Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 100 | Ano 11 | Mar 2006
IDEIAS
ARTES VISUAIS

César Fraga

A seguir, um pingue-pongue com a curadora, doutora em Arte Contemporânea e professora titular da Ufrgs, Icléia Cattani, autora de vários livros e artigos sobre artes visuais e um dos nomes mais respeitados dentro e fora do Estado quando se fala em crítica e teoria relacionadas ao tema. Inicialmente, havíamos convidado Icléia para escrever um artigo para esse espaço, porém ela preferiu visitar nossa redação ao final de 2005 e pediu que a conversa com o editor fosse gravada e transformada em texto, de preferência no formato de uma entrevista. É o que segue.

Extra Classe – Onde as pessoas podem buscar informações para multiplicar conceitos básicos sobre artes plásticas? Qual a importância da formação nas artes plásticas?
Icléia Cattani
– Artes plásticas também são artes visuais, já que o campo se abriu muito. Outras mídias foram se incorporando, como vídeos de arte, outros que fogem do plástico no seu sentido clássico de pintura, escultura, desenho, gravura. Temos que formar a área da sensibilidade, que infelizmente está cada vez mais deixada de lado pela idéia produtivista. Essa área é fundamental: a arte, a literatura (como uma das artes), tudo o que faz o indivíduo pensar e crescer, que pode movê-lo subjetivamente, e tudo o que pode incentivá-lo a procurar seu lado criador, porque nós precisamos desse lado, seja qual for a área em que trabalhamos. Li uma pesquisa feita na França que dizia que profissionais de áreas completamente diferenciadas que tiveram uma “queda” para arte na infância e desenvolveram isso eram profissionais melhores, porque incorporavam a capacidade de reflexão, de criação, de uma maneira de ver o mundo que os auxiliava na sua área profissional. E, certamente, na sua vida pessoal também. É importante pensar que a arte não é reservada nem aos artistas, nem aos especialistas, mas é, de certo modo, um patrimônio de todos. Os professores devem desenvolver a arte não somente com os alunos, mas também com a família, de todas as maneiras possíveis.

EC – Explique essa idéia de que as artes visuais têm seus “entendidos”, o conceito de que o público dessa arte deve ser aquele que consegue entender as obras. Como quebrar essa barreira e que exemplos há de acesso a esse universo para o público não especialista?
Icléia
– Você tem toda a razão. Há duas questões fundamentais. Historicamente foi o que aconteceu a partir da modernidade e acontece até hoje. Muitas pessoas relacionadas com as artes têm interesse em manter essa imagem de elitismo. Os próprios galeristas – não sempre – que vendem arte, os colecionadores, têm esse interesse, pois isso quer dizer que eles possuem um objeto de exceção dentro do cotidiano. Isso é um elemento que os diferencia do resto da sociedade. Os próprios artistas são coniventes com essa mistificação, acreditando que isso os engrandece. Na medida em que a arte puder ser considerada como patrimônio de todos, vai engrandecer o trabalho de arte.

EC – E isso não é um pouco forjado pelo mercado?
Icléia
– Sim, são os galeristas, colecionadores. Todos os artistas precisam de mercado, sobretudo em países como o Brasil, em que não há apoio do governo aos artistas como em outros lugares. O empresariado não tem interesse em apoiar as artes, com exceções.

EC – As leis de mecenato não contemplam as artes plásticas?
Icléia
– Pouquíssimo. Aqui entra uma falha dos próprios artistas decorrente, até mesmo, do seu sistema de trabalho. Como nas artes visuais o trabalho é muito individual, os artistas visuais raramente conseguem se organizar em categorias fortes, como os cineastas, os músicos, o pessoal de teatro. As reivindicações dos cineastas aparecem o tempo todo na Folha de S.Paulo, por exemplo, brigando e pedindo verbas para o cinema brasileiro. Nas artes visuais as pessoas são mais tímidas, os movimentos são pequenos. Fica-se aguardando o reconhecimento que só viria de fora.

EC – O setor faz parte da modernidade, mas não se assumiu dentro do contexto por uma questão cultural, da forma de lidar com os aparelhos à disposição…
Icléia
– Não é propriamente da modernidade, mas sim da contem-poraneidade. As artes visuais, ou por conveniência, ou por circunstância histórica, não conseguem se integrar no esquema da Indústria Cultural. Digo aos meus alunos da universidade que algo está se perdendo rapidamente nos grandes centros que é aquela imagem de artistas fechados no seu ateliê, uma visão que vem do Romantismo, que artista é uma torre de marfim e vai ser descoberto. Hoje, as coisas não se passam exatamente assim – podia até ser no século XIX. O peso dessa imagem é tão forte nas artes visuais que muitos não conseguem romper com ela, sobretudo, fora das grandes capitais. Em São Paulo se vê artistas com seus portfólios, as galerias indo à luta, artistas administrando, chamando para si a responsabilidade da sua carreira. Muitos dão o jeito até de ter agentes, como há em outras áreas de artes; a Associação de Artistas Paulistas é forte, também em termos de reivindicação política; ou seja, há contextos diferentes. Entretanto, a questão do individualismo é quase a mesma: essa dificuldade de se organizar em grupos, pela própria natureza do trabalho que desenvolve é quase que uma característica internacional.

EC – Como os formadores de opinião, os próprios artistas, as pessoas que têm interesse na formação desse público lidam com essa realidade?
Icléia
– Iniciativas como a da Bienal do Mercosul, da Fundação Iberê Camargo, do Santander Cultural, são extremamente importantes, louváveis. Fico feliz por ver que está havendo uma mudança que nós nem conseguimos medir, mas que será fundamental no RS. Mas há um equívoco – que muitas vezes vem dos próprios patrocinadores, estatais ou particulares – que é querer resultados quantificados: “Tantos milhões visitaram a exposição tal”. Há pouca preocupação com a qualificação desse espectador e isso me inquieta um pouco.

EC – Não está havendo um problema de concepção da maneira de se medir o acesso, já que tornar disponível não é necessariamente dar acesso à arte?
Icléia
– É verdade. É nesse ponto que as escolas e os professores podem começar a dar um diferencial qualitativo. Temos que partir da formação da pessoa. No ano em que fiz a formação pedagógica dos futuros monitores da Bienal do Mercosul, enfatizei que essa formação deve ser permanente e não restrita à época em que começa a Bienal, buscando envolver professores por mais tempo, inclusive porque são feitos trabalhos pedagógicos com eles. Entramos nessa questão que você colocou: como os professores podem se informar. Muitas instituições se preocupam em fazer um trabalho pedagógico com esses profissionais, basta procurá-las. Para isso, temos a Bienal do Mercosul e a Fundação Iberê Camargo, por exemplo.

EC – Existe uma carência para esse tipo de formação. E ocorre demanda?
Icléia
– Existe uma demanda. Já há um curso para dar elementos por parte de algumas instituições, o que ainda é limitado. O próprio Santander, com a Fundação Cultural do Santander, também faz seminários. A exposição “Mirabolante Miró” teve um seminário aberto aos interessados. Todas essas exposições têm contado com monitores que podem passar informações para os interessados. Isso é fundamental: começar pela formação dos próprios professores, o que envolve, inclusive, a questão da atitude dos alunos numa exposição. Já vi crianças e adolescentes correndo desvairadamente pelos corredores da Bienal, tocando nas obras, ou seja, tendo atitudes absolutamente inadequadas.

EC – Uma interatividade que não convém…
Icléia
– Exatamente. Era até uma coisa desrespeitosa e nada havia de interatividade. Uma pintura pode ser degradada com esse tipo de atitude, sobretudo se 40 crianças tocarem. Parece que a gente tem que começar por aí, trabalhando com os professores.

EC – As iniciativas para formação estão concentrados na região metropolitana de Porto Alegre. As pessoas do Interior ficam um pouco à margem…
Icléia
– É bem provável. Conheço menos a situação do Interior. Cidades grandes do Interior, entretanto, já têm uma certa estrutura. A Universidade de Pelotas conta com uma excelente galeria. Existem cursos de arte em vários pontos do Estado. A demanda poderia começar, também, a partir dos próprios professores interessados, no sentido de ir para universidade – onde tem curso de arte – e solicitar um curso de extensão. Podem, os próprios docentes, negociar para que seja um preço bem razoável e que convide a formá-los. Por exemplo? Organizar um curso sobre a Bienal pouco tempo antes do início do evento. Uma exposição importante em algum lugar? Que se organize um curso sobre a exposição… O município deveria auxiliar e oportunizar pequenas viagens para visitar as exposições.

EC – Isso dependeria de questões políticas…
Icléia
– O exercício da cidadania também implica reivindicação. O político pode não ser da nossa linha política, mas no momento em que está eleito vai, de certa forma, me representar. Tenho direito, como cidadão, de reivindicar. Posso não ser atendido numa primeira vez, mas insistência, em geral, dá frutos.

EC – Quanto às pequenas instituições, como a Fundação Ecarta, que é dos professores e está começando, que tipo de iniciativa poderia ter nesse contexto de formação?
Icléia
– A Fundação Ecarta começou com o pé direito. Já criou uma galeria dedicada à exposição de arte contemporânea sem finalidade comercial. Arte contemporânea é a mais difícil para o público. Portanto, é com essa que nós temos que trabalhar. A Fundação está aberta para palestras, cursos na área de artes. É um trabalho social, que não só dis-ponibiliza a cultura, como também o acesso a ela: as palestras e as exposições gratuitas. Mas nós temos que vencer uma barreira criada involun-tariamente pela arte. As pessoas se intimidam em freqüentar os espaços. Elas têm a impressão de que vão sofrer uma pressão, quando a maioria dos espaços de arte é de acesso livre, até gratuitos. Existe essa espécie de barreira que a própria pessoa cria, mas tem um estímulo na cultura. Basta ver a Feira do Livro: a quantidade de gente se sentindo à vontade para folhear os livros e o acesso às livrarias. É a mesma coisa, quase. As pessoas pensam que só podem entrar se conhecerem, ou então pensam que vão ter que comprar alguma obra.

EC – Não fica muito à vontade para entrar em galerias e fundações, mas também não existe um grande esforço por parte desses espaços para popularizar o acesso…
Icléia
– Depende da administração. Vejo uma diferença, mesmo nas pessoas que se ocupam da segurança do prédio que, hoje em dia, depois de um trabalho de longos anos, as pessoas são acolhidas com muito mais gentileza. Os guardas passaram por uma formação, na Usina do Gasômetro, na Casa de Cultura Mario Quintana, no Museu de Arte do RS. Nas galerias, as coisas são mais complicadas. Às vezes os guardas olham da cabeça aos pés, criando uma certa intimidação.

EC – Até porque muitas galerias são espaços privados.
Icléia
– Sim. Todas as galerias são espaços privados, como lojas. São esses diferenciais da nossa sociedade, conforme o poder econômico e até a própria atitude da pessoa. Se ela se intimida um pouco, não funciona. Mesmo numa galeria, acredito que o público reaja bem quando é bem recebido, com uma atitude positiva, firme.

EC – Passa pela cidadania.
Icléia
– Exatamente. A arte é uma questão de cidadania. Visitei a Bienal de Cuba. Com todas as restrições que se possa ter ao sistema político, uma coisa que me chamou a atenção e me emocionou foi que, como a Bienal é considerada um patrimônio da população, as pessoas agem com essa consciência. Não há quem não saiba onde está ocorrendo, que não vá ou não tenha ido, que não foi em uma edição ao menos, enquanto estudante, levado pela escola. Se vê que a arte não é uma coisa de elite, mas um sistema social que tem interesse em criar elementos de diferenciação entre as pessoas.

EC – Isso quebra um pouco o argumento de que não adianta dar acesso à alta cultura…
Icléia
– Isso pode ser absolutamente quebrado, pulverizado. Não é verdade. Eu acho que, basicamente, esse trabalho parte da educação. Com os adultos temos que trabalhar como eles estão hoje, como um trabalho de conquista com alguém que teve uma formação no outro sentido. É mais difícil. Mas as escolas podem ser fundamentais…

EC – Popularizar o acesso à cultura não significa massificar, mas criar condições para pessoas de vários estratos sociais. Assim pode surgir um público qualificado, com interesse nas artes…
Icléia
– É verdade. Há dois grandes equívocos em relação à arte contemporânea: uma pergunta e uma resposta. A pergunta: o que isso quer dizer? E aí vem a resposta: eu tenho que entender. Nós temos é que sentir. Nós temos que nos sentir tocados e interpelados. A questão “o que isso quer dizer” morreu no século XIX porque a arte partiu para outros caminhos e isso não tem mais sentido. Essa questão intimida muitas pessoas. Fala-se muito mais em relação às artes visuais do que na música, como se a imagem tivesse de ser mais explícita do que o som; talvez uma herança da literatura e da própria arte ocidental. E voltando à questão da formação: eu fiquei muito impressionada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro quando vi uma monitora sentada no chão com um grupo grande de alunos e a professora, e pelo nível de perguntas e observações dessas crianças. Depois fui acompanhada pelo curador do museu e ele disse que eles fazem um trabalho regular com as escolas, ou seja, aquelas crianças estavam indo nesse mesmo museu pela quinta ou sexta vez. Eu acho que aí entra uma questão: muitas vezes o professor é que se dispõe a levar os alunos. É como qualquer outra coisa: não adianta ensinar subtração ou adição uma só vez. O trabalho didático é um trabalho de repetição.

EC – E é um processo que deve ser aproveitado pelo professor e pelo aluno.
Icléia
– Exatamente. Com esse trabalho eu vi o crescimento das crianças. Esse curador me explicou que elas eram de uma região muito modesta do Rio de Janeiro. A escola se inscreveu e todos os professores passaram a ir, pelo menos, uma vez ao ano ao Museu. Acho que nós só poderemos mudar dessa maneira, com esse tipo de trabalho de base, com crianças. O trabalho com adultos e outras faixas da população deve ser no sentido de quebrar esse tabu. Se as próprias instituições não quebram porque às vezes até têm interesse em mantê-los, nós devemos quebrar e mostrar que temos o direito de entrar, olhar, apreciar e até de não gostar, porque é possível não gostar.

EC – Tem a questão do consumo de arte: o acesso às artes não significa, necessariamente, realização.
Icléia
– Claro. Quanto mais a pessoa freqüenta, mais capaz ela vai ser de ter um repertório, saber discernir sobre a importância da arte, e não desqualificá-la. Mas isso nasce do próprio trabalho comparativo. Não adianta uma vez só.

Icléia Cattani é Professora Titular de História, Teoria e Crítica da Arte no Departamento e no PPG em Artes Visuais da Ufrgs. Doutora em História da Arte Contemporânea – Universidade de Paris I-Panthéon-Sorbonne. Pós-doutorado em Filosofia da Arte – Paris-I. Professora Visitante junto aos PPGs em Artes Plásticas da ECA-USP e Artes Plásticas e Ciências da Arte de Paris-I. Vice-diretora do Instituto de Artes (1989-1993); Coordenadora do PPG em Artes Visuais (1995-1999), Ufrgs. Editora da revista Porto Arte (1990-2000) e das coleções Estudos de Arte (1995-2000). Coordenadora da Bienal Interuniversitária, com a escola de Belas Artes de Santiago do Chile e com o PPG de Artes Plásticas e Ciências de Arte de Paris-I. Coordenadora de acordo Capes-Cofecub com essa última universidade (1995-1998). Pesquisadora 1A do CNPq, pesquisa atualmente as mestiçagens na arte contemporânea. Foi membro dos Comitês Assessores de Artes Visuais do CNPq, Funarte e Fapergs. Curadora de exposições, autora de livros e capítulos de livros, artigos em revistas especializadas e catálogos de exposição, sobretudo no Brasil e na França. Recebeu o Prêmio de Pesquisa – Artes da Fapergs (1999).

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