Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 099 | Ano 11 | Jan 2006
EXTRATO

César Fraga

O livro Lanceiros Negros, dos jornalistas Geraldo Hasse e Guilherme Kolling (JÁ Editores, 144 páginas), trata de um mitológico massacre de escravos ocorrido durante a Revolução Farroupilha (1835-1845). Apesar de história “mal contada”, desde então, o boca-a-boca e correntes de historiadores atribuem responsabilidade a David Canabarro, que os teria traído, graças a um acordo com o Duque de Caxias. Sem dúvida, o episódio é polêmico e serve de munição tanto para os movimentos ligados à consciência negra, como para historiadores que apresentam uma visão mais crítica do período, assim como das ideologias e interesses que motivaram a revolução tão festejada em nossos dias. O trabalho da dupla de jornalistas reconstitui a história dos regimentos formados por escravos, que existiram praticamente em todas as guerras gaúchas do século XIX e que tiveram papel destacado na fixação das fronteiras no extremo Sul do Brasil.

Hasse e Kolling trazem para o presente fatos passados, importantes, apesar de quase esquecidos, na intenção de fomentar o debate sobre eles, sem a pretensão de encerrar o assunto; pelo contrário, querem mostrar que o tema ainda mobiliza intelectuais e ativistas, que a partir dele pretendem “refundar a história do negro no Rio Grande do Sul”. A obra apresenta uma cronologia dos eventos guerreiros no Cone Sul, e conta a tradição do uso de lanças no Pampa, desde o século XVIII, chegando até a Revolução Farroupilha. Apresenta ainda um detalhamento de como era feito o recrutamento e a organização dos lanceiros, além de apontar a importância estratégica dos soldados negros no contexto revolucionário farrapo. O volume é ilustrado com documentos em que líderes dos dois lados dão seus depoimentos sobre esses guerreiros, e traz uma visão da escravidão naquele período histórico. Leia entrevista com os autores.

Extra Classe – O que vem a ser essa refundação da história dos negros no RS?
Guilherme Kolling
– A refun-dação da história dos negros na verdade é uma fundação. Como até hoje a contribuição dos negros para a formação do Estado foi esquecida pela historiografia oficial – não há, por exemplo, um único herói negro apesar de eles terem importante participação nas diversas guerras do Cone Sul –, lideranças do movimento negro e uma corrente de historiadores, antropólogos, intelectuais e políticos estão trabalhando para que haja esse reconhecimento. E o ponto de partida é essa mobilização recente para resgatar o massacre de Porongos, em que os soldados negros foram dizimados. Mais do que isso, homenagear os lanceiros negros, através de um memorial, em Pinheiro Machado, e um monumento em Porto Alegre.

EC – Qual foi a importância dos soldados negros na Revolução Farroupilha e qual era a condição real em que viviam, já que era tempo de escravidão?
Geraldo Hasse
– Os lanceiros negros foram organizados como tropa regular a partir da batalha de Pelotas, em abril de 1836, quando os farrapos fizeram centenas de prisioneiros, entre eles muitos negros, que constituíam a maioria da população do município. Na realidade, eram os escravos que tocavam as charqueadas. Eles também trabalhavam como peões em estâncias e lavouras. Muitos eram domadores de cavalos, ginetes. Com a promessa de liberdade no final da guerra, os lanceiros transformaram-se na vanguarda das tropas farroupilhas. Eram usados em missões arriscadas, pois tinham grande mobilidade. Lutavam a pé e a cavalo, portando lanças de três metros de comprimento. Quando havia munição, usavam armas de fogo. Atacavam gritando para intimidar o inimigo. Não usavam escudos. Para se proteger dos sabres e das lanças do adversário, enrolavam o poncho no braço livre. À medida que a guerra se aproximava do fim, eles se tornaram mais numerosos, tanto que no final havia dois corpos de lanceiros, totalizando mais de mil soldados. Como esses fatos foram escamoteados pelos historiadores do século XIX, não se sabe qual o percentual de negros nas tropas farroupilhas, nem tampouco nas tropas do governo imperial, mas tudo indica que eles foram tão importantes na guerra quanto o eram no tempo de paz. Mas também, durante a campanha militar, eles viviam segregados.

EC – Como surgiu a idéia do livro e quanto tempo vocês levaram para a conclusão do projeto?
Kolling
– O livro surgiu a partir de uma reportagem para o Jornal JÁ Porto Alegre, feita em novembro de 2003, quando o movimento negro foi a Pinheiro Machado, em Cerro dos Porongos, afirmar a idéia de que os lanceiros haviam sido traídos pelo general Canabarro nesta batalha da Revolução Farroupilha, ocorrida em 1844, e lançar a idéia de um monumento aos lanceiros negros. A partir daí, acompanhamos o movimento em outras matérias para o jornal e, em 2005, já com o projeto aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura, fez-se uma pesquisa histórica sobre os lanceiros negros e sua participação na Revolução Farroupilha. Sem contar a contribuição avulsa de membros da equipe do JÁ, trabalharam a fundo conosco o jornalista Euclides Torres e o historiador Gilberto Jordan. Essa pesquisa histórica aliada à compilação de reportagens formaram o livro, que teve lançamento na Feira de Porto Alegre.

EC – Quais foram os mitos desfeitos sobre o episódio após a conclusão dos trabalhos e do próprio livro?
Hasse
– Não há dúvida de que os lanceiros negros foram vítimas de uma grande sacanagem armada pelos chefes dos dois lados – Caxias e Canabarro –; mas os trabalhos não foram concluídos: o que fizemos foi dar um flagrante no atual estágio de uma história muito mal contada. E a luta continua, tem gente fuçando no nosso passado, estamos atentos. Uma das lideranças desse esforço é a antropóloga Daisy Barcellos, da Ufrgs. Na verdade, esse assunto não se esgotará tão cedo, pois a Guerra dos Farrapos foi muito manipulada pelos narradores, que sempre se preocuparam em defender um dos lados – o Império ou a República. São mais de 500 livros, nenhum isento ou imparcial. Em quase todos, os lanceiros não aparecem ou são citados apenas de passagem. Pode-se dizer que por mais de um século colocou-se uma pedra sobre a história dos negros no Rio Grande do Sul. Daí a lenda de que por aqui a escravidão foi mais branda do que em outros estados. Nos anos 50, entretanto, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso já havia mostrado que os negros tiveram uma presença forte na economia gaúcha. Dos anos 70 para cá, houve pesquisas específicas sobre a presença dos negros na nossa sociedade, com destaque para os historiadores Claudio Moreira Bento (ex-militar), Moacyr Flores (PUC de Porto Alegre) e Mario Maestri (Universidade de Passo Fundo). São todos ativos. Aos poucos, a verdade vai aparecendo.

ENSINO PÚBLICO
Ensino vocacional – Uma Pedagogia atual (Cortez Editora – 192 páginas) reúne textos de diversos autores e chama para o debate de diversos temas referentes à e-ducação pública brasileira, como organização do Ensino Fundamental que supere a seriação e uma avaliação do ensino-aprendizagem que melhor traduza o processo educativo e prescinda de provas unificadas de múltipla escolha para medir qualidade. As reflexões teóricas são todas fundamentadas na prática. Confira: www.cortezeditora.com.br

COLONIZAÇÃO
Colona é a nona! – história da imigração italiana contada por uma avó (da autora, 67 páginas), de Lydia Gabellini, é exatamente o que o título revela. A obra é focada no público infanto-juvenil e relata a história da imigração italiana no Rio Grande do Sul narrada por uma avó. A escritora já teve rasgados elogios de gente como Eduardo Bueno, Barbosa Lessa (teve acesso antes de sua morte ao material, publicado somente agora em 2005), Moro Barbieri e Rovílio Costa.nona@tria.com.br

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