Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 100 | Ano 11 | Mar 2006
ENTREVISTA | CACO BARCELLOS

Gilson Camargo

O jornalista gaúcho Caco Barcellos, 55 anos, começou a sua carreira na Folha da Manhã, no final de 1973. Atuou na imprensa alternativa (Movimento e Coojornal) e foi um dos criadores da revista Versus, especializada em reportagens sobre povos latinos. Publicou o primeiro livro, Nicarágua, a revolução das crianças, em 1982. Após sete anos de investigação, escreveu Rota 66 (Globo, 1992), referência em jornalismo investigativo. Abusado (Record) exigiu cinco anos de apuração para mostrar por dentro o tráfico de drogas no Morro Santa Marta, zona Sul do Rio. Projetado por seu trabalho na televisão, onde começou no programa São Paulo na TV, da Editora Abril, Barcellos é hoje um dos mais conhecidos repórteres da Rede Globo, onde trabalha desde 1985, fazendo documentários para o Globo Repórter e reportagens especiais para o Fantástico e o Jornal Nacional. “Vivo num país pobre, muito pobre. Prefiro contar as histórias da maioria da população”, diz nesta entrevista.

Extra Classe – Você tem afirmado que a cobertura diária da imprensa se sustenta mais de denúncias e declarações do que propriamente da apuração de informações. Seria o inverso do jornalismo investi-gativo?
Caco Barcellos
– Eu acho que é uma prática do jornalismo declaratório. O jornalista recebe uma acusação de alguém, colhe a entrevista e já divulga sem correr atrás para saber se aquilo é verdadeiro ou não. Tem o respaldo legal para fazer isso porque, afinal, fez a entrevista. Só que – eu particularmente como gosto do jornalismo investigativo – acho que é pouco você ter apenas uma entrevista para fundamentar sua reportagem. Pode ser uma boa pauta uma acusação feita por alguém, mas ela deve servir para iniciar o processo de investigação.

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Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

EC – A cobertura à base de declarações acaba se esvaziando, não oferece resultados e ainda corre o risco de acusar alguém injustamente. A idéia é investigar para reduzir danos?
Barcellos
– Mais grave do que ter uma conseqüência pífia é você atingir a honra de alguém injustamente. Isso é mais grave. A gente tem obrigação de minimizar o dano, desde que você tenha o objetivo de buscar o serviço de alto interesse público, mas não pode se utilizar de meios irresponsáveis. E quando envolve a honra de alguém, acusando alguém, tem o dever de ter certeza, de saber que aquela informação é verdadeira, mesmo que ouça a confissão de um indivíduo dizendo que matou dez pessoas. Para mim, significa quase nada. Tenho que provar que a sua confissão é verdadeira para poder levá-la para frente, divulgar. Você tem que ter certeza de que a sua informação é verdadeira. Acho que é cômodo você se defender dizendo “ah, não tenho culpa nenhuma, quem deu a entrevista mentiu, não fui eu quem deu a entrevista”. Mas o que você fez para saber se a informação é mentirosa ou não?

EC – E o que esperar de uma apuração criteriosa?
Barcellos
– O risco é muito menor de cometer erros. É evidente que não tenho nada contra a entrevista, que é fundamental para qualquer processo, inclusive para o investigativo. Aliás, uma seqüência de entrevistas acho que é o suficiente. Com quantas entrevistas? Dez, vinte, trinta? Não sei quantas. Mas você chega a uma convicção importante a partir da primeira denúncia que recebeu. O que eu condeno é simplesmente ouvir alguém sem ouvir outras pessoas, em grande quantidade, quando envolve um assunto delicado. Sobretudo quando há acusação contra terceiros, o jornalista tem o dever de correr atrás. De preferência oferecer provas materiais, pistas. A entrevista é um componente para formação de provas. Uma confissão também é importante. Ela sozinha é que eu condeno.

EC – Como você está vendo a cobertura da imprensa às recentes denúncias de compra de votos de parlamentares?
Barcellos
– Pelo menos, para não haver danos tão graves quanto eu acho que a gente correu o risco, de sofrer danos de credibilidade muito grandes, algumas dessas acusações se comprovaram verdadeiras. Só muito depois da acusação ter sido feita, as informações dadas com exclusividade pela imprensa se comprovaram. Mas imagina se não comprovassem nada? Acho que há perguntas importantes que a gente deve fazer. Há um fato não muito antigo, o impeachment do presidente Collor, que não deve ser esquecido. Houve a condenação política dele. A imprensa também, da mesma forma, ficou no encalço dele a partir de uma declaração do irmão (Pedro Collor). Collor foi condenado politicamente. Pela Justiça, ele continua inocente. A minha pergunta: ele é inocente porque a Justiça errou ou porque não levantamos as provas efetivas, ficamos só nas declarações? E a Justiça não pode condenar ninguém a partir apenas de uma declaração. Tem que buscar provas substantivas, rastros digitais de movimentação financeira, todo um processo de investigação que não se resume apenas em acusação feita numa entrevista.

EC – Qual a sua avaliação sobre essa crise?
Barcellos
– O que mais me impressionou foi essa corrida de todos envolvidos em denúncias feitas a partir de quase do nada.

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Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

EC – O que é fundamental para o jornalismo investigativo? Há espaço na grande imprensa?
Barcellos
– Não sei o que nasceu primeiro. Espaço sempre há. A grande verdade é que o jornalismo investigativo envolve trabalho duro, árduo. É muito mais simples você reproduzir o dossiê de alguém, de terceiros, usar a denúncia pronta, a polícia, o Ministério Público, é muito mais simples, mais econômico para os meios de comunicação, é fácil para o jornalista. Nada contra a reprodução de dossiês, desde que checada cada frase, cada palavra. Há espaço sim. É mais trabalhoso. É mais oneroso. Mas eu considero fundamental. E de grande chance de retorno, inclusive financeiro. Uma investigação bem-feita, de um assunto de interesse público, sempre dá resultado para o veículo. Não é necessário nenhum sensacionalismo para isso acontecer.

EC – Em sua última entrevista ao Extra Classe, avalia que a imprensa privilegia a classe média na sua cobertura porque a maioria dos jornalistas desconhece a realidade dos pobres. Isso mudou?
Barcellos
– Chance de mudanças sempre há, mas o comportamento continua parecido. Eu tenho sempre esperança que mais jornalistas se sintam fascinados para contar a história da maioria. Não só das minorias.

EC – Quais são as conseqüências dessa exclusão da maioria da população pelos meios de comunicação?
Barcellos
– Falta de confiança da maioria da população. Porque as pessoas sabem que não estão tendo sua vida retratada corretamente. Basta subir o morro para saber como você é recebido. Nos confundem com uma postura quase como de inimigo.

EC – Lá a imprensa não atua…
Barcellos
– Onde a imprensa atua, ela está bem.

EC – Qual será seu próximo livro?
Barcellos
– Eu nunca falo do projeto que está vindo. É uma conduta radical minha apenas para preservar a apuração. Todo mundo fica sabendo e eu também sou mais cobrado. Você me compreende, né?

EC – Qual foi a sua motivação para escrever Abusado?
Barcellos
– Minha motivação foi parecida com a do Rota 66. No Rota eu lembro que acompanhava todo dia muitos casos de mortes de jovens da periferia, negros, pobres. Depois de um certo tempo, a imprensa não divulgava mais porque não tinha novidade nenhuma. Todo dia mata, todo dia mata, não é mais notícia. Pô, mas no final do ano eram 1.500 jovens mortos, coisa jamais vista na história de qualquer polícia do mundo. Da mesma forma, é a história do tráfico no Rio de Janeiro. Se fala todo dia e assim de uma maneira muito banal, quase sempre evitando; os veículos evitavam dar muito espaço para essas histórias porque elas são eternas. Então eu interpretei, sem exagero, que se falava muito da história do tráfico, mas se dizia pouco porque dificilmente os jornalistas dialogavam com os traficantes, não conversavam com eles. As matérias eram feitas basicamente a partir do que a polícia passava. Uma situação semelhante à que me levou a escrever Rota 66. As informações que a imprensa divulgava eram sempre oriundas dos relatos dos comandos da polícia. Então eu achava que tinha um elemento bom ali, achava que podia resultar num livro que contasse a história pouco conhecida das pessoas, histórias que resultaram da minha apuração, da minha atividade, dessa situação das pessoas envolvidas com o tráfico naquele morro lá do Rio.

EC – Como se deu a escolha do Morro Santa Marta?
Barcellos
– Eu busquei um morro que me assustasse e que estivesse sob o controle de uma quadrilha da terceira geração do Comando Vermelho, e escolhi essa geração porque foi a que levou o Comando Vermelho a controlar o tráfico de drogas no Rio. O Morro Santa Marta reunia essas duas coisas. Eu fui aceito pelos chefes do tráfico ali que eram chefes do Comando Vermelho e da terceira geração. Aí deu certo. Eu havia tentado da mesma forma a Rocinha, havia tentado uma favela horizontal ao lado da avenida Brasil, Vigário Geral. Comecei e tive que parar. No Santa Marta deu seqüência, a quadrilha me aceitou, e aí eu pude contar a história, como funciona por dentro uma boca de cocaína.

EC – O que o surpreendeu?
Barcellos
– Muita coisa. Eu já havia entrado muito nas favelas, tinha um programa na TV a cabo na Globonews que era feito basicamente nas periferias, nas favelas do Brasil. Então conhecia relativamente bem. Mostraram muita coisa que não era do meu conhecimento. Me assustava aquela balela que é muito comum a gente ouvir por aí que o tráfico, a associação para o tráfico, mantém a população dos morros como refém. E o que eu vi é exatamente o oposto. As famílias passando na boca, pais, parentes, namoradas, todos querendo mudar. Iam ganhar algum dinheiro ali.

EC – São reféns é da má distribuição de renda…
Barcellos
– Eu posso dizer aqui uma coisa que os intelectuais brasileiros não gostam, porque acham a abordagem simplista, que é a tese da economia. Depende mais daqueles que detêm o poder econômico mudarem a sua postura dentro da sociedade do que dos pobres brigarem por mudanças, por conquistas. Sem a mudança de mentalidade de quem gosta de concentrar renda, eu não vejo horizontes. Agora, com a mudança do sistema de concentração de renda, eu vejo mudanças efetivas, imediatas, sem demora. Tão simples. Os jovens, os traficantes todos, não lembro de um caso de algum que não tenha trabalhado. Também não lembro de nenhum que tenha tido salário digno. Então a questão não é simplesmente garantir trabalho, mas trabalho com salário digno. Coisa que os jovens nunca tiveram.

EC – Salário digno para mantê-los longe do tráfico?
Barcellos
– Com salário digno você tem o resto. A gente não tem hoje ensino público de qualidade. Então o que a gente faz? Quem tem salário mais justo vai lá e busca a particular. Quando as empresas decidirem não distribuir riqueza somente para os donos das empresas, e distribuir também para os trabalhadores, duvido que um traficante vá trocar um salário de, digamos, 2 mil, 3 mil reais para traficar por 800 reais. Duvido também que eles troquem a proposta do traficante que paga 800 pela do empresário que oferece 350 ou 400. Mesma lógica é verdadeira para os dois lados. Assim como não se pode esquecer que o salário mínimo no Brasil já foi de 980 dólares, quando foi criado em 1946. Um dia foi possível pagar isso. Por que não é mais hoje? Eu acho que os jovens ganhando esse mínimo não trocariam um trabalho destes por traficar drogas recebendo ordens dos traficantes, com o risco de morrer a toda hora.

EC – Você defende a restrição ao comércio de álcool. Por quê?
Barcellos
– Eu continuo pensando parecido. Continuo achando que os dados mostram isso: cachaça faz tanto mal quanto muitas drogas ilícitas. A associação com o crime de morte é muito grande, no trânsito, nos homicídios, a violência quase sempre está associada com a questão das drogas. Neste livro, o Abusado, também tive a oportunidade de ouvir histórias, relatos dos traficantes dizendo que quase todos tiveram pais alcoólatras, principalmente o pai, cresceram vendo o pai espancando a mãe. Um pai que é generoso, que é dócil quando está sóbrio, fica violentíssimo quando está sob a conseqüência da cachaça. Que é diferente da cerveja, das outras bebidas. É muito comum gente morrer também de cirrose. E é um consumo maior do que qualquer droga. Por isso eu acho que, se eu fosse homem público, daria prioridade ao combate ao álcool.

EC – A idéia seria promover campanhas para desglamourizar o consumo de bebidas alcoólicas?
Barcellos
– Assim como a sociedade teve a coragem de combater o consumo do cigarro, eu defendo algo parecido com a cachaça e outras bebidas. Não proibir né? Mas fazer campanhas educativas, que esclareçam realmente. Você vai superar seus limites se consumir álcool? Ao contrário…

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Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

 

EC – O Ministério da Saúde colocou aquelas imagens nas carteiras de cigarro, mas ninguém vê fotos de fígados degenerados em garrafas de pinga…
Barcellos
– Exatamente. Os jogos olímpicos são patrocinados por bebidas alcoólicas. Tudo bem. É patrocínio, mas que avisem: “Se você quer ser atleta não beba”.

 

 

EC – O que o levou a essa profissão e por que optou por ser repórter de polícia?

Barcellos – Eu não acho que seja repórter de polícia. Sou repórter das injustiças mais do que de polícia. Porque às  vezes  eu passo dois anos sem contar uma história de violência ou mesmo envolvendo policiais ou crime. A injustiça social no Brasil só veio crescendo. Coincidiu com a minha trajetória profissional (risos). Eu acho que, quando ela deixar de existir, talvez eu mude de área ou passe a contar outras histórias. Pelo fato de trabalhar durante a ditadura, eu tenho a deformação um pouco natural de interpretar a violência com a injustiça da época, do regime. Quando acabou o regime eu tinha, como todo mundo, grande esperança: bom, a sociedade não vai mais viver nessa desarmonia, não vai ter mais tortura, não vai ter mais violência policial, não vai ter mais crime com tanta intensidade como tinha naquela época. Eu achava que era derivado das diferenças impostas pelo governo. Aí a sociedade se democratizou e essas coisas nessa área das injustiças econômicas só pioraram. Então, a minha interpretação passou a ser essa: a violência não está associada só com repressão. Acho que está muito mais associada com injustiça econômica do que com simplesmente a repressão, política, falta de liberdade… Então eu acho que a injustiça econômica cria uma sociedade desarmônica, e o homicídio é o termômetro que mede essa desarmonia. É um processo sim; acredito que os assaltantes seriam os maiores matadores, porque matam para roubar, mas as pessoas ricas também matam, a classe média mata, os trabalhadores matam, o trânsito mata, aliás mata mais até que os assaltantes. Então eu acho que é mais embaixo o problema. E como isso só vem piorando, eu acho que fiquei refém.

EC – Para sorte do jornalismo…
Barcellos
– Será? (risos)

EC – O fato de ter crescido na periferia e convivido com a violência e intolerância policiais influenciou na sua opção profissional?
Barcellos
– Eu acho que isso me ajudou a ficar mais atento para as injustiças. Quando você sente na pele… Está mais perto dos amigos que sofrem isso… E voltando à nossa questão inicial, acho que, afinal, estou num país que é pobre, muito pobre. Eu prefiro contar a história da maioria da população e não da minoria. O meu patrão, o meu dever é com a maioria. Quero contar a história dessa maioria, não da minoria. Por dever de ofício. E isso também já mudou porque desde o começo a pobreza só aumentou no Brasil. Meu começo no jornalismo foi em 1973 (no jornal Folha da Manhã, em Porto Alegre). Se fôssemos uma Itália, sem dúvida, eu estaria contando histórias da classe média. O país teria uma grande classe média. A imprensa está sempre contando histórias dos 20% mais ricos. Aí também tem um desprezo profundo com a maioria da população.

 

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