-sul, respectivamente países ricos e pobres.

Jean acreditou no sonho da Sol – essa personagem patética, cuja demência orienta-se para um desfecho caricatural que registra a aptidão novelesca da senhora Glória Perez. Jean acreditou na terra das oportunidades, no engodo do mundo maravilhoso, rico e livre. Liberdade, aliás, que serve de bandeira para todo o planeta, fundamentando um discurso político contra o terrorismo. Jean foi, por duas vezes, vítima da liberdade. Vítima por ter acreditado nela e vítima das ações que propaga. Milhares de Jeans em Bagdá são mortos por engano: erram-se alvos, explodem-se hospitais, matam-se civis e inocentes sob a culpa “inquestionável” de facções terroristas. O Jean brasileiro em Londres foi exterminado numa ação dita antiterrorista, já que somente o terrorismo elimina civis, inocentes, trabalhadores, lembra? Ele foi alvo da liberdade. Você não deve pensar que foi vítima da arbitrariedade, nem do preconceito sob a legenda de confusão. A culpa do ato policial é justificada e transferida ao próprio Jean, que estrangeiro, pobre e civil foi acusado de fugir, de resistir a homens armados e à paisana. Ora, se Jean tivesse resistido, correndo ou pulando a barreira do metrô, essas imagens já teriam sido veiculadas. Ou você acha que não há controle no interior do metrô inglês? Logo no país em que as câmeras pan-ópticas foram as primeiras instaladas na rua? Então, a culpa é do casaco. Nova versão para a extremada violência da “justa” política inglesa da qual a polícia é instrumento reconhecidamente competente. Argumentou-se que Jean usava casaco grosso e, portanto, suspeito. (Não esqueça que, nesta época do ano, é verão em Londres, nem terrorista usaria casaco grosso.) É necessário mencionar a mochila. Ela também serviu de motivo para responsabilizar Jean pela truculência britânica. Jean era eletricista. Assim, dispunha de uma mochila para carregar as ferramentas de seu ofício.

Pobre Jean! Sua culpa foi acreditar na oportunidade de trabalho em um mundo globalizado, cuja concentração de riquezas e desemprego compõem uma lógica de funcionamento planetário. Sim, Jean tentou fugir. Seus movimentos assinalaram uma tentativa frustrada de escapar dos efeitos desta concentração rumo à ilusão de uma vida melhor. Ele foi produto de um novo regime de dominação que emerge, no qual é preciso merecer viver para ter qualquer direito. Jean não possuía esse direito. Sua proveniência geográfica, econômica, social, seu biótipo são marcas do sul, antigo Terceiro Mundo. Estes traços reservaram ao rapaz apenas a condição de um suspeito a ser eliminado.

A fuga de Jean para a Inglaterra em busca de um sonho, que nada mais é que uma grande propaganda enganosa, levou-o ao extermínio. Extermínio tão cruel quanto os atos do próprio capital que transforma as pessoas em dados estatísticos, quantificando-as em índices de desemprego e lhes transferindo a responsabilidade de não conseguirem trabalho por falta de qualificação ou qualquer outro motivo (seja casaco grosso ou fino, cor do cabelo ou da pele, mochila, nacionalidade brasileira ou árabe)… Extermínio que parece ser ato exclusivo do terrorismo, mas que também permeia o capital, fazendo da vida algo inútil frente ao mercado. Terrorismo que justifica a arbitrariedade e a prepotência dos países do norte para garantir a expansão do lucro e o controle mundial. Terrorismo que se transforma em política internacional, seja como procedimento pulverizado, seja como braço dos Estados ricos. Terrorismo que sustenta ações abusivas da Inglaterra em aliança com os Estados Unidos quando anunciam a liberdade para o mundo. Jean respondeu ao anúncio e, acreditando nele, foi alvejado na cabeça: sete tiros. Confusão, engano ou engodo? No excuses. Em nenhum idioma a tirania pode ser aceita.

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