Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 105 | Ano 11 | Ago 2006
ENTREVISTA | TANIA ZAGURY

Por Gilson Camargo

O modelo de educação brasileiro está longe de encontrar a fórmula para democratizar o acesso ao saber. Ao contrário, nada vai bem nesse setor, em que os profissionais foram colocados contra a parede pela indisciplina dos alunos, pela omissão da família, pelas políticas públicas equivocadas e sem lastro na realidade, pela má remuneração e excesso de tarefas. Na outra ponta, os alunos concluem o Ensino Médio sem dominar a leitura nem os fundamentos da Matemática, e o país figura nos últimos lugares das avaliações nacionais e internacionais dos sistemas educativos. Para entender essa realidade e propor saídas como a prática de uma “Ciência-Educação”, a filósofa, Mestre em Educação e professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pesquisadora e escritora, Tania Zagury, empreendeu uma pesquisa com professores do Ensino Fundamental e Médio de escolas públicas e privadas em 42 cidades brasileiras. Com bases científicas, o estudo mostra o que pensam os cerca de 2 milhões de docentes do país. O resultado está no livro O professor refém – Para pais e professores entenderem por que fracassa a educação no Brasil (Editora Record, 301 páginas). Autora de 13 livros, entre os quais Limites sem trauma (traduzido para Itália, França, EUA, Argentina, Espanha, Uruguai e México) e O adolescente por ele mesmo, a autora afirma nesta entrevista que a prática docente tem sido subestimada nas análises sobre educação.

Extra Classe – Por que o professor é refém?
Tania Zagury
– Foi um processo que começou há anos e não tem apenas uma causa. Na verdade, houve uma conjunção de fatores, parte dos quais originários de mudanças tecnológicas e sociais; outra parte é decorrente de mudanças e desestruturação na família; e a terceira tem a ver com decisões educacionais equivocadas. Somadas, elas propiciaram uma queda gradual e contínua na qualidade do sistema educacional brasileiro como um todo e da Educação Básica em particular, além de terem contribuído para tornar o trabalho docente extremamente difícil.

EC – Quem e que fatores o mantêm nessa condição?
Zagury
– O professor é refém, em primeiro lugar, da sua própria formação, que também é deficiente; do aumento absurdo de tarefas e objetivos que se tem colocado para a escola; da sociedade que pouco ou nada valoriza o saber e a ética, e sim o “ter”, especialmente em se tratando de bens materiais, a fama, a riqueza monetária, o poder, além de estimular fortemente o consumismo e o imediatismo. É refém ainda da família, que tem se oposto à escola e às regras que ela estabelece criando um abismo entre as duas instituições; de medidas político-educacionais equivocadas; e, por fim, é refém da própria consciência, na medida em que percebe que não está conseguindo alcançar os objetivos educacionais a que se propõe.

EC – Por que fracassa a educação no Brasil?
Zagury
– Uma das causas é a falta de continuidade e de avaliação de resultados dos projetos e reformas que são colocados em prática – e depois retirados. Aos professores cabe executar o que se decide em educação. Sem dúvida, se os professores fossem ouvidos antes da implementação de uma mudança, dariam grandes contribuições no sentido de, por exemplo, alertar para as necessidades, para a execução bem-sucedida, mas teriam que ser ouvidos antes de se começar a operacio-nalização. Outro problema grave é que, de fato, não há seriedade na maioria das propostas que são implantadas. Parece que há apenas o desejo de cada novo gestor de “provar” que fez mais e melhor do que seu antecessor. Por isso, uma outra proposta minha é a desvinculação entre educação e política partidária. Não que a educação seja apolítica, mas precisa estar acima de disputas pessoais. A falta de continuidade é fruto da vinculação com a política partidária. Sem considerar o mal que causa aos nossos estudantes e docentes, há também o custo financeiro altíssimo de se colocar em prática decisões que visam apenas “tornar muito visível” que alguém está fazendo “alguma coisa” pela educação. Em geral, essas medidas são onerosas e raramente seus resultados são qualitativamente avaliados.

EC – Esse cenário inclui o ensino privado?
Zagury
– Em alguns aspectos a rede pública e a particular se diferenciam, em outros são muito semelhantes. Na rede particular há melhores condições de trabalho, em geral; mas os grandes problemas são basicamente os mesmos nas duas realidades. Às vezes, a mesma dificuldade se apresenta com outra roupagem em cada sistema de ensino, mas em essência é o mesmo problema. Por exemplo, a falta de limites na escola privada traduz-se em uma espécie de prepotência e falta de respeito à autoridade do professor, identificada pela idéia de que como é uma escola “paga”, o professor, de certa forma, “deve” ao aluno e à sua família o emprego; já na escola pública, o mesmo problema pode aparecer sob a forma de ameaças, mais ou menos claras, à integridade física do docente – o que não significa que esse tipo de conduta não possa surgir também na escola privada. De qualquer forma, uns usam a força do dinheiro e do status social; outros a força física. A dificuldade de avaliar qualitativamente também é apontada como problema pelos docentes nas duas realidades. Mas é preciso ressaltar que tanto a escola privada quanto a pública vêm apresentando queda na qualidade do ensino. As seguidas avaliações feitas pelo próprio MEC através do INEP mostram que tanto alunos da rede pública quanto da privada podem ter bons resultados, assim como péssimos resultados. Portanto, o problema é geral.

EC – Essas constatações de O professor refém são fundamentadas a partir de uma pesquisa inédita em que foram ouvidos 1.172 professores do Ensino Fundamental e Médio. Qual a importância de se pensar a educação a partir de dados científicos e não apenas com base em “achismos”?
Zagury
– Realmente, a minha proposta é essa. Está mais do que na hora de começarmos a “Ciência-Educação”: só se colocaria em campo inovações metodológicas ou mudanças estruturais testadas cientificamente a priori em algumas escolas-piloto, cujo andamento e resultados fossem acompanhados e analisados constantemente por especialistas. Como se faz hoje, por exemplo, no campo de pesquisas médicas. Em educação trabalha-se segundo a ultrapassada fórmula “ensaio-e-erro”, quer dizer, vai-se tentando uma coisa, outra e mais outra, ao sabor de preferências e gosto pessoal daqueles que, num determinado momento, ocupam o poder decisório. A meu juízo, essa é uma das causas preponderantes do fracasso da Educação Básica brasileiro. E foi também uma das razões para escrever O professor refém – eu queria um livro que traduzisse de forma fiel a situação concreta de sala de aula, o pensamento e as dificuldades dos docentes que trabalham na Educação Básica brasileira.

EC – E como a senhora obteve as informações necessárias?
Zagury
– Para tanto, fiz uma vasta pesquisa de campo, com todos os cuidados técnicos que ela exige, tais como determinar uma amostra significativa em relação ao universo (no caso, foram necessárias mil entrevistas, mas cheguei a 1.172). O questionário, aplicado aos docentes e construído por mim, foi validado e aperfeiçoado por especialistas com nível de doutorado. Foram seis versões até chegar à forma final utilizada. Além disso, só participaram do estudo aqueles professores que, de fato e espontaneamente, optaram por isso, os quais tiveram total garantia de anonimato. Os dados foram colhidos entre docentes do Ensino Fundamental e Médio, no ensino público e privado, em 42 cidades de grande, médio e pequeno porte, em 22 estados brasileiros. Os questionários foram depois trabalhados estatisticamente, e os resultados, analisados e interpretados por mim, que nessa fase do estudo busquei também aliar à minha própria experiência docente na rede pública municipal e na Educação Superior. E assim, após três anos de trabalho, temos este livro que, creio, traduz de forma inédita os sentimentos, dificuldades, problemas e acertos dos nossos professores, especialmente porque é fruto de um trabalho científico e não do que cada um “acha” que é a causa da situação. Uma das minhas maiores bandeiras é fazer com que decisões político-educacionais baseiem-se em fatos concretos, levantados a partir de estudos de largo espectro sobre a realidade de sala de aula e não nos “achismos” e opiniões ou simpatias pessoais.

EC – A senhora afirma em seu livro que a experiência prática dos professores tem sido subestimada nas análises sobre educação e na formulação de políticas para o setor. Trazer o professor para o centro da discussão seria uma saída para os problemas enfrentados pela educação?
Zagury
– Com certeza. Quem executa precisa estar muito bem preparado para fazê-lo, mas, acima de tudo, precisa acreditar que o que vai fazer tem chance de dar certo. Como disse anteriormente, as causas do fracasso em educação, na pesquisa é a não-continuidade e ausência de avaliação de resultados dos projetos. Se os professores fossem ouvidos antes da implementação de mudanças, poderiam alertar para as verdadeiras necessidades. Como ocorreu com os que participaram do estudo de O professor refém. Eles mostraram claramente que não se sentem aptos, por exemplo, a trabalhar “Prevenção ao Uso e Abuso de Drogas” (53% consideram-se não preparados para trabalhar o tema). Mas o fracasso da Educação Básica não se reduz, evidentemente, a apenas esse aspecto. A questão é muito mais ampla e complexa. No entanto, essa seria uma boa providência para se começar a melhorar a escola brasileira.

EC – Se os brasileiros concluem os oito anos do Fundamental e os três do Ensino Médio sem dominar a leitura nem a matemática básica, que sentido têm programas como o sistema de cotas para afro-descendentes nas universidades e o ProUni?
Zagury
– Quando se constrói um prédio começa-se pela estrutura, pelas “fundações”. Em educação a estrutura é o Ensino Básico. Querer corrigir problemas originários de uma Educação Básica deficiente na Educação Superior é risível. É claro que existem pessoas muito bem-intencionadas lutando por esse tipo de proposta, mas pessoalmente são totalmente contrárias à idéia de “compensação social” na Universidade. Só conseguiremos com isto fazer com que esses jovens – que já estão defasados – ganhem seu diploma de nível superior como ganharam o da Educação Básica: com deficiências sérias. Aparentemente se terá “pago” a eles a dívida social, mas não realmente. Eles acordarão do sonho quando forem preteridos pelo mercado de trabalho, por não terem as competências mínimas para assumir suas funções. Não se consegue qualidade assim.

EC – A pesquisa aponta a indisciplina dos alunos como uma das maiores dificuldades dos professores. Qual é o papel do professor, afinal?
Zagury
– Algumas pessoas – me parece – consideram que desenvolver competências sociais e de relacionamento são incompatíveis com desenvolver competências cognitivas e profissionais ao mesmo tempo. Não há incompatibilidade entre os dois grupos de objetivos. O que há é falta de tempo. Aumentar tarefas e objetivos e permanecer com a mesma carga horária anual acabam levando o docente a, obrigatoriamente, optar entre objetivos que nunca poderiam ser descartados. Mas já está muito antiga a premissa de que “dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço”.

EC – Qual a solução?
Zagury
– Ter mais espaço, mais tempo em sala de aula. E professores preparados para executar tarefas que até há pouco tempo não faziam parte de sua formação.

EC – Qual é a relação entre falta de motivação e indisciplina dos alunos?
Zagury
– As escolas são hoje menos atraentes e menos equipadas do que aquilo que os alunos têm em casa ou à disposição na sociedade (jogos eletrônicos, computadores, TV, ipods, etc.). Mas esse é apenas um dos fatores. O desemprego alto é outro. Pessoas com boa formação nem sempre conseguem emprego, o que é também fator de desestímulo. A supervalorização de bens materiais em detrimento do saber e dos valores éticos seria um outro; todos querem “vencer na vida”, mas, em tempos de consumismo, imediatismo e hedonismo como os atuais, o querem de forma fácil, fazendo só o que gostam e, de preferência, sem ter que “suar” muito a camisa. Daí por que tantos jovens de classe abastada têm se envolvido em atos anti-sociais como o envolvimento com drogas. Dinheiro fácil, sucesso, fama e poder são elementos que seduzem as novas gerações muito mais do que estudar Matemática ou ler Machado de Assis. Junte-se a esse quadro a falta de limites e a insegurança que são a tônica dos pais hoje, e pode-se compreender por que os alunos chegam à escola desmotivados e indisciplinados.

EC – A substituição do modelo tradicional pela escola ativa, comprometida com a consciência política, ocorrida a partir dos anos 70, foi assimilada pelo conjunto dos professores?
Zagury
– A educação moderna, mais democrática e, sem dúvida, menos impositiva do que a tradicional, dá, sim, mais liberdade aos alunos, mas isso de forma alguma significa falta de respeito ou incivilidade. Pelo contrário, o objetivo da escola moderna é promover maior interesse e um ensino mais lúdico e atraente. Além disso, objetiva a independência e o desenvolvimento de habilidades e competências sociais e afetivas. A escola moderna de qualidade, isto é, operacionalizada corretamente em seus princípios, jamais levaria à situação que os professores vivem hoje. No entanto, quando ocorrem distorções práticas, má compreensão de um determinado método, se o professor não está bem preparado para utilizá-lo, ou sem condições de infra-estrutura, aí sim, acontecem interferências negativas. E pelo que o estudo mostrou, estas duas últimas – falta de treinamento e de infra-estrutura – são as causas mais prováveis para explicar o quadro atual.

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