Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 099 | Ano 11 | Jan 2006
CULTURA

Clarinha Glock

A cada aniversário, o poeta Mario Quintana dizia: “Vamos ver até quando vai durar minha ‘imortalidadezinha’…”. Sua sobrinha-neta e fiel escudeira, Elena Quintana de Oliveira, 50 anos, já pode afirmar com certeza: “Pelo menos, até o Centenário ela está durando!”. Os amigos e escritores que o conheceram acreditam que, se Quintana estivesse vivo, a homenagem preferida do ilustre fazedor de frases e versos nascido em Alegrete, em 30 de julho de 1906, seria que as pessoas realmente lessem sua obra. Quintana morreu em 5 de maio de 1994, mas neste ano em que completaria um século de vida sua poesia vai ganhar um palco privilegiado.

Em maio de 2005, por meio do decreto nº 43.810, o governo do Estado do Rio Grande do Sul instituiu 2006 oficialmente como o Ano do Centenário de Mario Quintana. Junto com a Secretaria de Cultura do Estado e a Casa de Cultura Mario Quintana, lançou o Projeto Aprendiz de Feiticeiro, que prevê uma série de atividades, entre exposições de fotos, lançamentos de livros, CDs, DVDs, apresentações de filmes, peças de teatro e espetáculos de dança, além de um concurso de poesia.

O poeta vai ser o centro das atenções em muitos cantos do Estado e também no Rio de Janeiro e em São Paulo. Talvez até no Exterior – a comissão encarregada das festividades está negociando levar uma exposição para o Uruguai e para Portugal. Tanta festa não tem como objetivo apenas marcar a data, mas principalmente promover uma aproximação dos versos do homenageado com os novos leitores – há uma geração de 12 anos para cá que não conviveu com aquele “velhinho engraçado” conhecido por suas tiradas irônicas e poemas acessíveis. Isso, de certa forma, pode ser até bom, observa a sobrinha-neta. “Quanto mais a gente se distancia da figura do velhinho, mais próximo se chega à obra de um poeta e de um filósofo de raro brilho, que não fica nem acima nem abaixo de muitos dos grandes que existem por aí”, avalia Elena, herdeira dos direitos autorais de Quintana.

O escritor e crítico de arte Armindo Trevisan, 72 anos e muitos livros dedicados a contar a história do poeta, concorda: “A poesia dele se caracteriza por um lirismo acentuado que recupera temas e formas da melhor tradição do passado, e ao mesmo tempo inova, seja pela utilização criativa de verso livre, por explorar aspectos surrealistas, ou por desenvolver uma aproximação entre o humor e a poesia”.

De uma forma geral, a população começou a conhecer Quintana pelo jornal Correio do Povo, onde ele foi admitido em 1º de julho de 1953 como redator-auxiliar, do qual só saiu em maio de 1994, quando morreu. Em 18 de julho de 1953 fez sua estréia na coluna Do Caderno H, que virou a marca registrada do poeta e referência para milhares de leitores.

Quintana não só escrevia, ele vivia a poesia e ajudou a trazer esse lirismo encantado para a realidade de muita gente que talvez nem soubesse que gostava de versos. Foi assim com a própria Elena. “Eu me aproximei do tio Mario primeiro pela obra dele, porque fui criada pelos Oliveira, e uma tia, Celuta, que era professora e gostava de literatura, me chamou a atenção para o tio-poeta.” Já era fã e leitora quando, com seus 20 e poucos anos, a jovem conheceu de fato o parente famoso. Elena tinha acabado de montar a peça A estrela e a sucata, com poemas de Quintana, numa atividade de encerramento do curso de teatro. No final dos anos 70, foi convidada a viajar com ele para o Rio de Janeiro e, na volta, aceitou “organizar a desorganização” de seu local de trabalho. “Ele me chamou porque nós dois éramos ‘tortos’ iguais”, brinca. Mesmo as brigas dos dois viravam filosofia poética. “Ele dizia que brigar faz a gente se sentir vivo”, recorda.

Também Sergio Napp, escritor, compositor e diretor da Casa de Cultura Mario Quintana, conheceu primeiro a obra do poeta para depois se aproximar da figura. E que figura! Primeiro, lá pelos anos 60, Quintana não quis saber de ter seus versos musicados pelo então letrista Napp, na época em que o jovem participava de festivais de música. O destino fez os dois se reaproximarem quando Napp assumiu a direção da Casa de Cultura, de 1987 a 1991. “Era gratificante estar com ele. Tinha suas carências e problemas, porque foi um boêmio de marca maior, fumava que era uma loucura, tinha enfisema, mas uma vitalidade… E continuava produzindo.”

Homenagem em vida

Uma vez o poeta escreveu uma carta para Napp dizendo que o único grande presente que gostaria de ganhar era ver a Casa de Cultura concluída. Não só viu, como foi recebido com aplausos na reinauguração, em 25 de setembro de 1990, num momento emocionante. O palanque estava no centro da Travessa dos Cataventos esperando os convidados, que deviam chegar pela Rua Sete de Setembro, enquanto ao público – devia ter umas cinco mil pessoas – ficou destinada a área da Rua dos Andradas. “Para variar, Quintana se atrasou (sempre se atrasava)”, conta Napp. Estavam todos lá, governador, outras autoridades; menos o poeta. Quando chegou, Quintana entrou pelo lado da Andradas. O povo que estava na Travessa abriu um corredor, começou a gritar seu nome e a jogar papel picado, enquanto o velhinho seguia com seu passo trôpego e a bengala no meio da ovação.

De uma certa forma, “a pessoa” e o “poeta” Quintana pareciam ser de mundos distintos, como descreve Trevisan: o homem era retraído, discreto, até de certa forma inabordável. Havia uma espécie de olhar crítico e distante que não permitia uma intimidade com ele. Por outro lado, como poeta, Quintana tinha uma grandeza e um conhecimento que muitas pessoas subestimaram, porque acabaram mais por folclorizar sua figura do que realmente ler sua poesia. “Está na hora de se descobrir o grande poeta que ele foi”, convida Trevisan. Não fazer só a leitura na linha mais superficial dos jogos, do ludismo, das brincadeiras e do humor fácil, mas sobretudo da temática de fundo dramático, existencial e dominada pela idéia da morte também existente em sua obra.

Morte… A maneira como ele reagia surpreendia até a sobrinha-neta, conhecedora das manias do familiar e amigo. Elena aprendeu na prática que o velhinho era mais forte do que parecia. Na noite da morte do poeta Carlos Drummond de Andrade, ela fez malabarismos para evitar que o tio de 81 anos ouvisse a notícia na televisão. Achava que o efeito poderia ser muito ruim e que atrapalharia o sono e a saúde dele. Somente no dia seguinte Elena anunciou: “Temos uma notícia ruim para lhe dar: o Drummond faleceu”. Quintana olhou para ela e disse: “Risca do caderninho de endereço”.

Até em situações inusitadas o poeta tinha uma saída bem-humorada. Como quando foi atropelado no dia 6 de maio de 1985. Ele subia na calçada que dava para o prédio da Caldas Júnior e um carro, em marcha a ré, lhe deu um encontrão e provocou uma fratura no fêmur. A jornalista Jussara Porto, que chegou logo em seguida ao Hospital Pronto Socorro, onde foi atendido, testemunhou o poeta repetir para Elena: “Anota os números da placa do carro e o dia para jogar na Loto!”. Aos atenciosos enfermeiros do hospital, avisou: pelo menos agora teria mais tempo para trabalhar, só que os poemas seriam de pé quebrado.

Mas talvez a melhor definição do lirismo, do humor e da ironia do poeta e sua maneira de encarar os contratempos da vida sejam dele mesmo, nos versos do seu Poeminha do contra:

“Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho
Eles passarão… eu passarinho.”
O poeta ainda voa pelas ruas da cidade que ele tão bem descreveu no seu O mapa e que vai revivê-lo em prosa e verso, sons e imagens durante este ano.

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