Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 105 | Ano 11 | Ago 2006
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Dizem que falar “shit” para o Blair e massagear as costas da sra. Merkel não foi só o que o Bush aprontou na reunião do Grupo dos Oito em São Petersburgo, na última semana (N.E.: última semana de julho). Ele teria passado todo o tempo fazendo e lançando aviõezinhos de papel, um dos quais quase acertou o Chirac no olho, e contando piada de canadense para o premier do Canadá, que também não gostou muito. E massagear as suas costas não foi a única surpresa que Bush preparou para Frau Merkel. Felizmente, as câmeras não registraram o tapa na bunda, que a alemã tentou revidar com um soco. Os outros só reagiram quando Bush propôs que, em homenagem aos seus anfitriões, se agarrassem pela cintura e circulassem a mesa de reuniões dançando a conga, que, segundo ouvira, era uma dança folclórica russa.

Está certo, não se pode levar o Bush a nenhum lugar sério, mas eu acho que nesse caso ele foi o único que se comportou de acordo com a ocasião. Lá estavam os compenetrados donos do mundo reunidos como se adiantasse alguma coisa, como se seus conchavos fizessem qualquer diferença para os males do mundo além de agravá-los. Enquanto se banqueteavam, o Oriente Médio explodia – de novo. A situação no Oriente Médio foi historicamente criada pelas potências ocidentais e hoje é mantida pela sua hipocrisia e omissão, ou, no caso dos Estados Unidos, pela sua conveniência política. Nada de novo com relação ao Oriente Médio saiu da reunião dos oito, talvez nem tenham tocado no assunto. Bush entendeu, como os outros sete não entenderam, que não dava para dignificar aquela farsa com seriedade. Talvez tenha exagerado. Arrancar o tupê da cabeça do Putin e sair correndo com ele pode ter sido demais. Mas nunca Bush demonstrou as virtudes de um estadista, correta avaliação da realidade e autocrítica, como na semana passada, em São Petersburgo.

Sou dunguista, mas acho que Dunga foi chamado para técnico da Seleção como uma reação direta às mãos no bolso do Parreira. Devem ter se reunido e debatido quem seria o técnico menos capaz de ficar com as mãos no bolso enquanto o mundo ruía à sua volta, e, já que o Felipão não quis, escolheram o Dunga. É um critério como qualquer outro. Pode dar certo. Não vale reclamar que ele não tem experiência como treinador. Nos times em que jogou, Dunga orientava, motivava, cobrava e mostrava como se faz. Tudo que se espera de um treinador. Agora ele só vai ficar fora do campo.

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