Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 100 | Ano 11 | Mar 2006
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Não está escrito em lugar nenhum que jornalista tem que ser de esquerda. É até debatível que a maioria seja, ou algum dia foi. Mas persistem histórias como a do Roberto Marinho explicando aos generais da ditadura que havia tantos comunistas na redação de “O Globo” porque sem eles seria impossível fazer um jornal, ou da velha divisão nas redações brasileiras: esquerdistas até o nível de editoria, direitistas daí para cima. Se as histórias são verdadeiras ou são mitos, não sei, mas o fato é que você podia ter quase certeza, quando falava com um jornalista, há alguns anos, que ele era, em algum sentido, “de esquerda”, ou não concordava com a linha política da direção do seu jornal. Isso era normal e esperado. O mesmo tipo de mentalidade e inquietação que levava a pessoa a ser jornalista garantia que ela seria, para usar um termo vago, “progressista” – pelo menos até chegar a uma editoria.

Isso mudou. A presunção não existe mais. Uma explicação simples é que as antigas definições de esquerda e direita já não funcionam e a própria pessoa hoje tem dificuldade em se auto-rotular. Outra explicação é que a nova geração de jornalistas se formou numa era em que as questões definidoras não mobilizavam mais ninguém, na área estudantil. O aluno cujo interesse em política e problemas sociais, e em agitação, mostrava uma clara vocação para continuar seu ativismo na imprensa foi substituído pelo aluno que escolhe o jornalismo porque gosta de escrever, ou pelo tal “romance” da profissão, ou porque desistiu da oceanografia. Não faltam nem explicações rarefeitas, como a teoria, machista, de que é tudo culpa do atual predomínio de mulheres nos cursos de jornalismo e nas redações, ou a teoria do ambiente emasculador, segundo a qual a substituição das máquina de escrever pelo computador transformou batedores barulhentos em digitadores deferentes, trabalhadores braçais em laboratoristas assépticos, e os despolitizou.

Outra explicação é que até pouco tempo todo o mundo, no Brasil, e não apenas no jornalismo, se considerava meio de esquerda, ou ninguém se declarava francamente reacionário. A idéia de que “esquerda” e “direita” não querem dizer mais nada é uma proposta da direita, para poder ser reacionária à vontade sem que a acusem de insensibilidade social, retrogradação, essas coisas. Os novos reacionários do jornalismo de opinião no Brasil não são uma novidade, a novidade é o reacionarismo assumido do seu público, inconformado com os parcos avanços políticos e as outras ameaças da “classe perigosa”, que é como chamavam o povo antes da Revolução Francesa.

Talvez seja bom cada um assumir seus medos e preconceitos sem hipocrisia. Mas eu, que sou um cara antigo, com presunções antigas, confesso que ainda me choco um pouco com jornalistas que não são “de esquerda” nem de mentira. Estou mal acostumado.

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