Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 107 | Ano 11 | Out 2006
ENTREVISTA | IVÁN ANTÔNIO IZQUIERDO

Por Clarinha Glock

O médico Iván Antônio Izquierdo, 69 anos, professor titular de medicina, argentino naturalizado brasileiro “quase sem sotaque”, é uma referência internacional quando se fala em memória. Atualmente trabalhando como coordenador do Centro de Memória da PUCRS, Izquierdo acaba de concluir uma importante pesquisa que demonstra como uma parte do cérebro denominada hipocampo atua na formação da memória através da chamada potenciação de longa duração (LTP, na sigla em inglês). Simultaneamente, desenvolve um trabalho em busca das áreas que atuam no esquecimento ou extinção da memória – um mecanismo de deleção ou apagamento existente em todas pessoas. “Precisamos esquecer coisas para poder encaixar mais coisas e poder correlacionar umas com as outras”, esclareceu o professor. Nesta entrevista, ele reclama da falta de apoio do Governo e defende a implantação de um amplo programa que prevê palestras nas escolas e projetos para desenvolver a ciência no Brasil de uma forma séria e responsável, fugindo do sensacionalismo e ufanismo. Izquierdo respondeu às perguntas do Extra Classe por telefone.

Extra Classe: O senhor acaba de concluir uma pesquisa que comprova a ligação entre o aprendizado e o reforço de conexões neurais. Como isso acontece?
Iván Izquierdo:
A memória é sempre resultado de um apren-dizado. O que comprovamos é que a forma como o hipocampo participa na formação de memória e a forma como outras estruturas ligadas ao hipocampo participam também da formação da memória são diferentes. O hipocampo utiliza uma maneira, e as demais estruturas utilizam outras maneiras.

EC: O que é o hipocampo?
Izquierdo:
O hipocampo é uma região de córtex antigo que está localizada dentro do lobo temporal. As outras estruturas são o núcleo da amígdala, que está também localizada no lobo temporal (mas não tem nada a ver com a amígdala da boca, é um núcleo cerebral), e duas ou mais regiões do córtex: uma é no lobo temporal, chamada entorrinal, e a outra é o córtex parietal. Não se sabia como as quatro regiões agiam. Existia apenas uma hipótese de que o hipocampo funcionaria da forma como nós acabamos demonstrando. Das outras estruturas, ninguém tinha muita idéia. Houve a casualidade de que, mais ou menos simultaneamente com o nosso trabalho, poucos dias depois apareceu um outro trabalho de um americano chamado Mark Bear, que mostrou com um método eletrofisiológico exatamente o que nós dizíamos – ou seja, essa participação do hipocampo, através de um processo chamado de potenciação de longa duração (LTP). Nós demonstramos a intervenção da LTP por métodos bioquímicos e farmacológicos, e Bear, por um método eletrofisiológico.

EC: E qual é, então, o papel do hipocampo na formação da memória?
Izquierdo:
O processo que utiliza essa potenciação de longa duração consiste no aumento da resposta de uma sinapse (conexão entre dois neurônios) perante sua estimulação repetida. Ela passa a responder mais e melhor. Eventualmente isso pode dar lugar a alterações morfológicas.

EC: Que tipo de estímulo é necessário para ter esse aumento da resposta?
Izquierdo:
Varia muito de animal para animal, de situação para situação. No caso de nosso rato, deve ser alguma coisa que dure no máximo um segundo ou dois. As alterações morfológicas que foram descritas no hipocampo e nas demais áreas, principalmente no córtex entorrinal e parietal, são aumento de tamanho ou bifurcação de sinapse. O sistema de formação de memórias que nós e o Bear estudamos, em que o animal aprende a não sair de um determinado compartimento para não receber um choque, causa esse tipo de alteração.

EC: E o que significa isso, na prática?
Izquierdo:
Significa que a sinapse vai funcionar melhor, porque está maior, mais forte. E a memória vai ser melhor. Se não se estimula uma sinapse, ela atrofia e morre. Se se estimula muito uma sinapse, ela aumenta de tamanho e cresce.

EC: Já se sabia sobre a potenciação de longa duração desde quando?
Izquierdo:
Desde 1973. Foi sempre postulada como um mecanismo de memória, mas nunca demonstrada. Agora foi finalmente demonstrada.

EC: Existe alguma forma de aumentar seu tempo de atuação ou efeito sobre o organismo?
Izquierdo:
Existem formas, mas não creio que seja por esse lado a procura de melhoras da memória.

EC: Seria por qual lado, então?
Izquierdo:
Tem que partir de uma base. Habitualmente, nas pessoas normais, os mecanismos da memória funcionam sempre no máximo que podem. Não há como aumentar seu funcionamento. É como um carro com o acelerador apertado ao fundo indo barranco abaixo. Mais eficiência do que isso não existe. Agora, inclusive nas pessoas normais, constantemente há alterações no estado de ânimo, no nível de atenção, nas emoções, nos sentimentos. É como se houvesse descidas, subidas ou curvas no percurso do carro. E esses processos afetam hipocampo, amígdala, córtex entorrinal e córtex parietal, cada um deles de uma maneira peculiar, que pode aumentar ou inibir a formação de determinada memória que esteja ocorrendo ao mesmo tempo. Nos animais também, provavelmente. Então, estamos constantemente trabalhando com o que temos, e o que temos é um hipocampo a “meio pau”, um córtex parietal a “meio pau”, um córtex entorrinal a “meio pau” – ou muito bom, ou muito ruim. O que a gente pode fazer é agir sobre a ansiedade, a tensão, a depressão, diminuindo talvez a depressão, aumentando a atenção e melhorando o uso do sistema. É como o carro – se está andando muito bem, muito rápido, mais do que isso não dá. Mas se o carro está subindo um barranco, pode-se empurrá-lo, mudar para uma marcha mais baixa, que seja mais lenta, mas que convenha mais, isso pode ser um remédio para que o carro funcione melhor. Freqüentemente aparecem novas drogas para melhorar a memória. Mas o que se tem conseguido até agora são drogas que melhoram a memória que falha no cérebro danificado, por exemplo, por doença de Alzheimer, ou por alguma outra situação de lesão. Aí sim, essas drogas funcionam muito bem, porque esses cérebros não funcionam mais na sua máxima capacidade, pois lhe faltam neurônios ou sinapses.

EC: Essa comprovação que vocês fizeram agora sobre a LTP pode ajudar no desenvolvimento de alguma outra droga para Alzheimer?
Izquierdo:
Essa não creio que possa fazer muito. A que pode é outra que publicamos no dia 5 de setembro, mais ou menos na mesma época, na revista Neuron. Comprovamos que a retirada de uma molécula que transporta o neurotransmissor acetilcolina do corpo neuronal até a sinapse provoca déficit de memória. Essa foi feita em colaboração com Marco e Vilma Prado, de Minas Gerais, e com Marc Caron, dos Estados Unidos. É uma turma muito grande, quatro grupos: foram mais de 20 assinantes do trabalho. Vimos que quando falta esse neurotransmissor por se impedir seu traslado até onde deve agir, há um déficit seletivo de certos tipos de memória que são as que falham no Alzheimer.

EC: Quanto tempo leva, em média, uma pesquisa dessas – em quanto tempo vocês chegaram aos resultados?
Izquierdo:
Na primeira que relatei, estivemos trabalhando talvez uns 15 anos. Mas ainda não terminou. Acabamos de ver o mecanismo do hipocampo; falta ver em detalhe quais são os outros. Aí tem mais 20 anos. É difícil dizer quando uma pesquisa termina, geralmente nunca termina. Na do transportador da acetilcolina, estamos trabalhando faz dois anos e também está recém começando.

EC: Do ponto de vista prático, ela deve levar a algum novo tratamento para a doença de Alzheimer?
Izquierdo:
Não só para o tratamento de Alzheimer, como o de outras doenças de memória.

EC: Existe um intercâmbio maior em pesquisas atualmente?
Izquierdo:
Meu grupo sempre trabalha integrado com outro. Por exemplo, nas duas pesquisas que comentamos, uma foi feita em colaboração com um grupo da Argentina, e a outra foi feita com Minas Gerais e Estados Unidos. Há quatro laboratórios participando. E sempre trabalhamos assim, porque o que um não sabe, o outro vai saber; o que um tem, o outro não tem; então, se pode fazer mais coisas trabalhando de forma solidária.

EC: Em entrevistas anteriores ao Extra Classe, o senhor mencionou um estudo sobre a extinção da memória. Em que fase está esse estudo?
Izquierdo:
É outra linha de trabalho em pleno desenvolvimento no nosso laboratório na PUCRS. Descobrimos há poucos meses mais uma área que participa da extinção, que é o córtex entorrinal. Saber que lugar do cérebro participa pode ser útil. Até agora, tem sido melhor tratar a extinção sem drogas do que com drogas, porque essas drogas podem interferir com a própria extinção. O tratamento deve ser comportamental, em que a palavra é importante. Há muita coisa na psicologia e na psiquiatria que não requer tratamento com drogas, e esta é uma.

EC: Hoje o senhor trabalha em quantas linhas de pesquisa?
Izquierdo:
Talvez seis ou sete, que pertencem a dois projetos básicos: mecanismos da memória e o da acetilcolina. Estamos entrando mais forte com esse da acetilcolina e em parte com mecanismos da memória em problemas de Alzheimer e de idosos, porque o modelo animal que usamos com os Prado e com Marc Caron pode ser considerado em parte um modelo de Alzheimer. Há estudos de longa data demonstrando déficit de acetilcolina no Alzheimer.

EC: O senhor já falou outras vezes sobre a dificuldade de fazer pesquisa no Brasil em relação a investimentos e salários. Como está a situação hoje?
Izquierdo:
Pior. Decidiram, aparentemente, nivelar por baixo, não sei. Ou repartem quantidades menores de dinheiro, ou dão a grupos com menos currículos. Então, se espalha muito e se concretiza menos. Não acho isso uma boa política. O que tem também é cada vez mais gente fazendo ciência no Brasil, e a verba não aumenta na proporção em que aumenta o número de cientistas.

EC: E qual é a saída?
Izquierdo:
O Governo vai ter de se dar conta de que isto é prioridade nacional, porque, se não há ciência, não haverá tecnologia, e o país nunca vai sair da fossa.

EC: E como vocês mantêm esses projetos? Com a colaboração internacional?
Izquierdo:
Alguns dos insumos são comprados por nossos colaboradores de fora – de Minas Gerais, de Buenos Aires ou de outras universidades.

EC: Quando assumiu como diretor da Academia Brasileira de Ciência, o senhor disse que a intenção era divulgar mais a produção científica.
Izquierdo:
Eu estou na academia com essa função e faço isso. Dou palestras em muitos lugares, escrevo livros que são eventualmente vendidos. Apresentei um projeto simples e concreto sobre como melhorar o ensino das ciências no Brasil no Ministério da Ciência e Tecnologia, no Ministério da Educação (MEC) e na Unesco, além de em outros livros e lugares. O programa envolve aulas e palestras dadas por cientistas, em DVD ou fita, em todas escolas e colégios do Brasil. É uma campanha de estímulo à melhora da imagem do brasileiro na mídia, evitando cuidadosamente o “oba-oba” e o ufanismo que tanto mal nos fazem, salientando simplesmente o muito de bom que no país se faz em termos de ciência e cultura, e não só de cultura popular. Enfim, é um programa amplo e muito concreto, de baixo custo. A mudança em relação ao que está sendo feito hoje é de parâmetro: chega de ufanismo, que é tudo que se faz hoje, e comecemos a falar sério das coisas sérias. Ciência é coisa séria, e sem ciência não há tecnologia. E sem tecnologia, hoje, não há economia desenvolvida.

EC: O senhor publicou também obras não estritamente científicas, não é?
Izquierdo:
Tenho 10 livros de textos não-científicos publicados. O melhor é o último, que se chama Releitura do óbvio (Editora Unisinos). São ensaios sobre temas diversos. Um deles é sobre um programa completo para desenvolver o ensino de ciências no Brasil. Foi lançado há três ou quatro meses.

EC: Atualmente se enfrenta uma overdose de informação por Internet, celular, tevê a cabo. Que efeitos têm essas mudanças muito rápidas dos meios de comunicação e o excesso de informação sobre a memória?
Izquierdo:
Em geral, se a pessoa não sabe concentrar sua atenção, os efeitos são muito ruins. Mas nós temos aparelhos no cérebro que conseguem concentrar a atenção bastante bem e discriminar, de toda essa barbaridade de informação que nos chega, o que vale a pena guardar e o que não vale. Esse sistema é chamado de memória de trabalho ou gerenciador de cognição e é eficientíssimo. O importante é não exceder as possibilidades desse sistema. Como todo sistema de filtro, chega um momento em que se satura. Isso deve acontecer com todos nós muitas vezes por dia. O meu, por exemplo, agora, está fraco porque eu estou fraco, com febre; então, todo o meu sistema está saturado (NE.: Izquierdo estava resfriado quando concedeu esta entrevista). Uma pessoa com mais saúde – eu mesmo, talvez amanhã – pode abranger mais assuntos ao mesmo tempo.

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