Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 100 | Ano 11 | Mar 2006
FRAGA

Você, que hoje em dia desfruta da fartura de palavras, nem imagina como foi difícil abastecer o Brasil delas. Para ter idéia das carências iniciais, basta dizer que quando os portugueses aportaram por aqui nem a palavra aportar havia! A História prefere enfatizar os esforços da colonização, os ciclos agrícolas, os avanços urbanos. Mas, é óbvio que nada disso seria possível em silêncio.

Como se sabe, as caravelas navegavam abarrotadas de suprimentos. Embarcações pequenas, além dos víveres e utensílios, não sobrava espaço para regalias. A tripulação, porém, tinha que garantir seus momentos coloquiais a bordo, senão enlouqueceria por falta do quê dizer. Então, nos vãos e desvãos disponíveis, entupiam tudo com palavras de todos os tipos, inclusive as de baixo calão, sempre tão apreciadas pelos marinheiros.

Ao desembarcar, a surpresa: não existiam palavras na terra recém-descoberta! Esvaziaram os porões e repartiram entre si, como ração oral, sacos e barris de vocabulário. Aos brados, se saciaram num enrouquecedor banquete de palavras. Aos índios, quietos, foram oferecidos alguns termos. Esses, certamente pelo grande estoque de tupi-guarani que possuíam, não aceitaram uma sílaba sequer.

Daí em diante, Portugal teve que se desdobrar para se apossar da nova terra. Frotas e mais frotas, carregadas de expressões, dizeres e locuções, singravam os mares. Viagens árduas, pois a cada naufrágio correspondiam zonas e períodos de mutismo pelo território afora.

Por toda a extensa orla foram criados entrepostos de palavras, para onde acorriam pessoas inexpressivas vindas de todos os lugares. O problema era interiorizar a distribuição de palavras. O povoamento mata adentro levou à criação de entradas e bandeiras do palavreado (arrobas de sinônimos e fardos de preposições em lombo de mula!).

Foram essas, aliás, que inspiraram as incursões mais conhecidas. Para avaliar a devida importância, porém, basta comparar: o que era mais essencial? Esmeraldas ou verbos? Ouro ou substantivos? Pau-brasil ou advérbios? A ganância real obrigava a filas indianas silenciosas. Para piorar a situação vocabular rarefeita, surgiu o contrabando de palavras. Aventureiros enchiam naus com linguagem suja, expressões vulgares e argumentos pobres, e invadiam regiões. Burlando a Corte, se aproveitando da escassez de diálogos, aqui forravam a burra.

Caladas há muito tempo, as pessoas abocanhavam qualquer frase ou monossílabo que parecesse comunicativo. Foi a época do golpe das palavras de duplo sentido que, iam ver, tinham só um. Gente que se contentava até com palavras ocas. Como ainda acontece, aliás. Esses foram os primórdios da expansão da palavra. Em seguida veio o progresso e com ele a abundância de vocábulos. Discursos empolados, ostentação adjetiva, jargões, neologismos, semiótica. Há mercado para tudo. E você aí, se queixando do excesso de palavras. Ah, se nossos antepassados soubessem do desperdício ao abrirmos a boca!

Marcado .Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.


CONTEÚDOS RELACIONADOS