Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 099 | Ano 11 | Jan 2006
ESPECIAL
RETROSPECTIVA 2005

Da Redação

Ao longo de 2005 foram dez edições e por elas passou igual número de personalidades que utilizaram nossas páginas para expressar suas idéias. Neste início de 2006, estamos destacando um fragmento de cada uma destas entrevistas, em que o único critério foi o de que contivessem respostas, cujo prazo de validade não as tivesse tornado obsoletas. Freqüentaram as páginas do Extra Classe: o cientista social Manuel Castells, que fala sobre sociedade tecnológica contemporânea e Internet; o pacifista e consultor Dominic Barter explica o conceito de Comunicação Não-Violenta; Michel Prieur, um dos maiores especialistas do mundo em direito ambiental afirma que o meio ambiente precisa de uma globalização do bem; entrevista inédita do Extra Classe com o ícone da literatura latino-americana Augusto Roa Bastos, por ocasião da sua morte; o promotor de Justiça Ricardo Herbstrith explica a ação do Ministério Público no caso de vendas de cirurgias do SUS para hóspedes de albergues mantidos por deputado estadual; o glaciólogo Jéfferson Simões alerta sobre os perigos do aquecimento global; o jornalista Lucas Figueiredo, que escreveu um livro sobre a história do serviço secreto brasileiro, diz que Abin é poder paralelo; o escritor Jostein Gaarder, de O mundo de Sofia, afirma que a Filosofia pode ser popular; o escritor e editor Rovílio Costa, Frei Capuchinho, fala de seu trabalho na edição de livros sobre a constituição étnica do RS; o físico austríaco Fritjof Capra, um dos mais influentes pensadores do movimento ecológico mundial expõe seu pensamento. Enfim, algumas idéias que podem ser levadas para 2006, não apenas para ficarmos alertas, como é o caso dos albergues, mas também para mantermos a reflexão e o debate.

MARÇO

Extra Classe – Vivemos hoje um processo semelhante ao processo da acumulação primitiva (expressão cunhada no século XIX, por Karl Marx, em O capital) caracterizada pelo monopólio agrário ocorrido nos séculos XIV e XVI. Ou seja, passamos do monopólio agrário para o monopólio tecnológico das grandes corporações. Quais as formas de desmontar esse monopólio, se é que é possível?
Manuel Castells – Gosto da comparação com o monopólio agrário. Chamo de latifundiários da Era Tecnológica os controladores da tecnologia. O que se deve fazer para evitar o controle do monopólio da tecnologia? A primeira coisa é dar-se conta da importância da questão e de que não é um assunto para especialistas. Isto é um assunto que a sociedade, entretanto, não sabe. Por que é importante o software livre? Porque a vida das pessoas pode ser determinada por quem controla e se apropria da tecnologia. Então, é preciso dar-se conta de que não é um problema tecnológico, é um problema de controle das forças produtivas da sociedade e da capacidade de comunicação autônoma da sociedade e da liberdade de expressão da sociedade. Ou seja, é todo o mundo. É economia, é comunicação, é política, é cultura. Segundo ponto, em função disso, é um movimento contra as grandes corporações e burocracias administrativas que não entendem e vão sempre pelo mais fácil. E terceiro, falta que os governos tomem consciência do que está acontecendo, que tenham inteligência e, em alguns casos, a coragem de apoiar seriamente o software livre. E nisso o governo do Brasil está se transformando num exemplo no mundo pelo apoio a uma autêntica transformação tecnológica e cultural que é o software livre; mas não está ganha a batalha, porque há uma parte do governo atual do Brasil que não entende isso.

ABRIL

Extra Classe – Na prática, quais as palavras-chaves da Comunicação Não-Violenta?
Dominic Barter – Observações, sentimentos, necessidades e pedidos são os quatro ingredientes principais da Comunicação Não-Violenta. Ou seja, trabalha com uma linguagem não judicial e baseia-se nestes quatro ingredientes. Aprende-se a expor os fatos de uma situação sem interpretação ou opinião; reconhecem-se os sentimentos implícitos; identificam-se quais necessidades humanas estão ou não estão sendo atendidas; e apontam-se quais ações se gostaria de ver executadas para satisfazê-las.

MAIO

Extra Classe – Nesse contexto de globalização da questão ambiental, qual é o papel do Estado e qual é a importância do território?
Michel Prieur – O Estado torna-se um ator como qualquer outro. Ele não tem mais o monopólio da decisão, é uma região do mundo e tem de fazer compromissos, submeter-se a obrigações. Tudo isso abala os princípios tradicionais de soberania estatal – da independência estrita e rigorosa em que cada um é dono de seu nariz e desprovido do direito de olhar o que se passa na casa do vizinho. Isso não é mais possível no campo ambiental e nem no âmbito da cultura. Com a comunicação das idéias e com a internet, não existem mais lugares isolados. Esta comunicação mundial facilita o trabalho coletivo, mas afeta o Estado. Obriga-o a mudar sua maneira de pensar e agir.

JUNHO

Extra Classe – Antônio Skár-meta refere-se em um texto à sombra terrível de Borges, que assombraria os latino-americanos. Isso existe? Qual é o escritor latino-americano mais influente na América Latina? E em sua obra?
Augusto Roa Bastos – Se a sentença é verdadeira, o juízo é fatal. Toda arte é imitação e é inútil escapar de uma sombra como a de Borges. É inexorável. Mas eu acho que a influência de Borges é mais de fundo que de forma. Certamente, ali estão esses magníficos giros de linguagem, mas isso está na superfície. E, por sorte, nós escritores gostamos muito mais de reler que ler Borges. Então, essa ornamentação formal vai dando lugar ao verdadeiro problema que nos traz toda a imensa e inesgotável obra de Borges. As grandes respostas que levam às últimas perguntas. Este questionar continuamente ao espelhismo que confundimos com a realidade. Por isso, sempre digo que esta influência de Borges (como toda grande influência) tem seus prós e seus contras. Ao mesmo tempo, sempre saímos ganhando da escola de Borges. Com relação à influência, acho que Borges e Rulfo são os mais influentes para os que fazem literatura na América Latina. Desgraçadamente conhecemos muito pouco da literatura do Brasil. Na verdade, conhecemos muito pouco do Brasil todo. Como dizia o genial Guimarães Rosa, “somos como gêmeos unidos pelas costas, que nunca olharam no rosto um do outro”; a América hispânica e a lusitana. Como dois irmãos grudados pelas costas que jamais se viram nem se reconheceram. Preste atenção que esta imagem é terrível. Muito mais ameaçadora que a “sombra” de Borges em quem eu jamais vi sombras, mas unicamente a vivíssima luz de sua inteligência criadora. Mas esta espécie de fatalismo entre os dois mundos da América Latina, o imenso Brasil (quase um continente) por um lado e a hispano-américa por outro, sem poder ver um ao outro, ou seja, sem reconhecer-se. Vejo com felicidade que lentamente se estejam dando os passos para nos aproximarmos. E é natural compartilharmos os mesmos problemas. In-teressamo-nos mutuamente. Eu gostaria muito de ver uma publicação de autores da região, poderia começar sendo um volume de contos de autores de Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia e Paraguai. Seria uma linda idéia. Quando escrevemos O livro da Guerra Grande (com Alejandro Maciel), tive este especial interesse de reunir autores de quatro nações que estiveram enfrentadas até a morte em uma guerra espantosa. E agora, por outro lado, produzem um livro. É um avanção, não? Com relação à influência em minha obra, se é deliberada (coisa que duvido). Há outro autor que não quero deixar de lembrar: o anarquista Rafael Barret, que escreveu uma obra genial: El dolor paraguayo. Fez-me ver a fundo algumas coisas que eu apenas percebia na superfície. Josefina Plá me ensinou a ser crítico comigo mesmo. Isso é saudável.

JULHO

Extra Classe – Como surgiu a investigação sobre cobrança de propina para furar a fila do SUS, com envolvimento de médicos, políticos e assessores do deputado Vilson Covatti (PP)?
Ricardo Herbstrith – Isso surgiu em setembro de 2003, quando uma pessoa foi encaminhada para a nossa promotoria, pela Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa, noticiando exatamente a existência de cobrança para a realização de cirurgias e outros tipos de procedimentos no âmbito do Hospital Cristo Redentor. Essa pessoa denunciava também que havia sido encaminhada a um indivíduo que faria esse agen-ciamento por meio dos encarregados da pousada Nossa Senhora Aparecida, um intermediário, que é vinculado ao deputado Vilson Covatti. Trata-se de uma senhora de Ho-rizontina, que veio para ficar na pousada, e o procedimento a que ela deveria se submeter iria demorar se não tivesse essa facilitação. Ela se inconformou com isso e sua filha veio nos procurar e, a partir de então, nós desencadeamos uma série de investigações, fizemos filmagens da própria senhora, ainda em 2003, sendo levada da pousada para o hospital, num carro pertencente a um médico, dirigido por esse intermediário.

AGOSTO

Extra Classe – Quais seriam as conseqüências dessa elevação prevista de 4 graus centígrados na temperatura média da Terra nos próximos cem anos?
Jéfferson Simões – Quem não mora no Norte do Canadá ou da Escandinávia não tem com o que se preocupar. O aquecimento em alguns graus centígrados vai ampliar a área para a agricultura e poupar a energia gasta com aquecimento. A biodiversidade nesses casos não sofre tanto. Agora, à beira de um deserto como o Saara, onde as condições climáticas estão no limite, ou no caso do Cerrado, os organismos terão que se adaptar rápido ou aumentará a área afetada pela seca no Nordeste em mais alguns milhares de quilômetros quadrados. Regiões tradicionalmente úmidas começam a se tornar mais secas, alterando toda a teia ambiental. Está comprovado que o centro da Antártida está aumentando, enquanto a periferia está derretendo. É de se prever o derretimento de cumes congelados das montanhas rochosas no extremo norte da Antártida e extremo sul da Groenlândia. O Monte Kilimanjaro, que tem uma das menores geleiras do mundo e já estava no limite, com esse aquecimento deve sumir em 15 anos.

SETEMBRO

Extra Classe – O que é preciso para transformar a linguagem dos filósofos numa linguagem mais acessível?
Jostein Gaarder – Talvez eu tenha uma crença muito forte no uso de palavras simples, em acreditar que os pensamentos claros podem ser mais facilmente expressos. Eu diria que tenho até um sentimento muito ingênuo… Veja A roupa nova do imperador, história de Hans Christian Andersen. Os adultos, na história, faziam teorias e comentários complexos sobre as roupas do imperador, mas a criança disse: “Ele está pelado”. E era uma espécie de verdade nua e crua. Eu estive recentemente numa conferência onde encontrei uma mãe americana, e ela contou que sua filha de seis anos estava assistindo à televisão, e o presidente George W. Bush, como sempre, disse: “Deus abençoe a América”, ou “Que Deus continue abençoando a América”. A criança perguntou à mãe por que o presidente sempre diz “Deus abençoe a América”, e não “Deus abençoe o mundo?”. Posso afirmar que contar, na estrutura de um romance, toda a história da Filosofia em 500 páginas pode ser uma super simplificação, mas quando alguém me diz (e os professores dizem) que eu simplifico, algumas vezes eu respondo que, se você está pedindo carona entre Copenhague (Dinamarca) e Roma (Itália), e um motorista pára o carro e diz que vai até Milão, você não deve reclamar. Ele vai levar você mais do que metade do caminho até Roma, e é de graça. E você pode fazer o resto do caminho de qualquer forma. Então, depois de ler um ensaio de introdução à Filosofia, você pode ser encorajado a ler sobre os filósofos com os quais você tem mais afinidade.

OUTUBRO

Extra Classe – Para que serve o serviço secreto brasileiro hoje, a Abin?
Lucas Figueiredo – Essa é uma boa pergunta. A minha opinião é que não serve para nada. É um organismo que possui um orçamento de 40 milhões de dólares/ano, retirados do orçamento da União, que é dinheiro proveniente de impostos, nosso dinheiro, e que fica elegendo cidadãos brasileiros para investigar, para buscar um inimigo que, na verdade, não existe. Em geral, nos países democráticos e desenvolvidos, os serviços secretos servem para prevenir contra os chamados inimigos externos. E quem seriam esses inimigos? Empresas estrangeiras interessadas em fazer biopirataria ou espionagem industrial, estados com interesses contrários aos brasileiros e espiões estrangeiros que atuam livremente em território nacional, assim como acontece em outros países. No caso da Abin, 98% de sua energia é gasta contra o inimigo interno e apenas 2% para combater o externo.

NOVEMBRO

Extra Classe – Existe uma tendência a se avaliar as questões históricas a partir dos fatos excepcionais?
Frei Rovílio Costa – Sim. Se eu pegar um livro acadêmico e entregar para a minha mãe, o que vai significar para ela – “O que está falando isso aqui?”. Minha mãe não iria ler. Eu quero escrever algo que seja agradável para todos. Então cheguei a uma grande conclusão: nós trabalhamos com o excepcional da cultura e propomos isso como natural e normal. Todos nós nascemos com o hábito da leitura, é só não cultivar a morte do hábito da cultura. Todos nós nascemos curiosos. Se você coloca uma criança diante de uma floresta de livros, você vai ver como ela olhará para todos eles, ainda mais se tiver desenhos, animais, etc. Poderá notar por onde ela desenvolve sua curiosidade, por onde ela desenvolveria sua cultura. Aí o leitor já nasceu, visto que todos nós nascemos com o hábito da leitura porque nascemos com o hábito da curiosidade. A partir do momento em que você desenvolver essa curiosidade de uma maneira mais científica, sistemática, indo para o acadêmico, você garante o leitor para toda a vida. Mas no instante em que você impõe critérios de instituição, da educação, você mata o significado da cultura. Por exemplo, a Revolução Farroupilha: nós todos nos tornamos revolucionários durante a Semana Farroupilha; você aprova uma revolução? Mas se criou uma idéia tão boa, tão positiva, de que numa semana, todos os anos, alguns de nós são revolucionários. Durante as comemorações uns dizem: “Isso é ingenuidade, isso é frescura, isso é gauchismo, isso são tradições obsoletas, isso são invenções”. Mas tem acampamento, tem churrascada, tem charque, tem carreteiro, tem comes e bebes, tem danças, tem prendas, tem passeatas, tem cavalgadas. Ora, tudo isso é positivo, isso é o que interessa: que cada fato não seja a morte de si mesmo.

DEZEMBRO

Extra Classe – No seu último livro, As conexões ocultas, o senhor tenta integrar as ciências biológicas com o cognitivismo e as ciências sociais. Qual é o ponto comum entre estas três áreas?
Fritjof Capra – O padrão básico de organização dos sistemas vivos é a rede. Se entendermos as redes, podemos aplicar esta compreensão às redes biológicas e sociais. É importante entender que estas redes não são estruturas físicas. Quando você fala da teia da vida, não tem como fotografá-la. É uma idéia abstrata. É um padrão de relação entre vários processos de vida. Em um ecossistema, por exemplo, temos uma teia alimentar. Organismos se alimentam um do outro. Ao mapear esta estrutura, descobre-se uma rede. Para entender o que ocorre, não basta só entender a estrutura da rede, mas também seus processos. Em redes biológicas, os processos são químicos. O metabolismo é um processo químico. Então temos que entender bioquímica. Em uma célula, o exemplo mais simples de um sistema vivo, há uma rede metabólica envolvendo as moléculas da célula. Numa rede social, não falamos mais de reações químicas, mas de comunicação. Uma rede social é uma rede de comunicação. O que é comunicado? A rede biológica faz troca de moléculas. Numa rede social, nós trocamos idéias, pensamentos, informações. Para entender uma rede social, não basta desenhar um mapa mostrando quem fala com quem. É preciso saber o que é dito.

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