Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 107 | Ano 11 | Out 2006
FRAGA

A priori, a Inexpressão.

Na incerta exatidão de então, talvez um Nada desconforme por toda parte de lugar nenhum, por tempo algum. O absoluto incognoscível permeado pelo indizível, tudo indescritível.

Sim, antes do depois não havia o que descrever, muito menos com o quê. Incomensurável, a incompreensão dominava a percepção, a ausência do notável nem sentida era, permanecia só uma indefinição inconcebível. Assim continuou, mesmo sem haver quando nem enquanto. Quem sabe o insabível gerando o gerúndio.

Assim, muitíssimo antes das trevas e da luz, do trevo e do azul, da trova e do luar, as palavras não tinham razão de ser. Incógnitas no insipiente silêncio pré-trovão, as palavras não se sabiam a si mesmas, nem se ensimesmar podiam. Sem fazer sentido, não soavam. Sem acepções, não destoavam. Sem senso de humor, não caçoavam.

Mesmo assim, no inverso-caos cósmico, no improvável meio sem entorno, as palavras deviam estar contidas no incontível, onde, como cantaria o poeta bilhões de anos após, cabe o incabível. Nessa remota impossibilidade, a protopalavra, num impronunciável fenômeno, se plasmou a si própria. Uma quota de qüiproquó químico, quanticamente quieto.

Incontáveis eternidades mais tarde, numa imponderável microexplosão no infinitesimal átimo de autoconhecimento da protopalavra (decerto concomitante com uma inquantificável macrorreação do resto inquieto), um sismo reverbera entre o Nada e o Tudo, à beira do caos. O infinito tonitroa no vácuo, ainda ininteligível.

O antiuniverso regurgita a matéria e a antimatéria, maravilhas primevas que ficam sem adjetivos. A grande interjeição inicial, matriz de todas as exclamações diante da vida, não é registrada.

A pirotecnia avança em todas as direções, espalha o fonema existencial, num rastro de promessas substantivas, rumo ao novo. O vazio está grávido, sua natureza é quase audível.

As convulsões evoluem para contrações. O conteúdo anseia por se expressar. Há revelações aspirando por sonoridade. Prontos para se desentranhar do espaço indecifrável, conceitos inéditos se insinuam. Logo haverá fronteiras entre aqui e lá, hoje e ontem. Advérbios que farão história.

Eis que tudo se inclina para se declinar. Algo se projeta. De si para si, do sempre para o já, do menos para o mais, do sei-lá-o-quê para o entendível. Do mistério maior para um mistério menor.

Agora sim: neste princípio já pode ser o Verbo.

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