Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 098 | Ano 10 | Dez 2005
ENSINO PRIVADO
ARTIGO

Cecília Farias

A liberdade de expressão foi uma das grandes conquistas da sociedade brasileira nos anos 70. Sofrida liberdade de expressão que levou estudantes, intelectuais e trabalhadores a dar a própria vida para que ela hoje seja direito do indivíduo no exercício de sua cidadania.

Quando pensamos em liberdade de expressão, não queremos recordar o quanto as pessoas têm sido prejudicadas por injúrias, difamações, e sim o ganho das informações que nos chegam, principalmente pelos meios de comunicação, o que possibilita o acompanhamento, por exemplo, das ações dos nossos representantes nas diversas esferas do setor público.

Quando pensamos em liberdade de expressão, também não queremos enfatizar as manifestações de agressão sofridas por profissionais, principalmente quando se trata de profissionais da área da educação e, mais ainda, quando as agressões vêm de estudantes que convivem com seus professores quase que diariamente.

Infelizmente, trata-se de uma realidade. O ambiente da escola oferece com uma freqüência cada vez maior e, por isso, assustadora, o palco para cenas de agressividade não trabalhada pelas direções.

Além disso, nos últimos anos, com o desenvolvimento acelerado da tecnologia, em especial das possibilidades de contato on-line, outro recurso ganha destaque: o Orkut, espaço virtual em que jovens “conversam” e participam de comunidades com as quais se identificam. Em meio a tantos aspectos positivos dessa nova maneira de relacionamento entre os jovens, temos a lamentar o uso da rede para atingir, agora, dispensando o “olho no olho”, seus professores. Atitudes agressivas, impensadas e repentinas dos estudantes, que deveriam ser serenamente trabalhadas, acabam sendo “abafadas” pelas direções das escolas, ratificando a idéia de que o “aluno é cliente e cliente sempre tem razão”.

É verdade, não há apenas comunidades cujos integrantes agridam seus professores. Em muitas comunidades, jovens tecem elogios e fazem verdadeiras declarações de amor. E isto é muito bom, consolida este relacionamento essencial na vida da escola. Entretanto, não são só os professores atingidos por manifestações bastante agressivas; outros profissionais também não ficam ilesos.

Ocorre que somos um Sindicato que tem a preocupação de acompanhar o trabalho docente e as condições em que ele se desenvolve, colocando à disposição dos professores os meios necessários para o enfrentamento dessas situações. Os sentimentos e as angústias de professores, provenientes de agressões verbais, ganham expressividade em alguns casos, causando a desmotivação e, até mesmo, adoecendo os profissionais. Uma dessas doenças, o bullying, sofrimento gerado por atitudes de exclusão, humilhação e desrespeito, tem sido recorrente entre os docentes.

Não pode ser só o professor quem deve buscar a solução para os conflitos. Nos casos de ofensas – e aqui chamamos a atenção para as comunidades do tipo “Eu odeio o professor fulano de tal” e recados de baixo calão – cabe à direção da escola, ao ter conhecimento das mesmas, intervir de forma serena, a fim de evitar a exposição desnecessária do seu professor e do seu aluno.

A falta de iniciativa das direções das escolas, que não enfrentam essas situações, cassa do aluno o direito de aprender, através do diálogo, a exercitar a busca de soluções para os impasses que, com certeza, a vida continuará apresentando para todos nós.

Aliás, estes novos tempos estão a exigir que a escola, através de sua organização curricular, propicie ao educando o acesso ao conhecimento, à aplicação desse conhecimento, ao desenvolvimento da capacidade de efetuar boas escolhas e de resolver os problemas, sem esquecer o lúdico, as relações interpessoais e a possibilidade de interação e participação do educando no esforço conjunto de qualificação da sociedade.

* Diretora do Sinpro/RS

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