Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 103 | Ano 11 | Jun 2006
IDEIAS

Por André Pereira

Não quero mais saber de reza, irmão. Me bastou o período em que fui seu aluno. O senhor me empanturrou de religião. Agora, chega – declara, sorridente, o jovem e bronzeado empresário, vestindo bermudas brancas, imaculadas como a camisa Lacoste e o alvo boné imitando quepe de oficial da Marinha, com aba azul e o dístico com monograma dourado.

Com olhar esperto, o velho irmão vasculha a cabine de comando do iate do ex-aluno do Colégio Rosário, em Porto Alegre, onde lecionou nos anos 60 antes de ser preso pelos militares que golpearam a nação em 1964. E encontra, ao lado do leme, a imagem da santa, pequenina mas que se impõe, colorida e impávida estatueta. Então, interroga o dono da embarcação com expressão irônica.

– Irmão, nela eu me agarro quando estou no meio do rio e o tempo muda, inesperadamente, trazendo tempestade, susto e mau agouro. Aí, rezo mesmo com a santinha… – rebate o empreendedor, pego na contradição de maneira tão singela.

– Ah! Desgraçado. Nesta hora a reza te convém… – diz, em tom de severidade brincalhona, que não surpreende mais o antigo estudante rosariense, o irmão Antônio Cechim, santa-mariense de 79 anos que veio para Porto Alegre com 10 anos para estudar no internato do Colégio Champagnat e, depois, virar religioso da congregação dos Irmãos Maristas.
Irmão Cechim está aproveitando para completar mais um passinho da missão a que se dedica desde 1985 trabalhando com comunidades nas ilhas do Guaíba, lutando pela preservação das águas e pela despoluição ambiental.

Em 1985, já afamado pelo trabalho de organização dos movimentos populares na Grande Porto Alegre, onde liderou ocupações urbanas em condomínios residenciais, irmão Cechim foi convidado pela freira belga Marie Eve para substituí-la na tarefa que executava com os moradores das ilhas. Com 90 anos, quase cega, a freira passou-lhe o bastão na Ilha Grande dos Marinheiros onde fazia trabalho de catequese e estimulava a geração de renda, ensinando a ciência do artesanato em lã. Sem os mesmos dotes, irmão Cechim viu que das toneladas de lixo que as águas carregavam – principalmente durante as enchentes antes costumeiras – os ilhéus poderiam retirar sustento e, ao mesmo tempo, contribuir para a despoluição. Foi assim que em 1987 nasceu a primeira associação de catadores, depois recicladores de lixo, de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. Em 1989, quando o Partido dos Trabalhadores de Olívio Dutra assumiu a prefeitura da Capital, propôs ao irmão Cechim a transformação daquela prática em um elemento da política pública da municipalidade em relação às ilhas. Ali na Ilha Grande dos Marinheiros, entre o povo de recicladores, areeiros e pescadores, instalou-se o primeiro Centro Administrativo Regional (CAR) de Porto Alegre nos primórdios da descentralização administrativa que o governo dito da Frente Popular praticou por 16 anos com o sistema do Orçamento Participativo (OP). “Enxameei as ilhas com outros galpões de reciclagem que hoje somam 18 associações só na cidade e cerca de 100 no Estado”, festeja Cechim.

Agora, diante do feliz proprietário do iate, como faz com todos potenciais cúmplices de jornada, especialmente aos que têm alguma ligação com o lago (de dependência, afeto ou lazer), também Cechim pede ajuda, para que se incorpore, da forma como puder, e propague a idéia de resgate do Guaíba que tem águas tão impuras hoje quanto sagradas na origem da vida. (“A gente não nasce de uma bolsa de água?”, simplifica o religioso.)

Do ponto de vista institucional, esse apelo à consciência ambientalista dos gaúchos com relação à importância do Guaíba foi consolidado com a realização da Romaria das Águas no dia 12 de outubro, que é data consagrada à Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.

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Foto: Tânia Meinerz

Foto: Tânia Meinerz

O evento nasceu em 1994 como uma espécie de afirmação da devoção ao lago, que a parte oficial da procissão de Nossa Senhora dos Navegantes despreza no dia 2 de fevereiro, preferindo o percurso terrestre, desde a Igreja do Rosário no centro da Capital até a Igreja de Navegantes, no bairro da zona norte. Pois, com outra santa, o irmão Cechim tratou de institu-cionalizar esta Romaria das Águas de outubro. Mas hoje já não tem o auxílio do atual governo estadual – que encontrava na gestão anterior em parcerias solidárias do Programa Pró-Guaíba. (Em 1999, a romaria do lago passou a abranger toda a Região Hidrográfica do Guaíba, com 84,7 mil km², formada por nove bacias hidrográficas e mais de 250 municípios, beneficiando uma população de mais de seis milhões de habitantes. “De nada adiantaria se apenas o lago Guaíba fosse despoluído, pois ele recebe diretamente as águas dos rios dos Sinos, Gravataí, Caí e Jacuí”, sentencia Cechim.)

Mesmo assim, renegado pelo poder público, ele vai realizar a Romaria das Águas neste ano de 2006 com os recursos que obtiver e com o voluntariado que puder atrair. Conta que vai recorrer às dioceses da igreja católica que circundam as nove nascentes dos rios Gravataí, Caí, Sinos, Pardo, Taquari, Antas e os baixo, médio e alto Jacuí que deságuam no Guaíba.

Vai pedir apoio para repetir o ritual feito na Usina do Gasômetro quando, no auge da cerimônia, na celebração ecumênica que reúne católicos a umbandistas, são misturados os líquidos límpidos recolhidos em cada uma das nove nascentes, formando a água pura que então é jogada no escurecido e imundo Guaíba, simbolizando o compromisso de todos com a luta pela purificação do lago.

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