Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 104 | Ano 11 | Jul 2006
ELISA LUCINDA

Outra vez eu te peço meu Deus,
dai-me uma noite de sono tranqüilo,
a noite que eu preciso pra ajeitar meu caos?
Uma noite de sono liso,
não uma noite de improviso,
dá-me uma noite de sono natural?
Aquela oferecida às crianças que acabaram de mamar,
aquela que depois do tempo dela,
nem se tem preguiça de acordar.
Ô meu Deus,
hoje eu não peço pelas criancinhas,
nem pela miséria do mundo.
Hoje é miséria mesmo minha,
miseriazinha,
e eu no seu lugar não teria como me negar.
Já leu meu boletim?
Já reparou que eu compareço?
Já viu como eu mereço?
Que nenhuma aula eu perco,
ainda que seja assunto difícil de estudar?
Outra vez meu Deus, um berço,
sua mão macia a me balançar?
Dai-me ao menos o olhar de Pai,
uma luz acesa,
a garantia para bem sonhar?
Ô meu Deus,
hoje eu não peço pelas vilanias,
nem pelo protagonista que deu um passo errante,
hoje eu peço é pela figurante,
e eu, no seu poder,
não ia demorar em me atender.
Já viu meu passaporte?
Já viu como eu sou forte?
Já viu meu caderno novo cheio de poemas?
Já viu quantas cenas já escrevi pra te agradar?
Nem precisa ser o Deus do céu,
o Deus mandante.
Serve o Deus representante.
Um Deus Papai Noel,
que tenha o grande saco de me esperar dormir.
Dai-me uma noite sonolenta
que amanhã entenda seu porvir?
Dai-me, meu Deus, vou insistir,
uma noite calma,
camisola e alma,
de um azul lilás?
Quero dormir de verdade
na serenidade da velha paz.
E para não te dar trabalho
nem precisa me enviar um anjo,
um assessor tocador de banjo,
nem o seu melhor arcanjo
a me esperar no cais.
Nada!
Dai-me apenas uma boa noite de sono.
Por ora eu te agradeço,
por ora eu me arranjo,
depois eu peço mais.

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