Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 101 | Ano 11 | Abr 2006
EDUCAÇÃO
ULBRA

Por Marcia Camarano

Uma instituição que sempre se mostrou pujante para a sociedade, a Ulbra entrou março batendo recorde de demissões. Foram 275 baixas em seu corpo docente até o dia 31. Os professores foram surpreendidos pela época do ano, pois os desligamentos se deram a partir de 2 de março, sem que antes ninguém tomasse conhecimento de quantos, quem seriam e quando se dariam os cortes. Para os representantes da Universidade, as baixas são conseqüência de uma profunda alteração curricular definida em novembro, motivada por uma crise financeira. O Sinpro/RS considera esta uma explicação estranha, pois, em janeiro desse ano, a Ulbra lançou uma revista de 52 páginas com a manchete “A Universidade de Seis Estados”, na qual faz questão de mostrar sua robustez por todos os lados: ensino, esportes, saúde, patrimônio, o que faz com que se autoproclame “a maior Universidade do RS”. Talvez seja essa diversificação de atividades, para além do ensino, a causa do descontrole financeiro apontado agora.

As rescisões na Ulbra foram marcadas por problemas como remarcação de agendas devido à falta de documentação e interpretações de leis sempre desfavoráveis aos demitidos. Ainda, o não-recolhimento do Fundo de Garantia e o fato de que professores em fase de aposentadoria (a Convenção Coletiva determina estabilidade de três anos ao aposentando) terem suas cargas horárias reduzidas. Por conta disso, o Sinpro/RS entrou com pedido de fiscalização junto ao Ministério do Trabalho.

Desde dezembro, o Sinpro/RS vinha insistindo para que a Ulbra informasse quantos e quais seriam os docentes demitidos. Mas a direção só começou a dar aviso prévio a partir de 20 de fevereiro, quando as escolas particulares já estavam com suas vagas preenchidas e os professores não tinham mais condições de conseguir outras colocações. “Em 20 anos de atividade no Sinpro/RS, nunca vi um volume tão grande de demissões”, espanta-se Marcos Fuhr, diretor da entidade.

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Foto:Tânia Meinerz

Foto:Tânia Meinerz

Para entender melhor o que está acontecendo, a direção do Sindicato reuniu-se com representantes da Universidade. Alegando crise financeira, o pró-reitor administrativo, Pedro Me-negat, e o diretor jurídico, Domingos Góes, propuseram que o Sinpro/RS abrisse mão de direitos adquiridos pela Convenção Coletiva e mesmo assegurados pela CLT. Defenderam que o Sindicato aceitasse a quebra de isonomia, o que a Ulbra já vem fazendo há dois anos, propondo o encerramento de demanda judicial sobre o assunto. A quebra de isonomia ficaria cristalizada com o Plano de Carreira que querem homologar no Ministério do Trabalho.

“É uma postura recorrente de desrespeito aos professores e não podemos aceitar essa proposta, sob pena de isso causar um impacto negativo junto às instituições que cumprem a lei e a Convenção Coletiva”, destaca Fuhr.

Educação a Distância

Em novembro, a Ulbra constituiu um grupo para mudar todo o projeto acadêmico, com reformulações no currículo, dando ênfase à Educação a Distância. O objetivo é baratear custos. Além disso, está em curso um processo de redução da carga horária e do número de turmas – com conseqüente maior número de alunos.

A implementação da Educação a Distância é um dos pontos mais polêmicos dessa alteração, pois, segundo seus críticos, coloca em xeque a qualidade do ensino. Além de dar mais peso a essa modalidade de ensino, a Ulbra resolveu entrar no mercado dos cursos a distância ao assinar, no final do ano, um convênio com a Iesde – Inteligência Educacional e Sistemas de Ensino, de Curitiba. Menegat reitera que todas as mudanças são ditadas pelo mercado.

Depois de 13 anos lecionando na área da saúde, a médica Lúcia de Fontoura Osório foi demitida. “Não foi surpresa, pois as atitudes da direção já mostravam que esse era o fim.” Quem não foi demitido teve redução de carga horária. A professora afirma que aulas práticas deixaram de existir.
Airton da Silveira foi diretor da Farmácia, de 1999 a 2001. “Entrei iludido de que poderia proporcionar avanços, mas a Ulbra não ouve os professores e hoje saio descontente pelo desrespeito não só conosco, mas para com funcionários e alunos”. Para ele, as mudanças “são uma tragédia”.

Diretor da Farmácia de 1994 a 2000, e professor por 19 anos, Carlos Coelho vê o futuro do curso com pessimismo: “Haverá uma queda grande na qualidade”. Para ele, as demissões também são questionáveis. “Ficou clara a falta de preocupação com o ser humano. Demitir em fevereiro significa que o professor não terá como se colocar no mercado, pois as escolas já estão com seus quadros preenchidos”.

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Foto: Tânia Meinerz

Foto: Tânia Meinerz

Diversidade de negócios

Sempre pronta a diversificar seu foco, há dois anos a Ulbra fez uma operação considerada inédita. Misturou-se ao mundo dos negócios, lançando R$ 205 milhões em títulos de investimento no mercado. O objetivo? Atrair investidores brasileiros e estrangeiros. Para isso, criou uma empresa de capital aberto, a Ulbra Recebíveis S.A.

Lançar-se no mercado financeiro, no entanto, fez com que os negócios da instituição passassem a ser alvo de investigação. O jornal O Globo (RJ), publicou, em novembro, uma matéria que envolve a Ulbra com o mais conhecido fraudador da Previdência e da Receita Federal, o argentino Cezar Arrieta. A SRS, firma da mulher de Arrieta, Sônia Soder, emprestou à Ulbra R$ 18 milhões, entre 2002 e 2003. Conforme a matéria, os investigadores sustentam que a transação era uma forma de lavar dinheiro, fazendo de Arrieta o proprietário oculto da Ulbra.

O jornal relata ainda que um dos esquemas de fraude montados por Arrieta era usar falsos créditos de Impostos sobre Produtos Industrializados (IPI) da empresa de fachada Vale Couros. Os créditos eram vendidos a outras empresas e usados para compensar dívidas com a Receita. Conforme investigações da própria Receita e da Polícia Federal do RS, a Ulbra teria sido uma das favorecidas com a fraude.

Outra investigação que respinga na Ulbra é a auditoria externa que a atual diretoria da Núcleos, uma caixa de pensão dos funcionários do sistema nuclear, contratou para analisar sua carteira de debêntures. De um total de R$ 148,8 milhões em operações suspeitas patrocinadas pela gestão anterior, R$ 90 milhões corresponderam a papéis comprados da Ulbra.

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Foto: Tânia Meinerz

Foto: Tânia Meinerz

Além disso, as despesas da Universidade parecem se confundir com as do seu reitor, fato já levantado há quatro anos por outro veículo de comunicação nacional, a Folha de S.Paulo. De acordo com o jornal, entre janeiro de 1998 e março de 1999, a entidade repassou R$ 1,26 milhão ao reitor Ruben Eugen Becker. Parte foi usada para “aquisição de bens incorporados ao patrimônio do reitor”.

Os investigadores recolheram notas fiscais emitidas não para a Ulbra, mas para o pastor, particularmente. Muitas notas foram emitidas por revendedoras de veículos antigos. Chamada a dar explicações, a Ulbra disse que alguns dados “foram erroneamente lançados na contabilidade”. Os carros estariam no museu da Universidade.

Ainda, segundo a Folha, em 7 de abril de 1995 a filantrópica luterana comprou de Roque Missioneiro Cavalcanti 261 mil metros quadrados de terra, pagando R$ 2 milhões. No mesmo dia, Ruben Becker comprou para si, do mesmo proprietário, uma área próxima, de 85,4 mil metros quadrados, desembolsando R$ 320 mil. Em 10 de abril de 1997, revendeu parte do imóvel para a entidade que dirige, recebendo R$ 377 mil. Ao justificar-se sobre o episódio na época, a Ulbra disse que a área “é objeto de contendas judiciais”.

Os fiscais que apuraram as movimentações financeiras da Ulbra naquela década concluíram que foram drenados recursos para outras empresas, como o Centro de Desenvolvimento e Tecnologia (CDT), que recebeu R$ 11,7 milhões entre 1997 e 1998. Aplicaram-se outros R$ 13,2 milhões entre 1997 e 1999 em patrocínios esportivos do Sport Club Ulbra, entre outros. São firmas que pertencem a dirigentes da Luterana, entre eles o reitor e seu filho Leandro. Em sua defesa, a instituição alegou que os dirigentes apenas “emprestaram seus nomes, sem nenhuma vantagem financeira”.

Muito além da crise

Esportes – O Sport Club Ulbra possui atletas e equipes competitivas em várias modalidades, a maior parte com parcerias e patrocínios. É uma empresa dentro da Ulbra, mas como essa informação não fica clara para a sociedade, muitos estudantes fazem o vestibular de Educação Física pensando em ter uma chance de brilhar nessas modalidades. O professor Edmilson Santos, demitido recentemente, conta que o número de alunos pulou de cerca de 600 para mais de 4 mil em função dessa desinformação.

Ulbra TV – O sinal entrou no ar em novembro de 2004 pelo canal 48. Um ano depois, a programação passou a ser transmitida também a cabo, pelo canal 21. Parte da grade é produzida por equipe própria e outra provém da STV, de São Paulo, permitindo que a TV fique 24 horas no ar. Pedro Menegat anunciou que está em estudo a implantação da TV digital, o que significa desembolso de vultosos recursos.

Museu de Tecnologia – Inserido entre os maiores do mundo, é considerado o maior da América Latina, especialmente quanto ao acervo automobilístico.

Saúde – A Ulbra mantém uma das maiores redes de assistência no Estado, englobando 31 Unidades Ambulatoriais e quatro hospitais. Seu Plano de Saúde conta com 110 mil associados. Há dois anos, foi noticiado que o Complexo Hospitalar Ulbra assinou contrato com a Sivsa, empresa espanhola especializada no desenvolvimento e implementação de software para o setor hospitalar, quando informatizou sua rede. A Sivsa atua no mercado nacional desde 1998 e, conforme a própria empresa, o retorno financeiro da filial no Brasil começou a aparecer com o fechamento de dois contratos, um deles com a Ulbra.

Para Marcos Fuhr, é complicado estabelecer negociações diante das contradições da Universidade. “O Sindicato não se convence das dificuldades alegadas e não vai permitir que os professores sejam mais uma vez penalizados com medidas que diminuem seus direitos”, manifesta.

A Assessoria de Comunicação da Ulbra foi acionada para que um representante da instituição concedesse entrevista ao Extra Classe. Não houve resposta.

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Foto: Tânia Meinerz

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