Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 107 | Ano 11 | Out 2006
LUIS FERNANDO VERISSIMO

O e-mail facilitou a correspondência – em tese. Clicar o “Envia” não apenas assegura a chegada instantânea da sua mensagem à outra ponta como elimina todo o complicado processo de comprar envelope, dobrar a carta e botar dentro do envelope, fechar e selar o envelope cuidando para não ficar com cola nos dedos, e depois ainda ter que se lembrar de como se enfia o maldito envelope – que coisa difícil! – numa estreita abertura da caixa do correio. Com todo esse trabalho para mandar cartas, como os antigos tinham tempo para escrevê-las?

Mas escreviam, e muito mais do que nós. Acho até que existia uma relação direta entre a dificuldade para escrever e a quantidade – e a qualidade – do que era escrito. Não há nada parecido, na era dos escritores eletrônicos, com o volume de correspondência dos escritores a pena, que além de manuscrever livros que pareciam monumentos manuscreviam cartas que pareciam livros. Quanto mais fácil ficou escrever, menos os escritores escrevem. Os livros ficaram mais finos e a correspondência se reduziu a latidos digitais, breves mensagens utilitárias cheias de abreviaturas, “envia” e pronto. Já um George Bernard Shaw escrevia uma peça atrás da outra com introduções maiores do que as peças e ainda tinha tempo para escrever cartas para todo o mundo. Geralmente xingando todo o mundo, o que exigia mais tempo e palavras.

Desconfio que a nova técnica também modificou o jornalismo. As barulhentas redações pré-eletrônicas eram áreas conflagradas onde o combate com o teclado duro era um teste de resolução e resistência, um trabalho decididamente braçal. Depois vieram os computadores e o ambiente de chão de fábrica foi substituído pelo de laboratório. Tese: data da informatização o começo do desvio das redações para a direita. E isso que a gente muitas vezes confunde com linhas editoriais reacionárias dominando a nossa grande imprensa pode ser apenas um efeito do teclado silencioso.

Por falar em reação e correspondência: comentários de alguns leitores a respeito do que escrevi sobre moral e moralismo reforçaram minha convicção de que as pessoas lêem o que querem ler, não o que está escrito. Todos confundiram moralismo e moralidade, que são coisas diferentes. A moral também pode ser relativa, muda conforme o contexto cultural, mas meu assunto não era esse, era o moralismo hipócrita ou seletivo e o mal que já fez na nossa história.

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