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Nº 101 | Ano 11 | Abr 2006
CULTURA

Por José Weis

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Jimmy Scott/Acervo do Sindicato dos Compositores Musicais do RS - Sicom/RS

Jimmy Scott/Acervo do Sindicato dos Compositores Musicais do RS - Sicom/RS

Vai faltar chope. No verão de 93, Tom Jobim (1927-1994) escreveu uma poesia que falava: “Vamos tomar um chope/Te apanho na esquina,/Já comprei o amendoim./Cinco anos de saudade”. Era uma homenagem do mestre da Bossa Nova ao “maestrão”, seu amigo Radamés Gnattali, cujo centenário de nascimento é comemorado em 2006.

Maestro, arranjador, compositor, dedicado à Música Popular Brasileira e às obras eruditas. Assim foi Radamés Gnattali, antes de tudo um exímio pianista. Nascido em Porto Alegre, em 27 de janeiro de 1906 (150 anos depois do nascimento de Wolfgang Amadeus Mozart), criado no Bairro Bom Fim, Radamés iniciou seus estudos no Conservatório de Música da capital gaúcha. Foi aluno de Guilherme Fontainha, pertenceu à mesma geração de Armando Albuquerque (1901-1986) e Luiz Cosme (1908-1965). Aos 23 anos, em outubro de 1929, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Radamés estreou como solista interpretando o Concerto n° 1 para piano e orquestrade Tchaikovski.

Tempos depois, começou sua carreira no rádio, dirigindo orquestras, escrevendo arranjos e seguindo em frente com suas próprias composições, que incluem de concerto para harmônica e orquestra, quartetos de cordas, até trilhas sonoras de filmes, como Ganga bruta (1933), de Humberto Mauro e Rio quarenta graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos e Eles não usam black tie, de Leon Hirszman (1981). Enfim, nas palavras de Hermínio Bello de Carvalho, no encarte do CD Radamés Gnattali – Acervo Funarte da Música Brasileira, reafirma: “Usina de sons – assim o designei uma vez”. Aliás, destas gravações remasterizadas no CD, participam Tom Jobim, Paulinho da Viola e Chiquinho do Acordeão, entre outros. A gravação original foi realizada em 1984.

Prognósticos

Já em 1939, Mário de Andrade vaticinava: “Apesar da mocidade, já domina a orquestra como raros entre nós. É a maior promessa do momento”. Sábias as palavras do professor e pesquisador de música, o modernista Mário de Andrade.

Recentemente, outro aval: “O século terminaria com Radamés sendo reconhecido como o grande arranjador brasileiro, modernizando uma escola de arranjos que tinha em Pixinguinha seu ponto mais alto – mas muito fincado no sotaque dos dobrados”. Quem avalia é Luís Nassif, em texto que escreveu a respeito do mestre no site Observatório da Imprensa.

Radamés tinha raízes na cultura musical desde o nome. O pai, um imigrante italiano – Alessandro Gnattali, também era músico, fagotista – apaixonado por óperas, em especial as de Giuseppe Verdi. Tal era sua paixão, que dois dos irmãos do criador de Valsa triste (1959) receberam os nomes de Aída – que também seria pianista – e Ernani, em homenagem à ópera Aida. Radamés faleceu no dia 13 de fevereiro de 1988, no Rio de Janeiro.

Arranjador e músico, como compositor, Radamés estreou aos 30 anos, apresentando sua Rapsódia brasileira. Em 1943 acontece a primeira audição de uma obra de Radamés no exterior. O Concerto n° 2 para piano e orquestra foi interpretado por Arnaldo Estrella em Washington, Chicago e Filadélfia. Em 1960, o próprio Gnattali foi à Europa, acompanhado de um sexteto que ficou famoso.

A reverência e relevância devidas ao autor de Fantasia brasileira e do Quarteto popular, entre outras obras-primas – um total de cerca de 270 composições catalogadas –, deverá ser motivo de celebração em todo o Brasil. A obra de Radamés Gnattali gerou um arco de influências que vai de Tom Jobim a Paulinho da Viola, passando por Paulo Moura.

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João Fiorin/PMPA

João Fiorin/PMPA


Harmonias

Para ouvir os arranjos, basta se investir de caçador dos timbres perdidos. Alguns ficaram antológicos: é de Radamés o arranjo da abertura deAquarela do Brasil, de Ary Barroso, na versão com Francisco Alves (1939). Outro clássico, a canção Lábios que beijei, de J. Cascata e Leonel Azevedo, com o consagrado Orlando Silva (1937). Também ficou para a história o arranjo que o compositor fez, em 1946, para Copacabana, de João de Barre e Alberto Ribeiro – como se dizia à época – na voz de Dick Farney. “Para alguns, o marco-zero da Bossa Nova”, ressalta Tárik de Souza em um texto de encarte do CD Radamés Gnattali & Severino Araújo – Enciclopédia Musical Brasileira (2000 – Warner Music). É de Gnattali o arranjo do Rancho da goiabada, dos tempos em que cada canção é um gol de placa da dupla João Bosco e Aldir Blanc (1976).

Também é possível ouvir arranjos de Radamés e orquestra, com o mestre ao piano e a voz de Aracy de Almeida cantando Noel, realizados entre 1950 e 1951, pela gravadora Continental. Ouça as seguintes faixas: O “X” do problema, Silêncio de um minuto e Com que roupa?. O disco que se tornou antológico celebrava, então, os 40 anos de Noel Rosa (1910-1937), com direito à capa desenhada por Di Cavalcanti. “Radamés era um músico de raro talento, criativo, avançado, com ambições às salas de concerto e alguma intimidade com o jazz” – assinalam João Máximo e Carlos Didier, em Noel Rosa, uma biografia (Editora UNB, 1990).

Ainda existem dois registros magistrais dentro da coleção Nova História da Música Popular Brasileira, da então Abril Cultural. No volume dedicado aDonga e os primitivos, há dois momentos para se ouvir o piano de Ra-damés, e um grupo de notáveis músicos, interpretando Jocosa, de Pedro Galdino e O vatapá, de Paulino Sacramento, em gravações de junho de 1971.

Rádio sob a batuta

Desde o início dos anos 30, Radamés Gnattali trabalhou direto no então jovem meio de comunicação, o rádio. Gnattali passou pela Rádio Clube do Brasil, Rádio Mayrink Veiga, na Gazeta de Cajuti, e Transmissora. Foi nessa última que começou a escrever seus primeiros arranjos. Em 1936 passa a fazer parte do grande elenco de artistas, músicos e comunicadores da PR8 Rádio Nacional. Dez anos depois, a emissora seria encampada durante o Estado Novo, de Getúlio Vargas.

O ano de 1943 marca a estréia de um programa que se transformou em grande sucesso, “Um milhão de melodias”, no mesmo período em que surge a Orquestra Brasileira de Radamés Gnattali. O regente passa a ser responsável por dar uma releitura nacional às músicas estrangeiras, uma das marcas da Era Vargas.

Radamés se propõe a enriquecer a música brasileira com arranjos mais sofisticados. Aos poucos foi mesclando esses arranjos com ritmos de percussão marcadamente brasileiros, dentro dos limitados recursos de técnica de gravação da época.

No ritmo, talento, e sob a batuta do mestre, “Um milhão de melodias” ficou 13 anos no ar. O programa era uma espécie de parada musical onde eram apresentadas composições de todas as partes do mundo. Radamés era o responsável por, pelo menos, nove arranjos por semana. Em 1954 estreou o programa “Quando os maestros se encontram”. A idéia inicial era incentivar jovens talentos da regência. Dentre os novatos havia um que depois ficou famoso e amigo de Radamés, Antonio Carlos Jobim.

Porém, nem só pelo rádio se ouvia a obra e a contribuição musical de Gnattali. Ele também chegou à televisão – Rede Globo, em 1968 –, onde permaneceu trabalhando por 11 anos como maestro e arranjador, responsável por trilhas de novelas, casos especiais, minisséries e demais atrações musicais da emissora.

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Imagens de Aluísio Didier/Funarte/Divulgação

Imagens de Aluísio Didier/Funarte/Divulgação

Homenagens revitalizam a obra do maestrão

As homenagens a Radamés se multiplicarão durante 2006, em todas as mídias, dignas de um mestre que soube utilizar os veículos de seu tempo, de forma marcante, do rádio à televisão, passando pelas grandes gravadoras. “O impressionante não era o número de empregos de Radamés, mas o fato de que ele realmente trabalhava em todos eles”, afirma Ruy Castro em Chega de Saudade – A História e as histórias da Bossa Nova (Editora Companhia das Letras, 1990).

Em Porto Alegre, em decreto assinado pelo prefeito José Fogaça, 2006 foi decretado o Ano Radamés Gnattali, lançado no dia do aniversário do compositor, com uma programação que pretende se estender até dezembro. Haverá exposições, como Radamés Gnattali – O músico total e Radamés vai à escola. Estão programados também recitais e balés a partir da obra do maestro.

Existe um espaço com o nome do ilustre porto-alegrense, a Sala Radamés Gnattali, localizada no Auditório Araújo Vianna, que atualmente passa por obras de reparos.

A professora e pianista Olinda Allessandrini gravou um CD com parte da obra para piano do maestro e arranjador intitulado Radamés Gnattali por Olinda Allessandrini (2001). Para Olinda, “ele foi um inovador. Por exemplo, escreveu obras para orquestra sinfônica tendo como solistas instrumentos não convencionais, como harmônica, bandolim, acordeão”.

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Imagens de Aluísio Didier/Funarte/Divulgação

Imagens de Aluísio Didier/Funarte/Divulgação

A musicista irá apresentar o Concerto duplo para piano, violoncelo(Fábio Presgrave) e Orquestra de Câmara, no dia 12 de junho no Theatro São Pedro, com a Orquestra de Câmara do Theatro e regência de Carlos Moreno (USP). Ainda sobre o mestre: “Sua produção erudita é menos conhecida. E muitas vezes não fica clara a linha divisória”, avalia Olinda.

Amigos, catálogo digital e documentário

Em vida, Radamés Gnattali foi muito homenageado com músicas compostas por Capiba (Um choro para Radamés), Paulinho da Viola (Sarau para Radamés) e Tom Jobim (Meu amigo Radamés). Retribuiu aos três amigos com Capibaribe; Obrigado, Paulinho; e Meu amigo Tom Jobim.

Também há um catálogo digital, lançado na forma de um CD-ROM, que compreende imagens em DVD, com depoimentos, partituras, fotos e a discografia do mestre.

Um outro modo de reencontrar-se com a vida e obra de Gnattali é o documentário Nosso amigo Radamés, de Aluísio Dieder e Moisés Kendler; por sinal, Aluísio também pertencia à “turma do chope”. Realizado a partir de 1983, o filme, agora remasterizado, é um testemunho revisado e ampliado, e chega ao grande público na carona da efeméride. Seu lançamento foi em 1990.

Radamés e a Ospa

A relação do porto-alegrense Radamés com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa) perdurou durante décadas. A primeira vez foi como regente, na direção da sua Pequena suíte brasileira, por sinal em primeira audição, em setembro de 1959. A última vez em que Gnattali esteve à frente da Ospa foi em junho de 1984. Mas há registros nos programas da Orquestra de inúmeras apresentações de obras de Radamés; uma das últimas vezes foi em 1996, quando o maestro Cláudio Ribeiro dirigiu a Sinfonia popular n°4.

Para este ano, a Ospa programou algumas obras de Radamés para render homenagens ao mestre. A primeira foi ainda em março, quando apresentou o Concerto para harpa e orquestra e, em primeira audição, Brasiliana n°1. “Na verdade, esta foi a única partitura digitalizada; ou seja, com um bom material para a Orquestra trabalhar, um trabalho da Academia Brasileira de Música”, ressalva o maestro Manfredo Schmiedt. Ele lembra ainda que serão executadas outras obras de Gnattali.

Regente do coro sinfônico da Ospa, Schmiedt ressalta mais dois programas da orquestra com obras gnattalianas: os Concertos para Marimba e Orquestra e Trompete e Orquestra, que serão realizados ao ar livre, sob regência de Isaac Karabtchevsky, nos meses de junho e dezembro respectivamente.

Manfredo informa que Roberto Gnattali, sobrinho de Radamés, está fazendo uma compilação e catalogando as partituras das obras do tio. Algumas dessas peças serão encaminhadas à Ospa “para que se possa aproveitá-las dentro da programação, ainda deste ano, ou dos anos próximos”, revela. O maestro também adianta que irá reger um concerto frente à Orquestra Sinfônica da Universidade de Caxias do Sul, com o Quinteto Villa-Lobos, um quinteto de madeiras e orquestra praticamente inédito, de Gnattali.

Uma das dificuldades encontradas para realmente prestar homenagens a Radamés é o fato que boa parte das partituras ainda estão em poder da viúva do maestro, comprova Manfredo.

Ainda na linha das homenagens e memória, a pianista Fernanda Chaves Canaud, através da produção do selo Biscoito Fino, está lançando um CD com a obra escrita para piano pelo compositor gaúcho que abrange o período entre 1940 e 1945.

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