Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 108 | Ano 11 | Nov 2006
POLÍTICA
ELEIÇÕES 2006

Por Marco Aurélio Weissheimer

A primeira governadora da História do Estado implementará aqui algumas das propostas apresentadas pelo candidato Geraldo Alckmin (PSDB) na campanha nacional. Choque de gestão, realismo orçamentário e corte de gastos vêm aí. Mais uma vez, o Rio Grande do Sul repete a tradição de se colocar contra o Governo central.

Apesar de todo o desgaste político sofrido durante a crise do “mensalão” e do bombardeio midiático incessante a que foi submetido o Governo Lula, o PT obteve um ótimo desempenho eleitoral. Além de reeleger o presidente da República, o partido bateu um recorde nesta e vai governar cinco Estados a partir de 2007: Acre, Bahia, Pará, Piauí e Sergipe. Nunca o PT havia tido tal número de governadores. Ao todo, esses estados concentram 17,1 milhões de eleitores, 3,5% do total de eleitores no país. Em 2002, o partido elegeu apenas os governadores do Acre, de Mato Grosso do Sul e do Piauí (um universo de 3,2% dos eleitores do país). Os resultados das disputas de segundo turno também desenharam um cenário político mais favorável ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em relação ao que ele encontrou em janeiro de 2003. Em janeiro de 2007, Lula iniciará seu segundo mandato com o apoio explícito de 16 governadores. Há quatro anos, só 3 governadores o apoiavam.

PERDEDORES – O PFL foi o partido que sofreu a maior derrota nas eleições deste ano. Em 2005, no auge da crise política, o senador Jorge Bornhausen (PFL-SC) não conteve a euforia diante dos episódios que atingiam o PT e expressou seu desejo de se “livrar desta raça por 30 anos”. Pois bem, o feitiço virou contra o aprendiz de feiticeiro. Quem resolveu se “livrar desta raça” foi o povo brasileiro que varreu o PFL dos governos estaduais. O partido do Sr. Bornhausen venceu apenas no Distrito Federal com o ex-tucano José Roberto Arruda. Em 1998, o PFL tinha seis governadores eleitos. Em 2002, caiu para quatro. Agora, ficou só com o Distrito Federal. Seus maiores fracassos este ano ocorreram na Bahia (com a derrota no primeiro turno do governador Paulo Souto para o petista Jacques Wagner), em Pernambuco (com a derrota de Mendonça Filho para Eduardo Campos, do PSB) e no Maranhão (com a derrota de Roseana Sarney). O desejo de Bornhausen virou maldição, e ele viu seu partido minguar em todo o país.

A mídia arranhada

Quem também saiu com a imagem chamuscada, para dizer o mínimo, do processo eleitoral foi a mídia. Em um artigo intitulado “Réquiem do Jornalismo”, Luís Nassif afirmou que o antijornalismo parece ter tomado definitivamente conta da mídia. “Nos últimos anos, houve vários exemplos de matérias encomendadas, várias evidências de mistura de jogadas empresariais e reportagens e várias coberturas em que se misturavam cumplicidade com a polícia e autodefesa de jornalistas – como no caso do Bar Bodega, em que muitos jornalistas conviveram por um mês com um delegado que, depois se soube, torturou meninos injustamente acusados do crime, e nenhuma das testemunhas jamais veio a público denunciar o complô”, escreveu Nassif, que acrescentou: “Mas em nenhum desses casos houve uma abrangência tão grande de veículos e uma falta de limites tão acentuada – independentemente da gravidade dos episódios cobertos – quanto a cobertura da foto dos maços de notas que seriam utilizados para a compra do dossiê Vendoin”.

FOGO PESADO – Poucas vezes na História do Brasil um governo e um partido sofreram um bombardeio midiático tão pesado como o que foi desferido contra o PT e o Governo Lula. No entanto, a imensa maioria da população brasileira parece não ter acreditado na campanha de denúncias sistemáticas. Ao final da campanha, colunistas se revezavam nos espaços dos veículos tentando entender esse fenômeno. O ex-colunista político da Rede Globo (atualmente na Rede Bandeirantes), Franklin Martins, acusou uma perda de credibilidade e de legitimidade por parte da grande mídia. A sua capacidade de influenciar a opinião pública teria diminuído enormemente. Esse é um fenômeno cuja natureza será mais bem dimensionada com o passar do tempo. Talvez o bombardeio tivesse surtido efeito se não existissem programas como o Bolsa Família e o Universidade para Todos (ProUni), que desfrutam de elevados índices de aprovação junto à população.

Votação consagradora

Lula acabou recebendo uma votação consagradora, com mais de 58 milhões de votos, 5,5 milhões a mais do que os que recebeu no segundo turno de 2002. Seu adversário, Geraldo Alckmin, fez pouco mais de 37 milhões de votos, 2,4 milhões a menos do que fez no primeiro turno. Contrariando os prognósticos que previam um país dividido entre ricos e pobres na votação, o resultado da eleição presidencial mostrou um Brasil unido em torno da reeleição do presidente. Lula venceu em 20 Estados, enquanto Alckmin ficou na frente em apenas sete. O candidato petista conseguiu reverter o quadro no Acre, Rondônia, Goiás e Distrito Federal, onde havia perdido no primeiro turno. Além disso aumentou sua votação em Estados onde já havia obtido uma grande votação no primeiro turno, tais como Amazonas, Maranhão, Minas, Bahia, Rio de Janeiro e Pará. Ainda na noite do dia 29 de outubro, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Marco Aurélio de Mello, admitia que a expressiva votação de Lula garantia ao seu segundo governo um alto grau de legitimidade.

A vitória tucana no RS

Um dos Estados onde Lula perdeu foi justamente o Rio Grande do Sul. Além de votar em Alckmin, a maioria dos eleitores gaúchos decidiu eleger a deputada federal Yeda Crusius (PSDB) para governar o Estado nos próximos quatro anos. Yeda recebeu 3.377.973 votos (51,54% dos votos totais e 53,94% dos válidos). Olívio Dutra (PT) ficou com 2.884.092 (44,01% dos votos totais e 46,06% dos válidos). Economista, 62 anos, ex-ministra do Planejamento do Governo Itamar Franco, Yeda Crusius será a primeira mulher a governar o RS e promete implementar no Estado um “novo jeito de governar”. Apesar da derrota eleitoral, o PT comemorou algumas vitórias importantes como a retomada da maioria em Porto Alegre, onde venceu a disputa com 5 mil votos de vantagem (416.193 votos contra 411.866). Mas a principal vitória mesmo foi a volta das bandeiras vermelhas para as ruas, presença que havia sido atropelada pela crise política de 2005.

CAPITAL ELEITORAL – Embora tenha sido por uma escassa margem de votos, a vitória em Porto Alegre tem um significado importante, considerando o inferno astral que atingiu o PT nos últimos meses e o desempenho do partido nas eleições municipais de 2004. Naquele ano, Raul Pont fez 378.099 votos contra 431.820 de José Fogaça (PPS), que acabou vencendo as eleições. Após a crise do chamado “mensalão”, houve quem dissesse que o PT e a esquerda em geral estavam acabados como força política no Estado. Apesar da derrota neste domingo, a Frente Popular, composta por PT, PC do B e PSB, conquistou um pouco menos da metade dos votos no Estado, superando inclusive a votação nominal feita por Tarso Genro nas eleições estaduais de 2002. O candidato petista, naquele ano, fez 2.196.134 votos contra os 2.426.880 de Germano Rigotto (PMDB). A diferença entre Tarso e Rigotto, porém, foi menor do que a verificada nas eleições deste ano, quando Yeda abriu mais de 493 mil votos sobre Olívio. Mas, para além dos números, as ruas mostraram que a esquerda permanece uma força política expressiva no RS.

Especialmente na última semana de campanha, Porto Alegre viu uma cena que muitos acreditavam varrida do mapa. O retorno às ruas das bandeiras vermelhas com a estrela amarela indica que um laço que estava estremecido foi reatado com a militância em geral e com os simpatizantes do PT e da esquerda no Estado. Esse não é um dado menor, considerando o resultado político da eleição no RS. Além da vitória de Yeda, o candidato Geraldo Alckmin teve mais votos do que Lula no Estado. O tucano recebeu 3.485.916 votos (55,35% dos válidos) e Lula 2.811.658 (44,65%). Alckmin fez mais votos do que Yeda, e Olívio fez mais votos do que Lula no RS. Assim, o Estado que já foi sede do Fórum Social Mundial e referência para a esquerda mundial deu uma guinada forte para a direita. Ainda no domingo à noite, após a definição do resultado, a constatação dessa guinada e seus reflexos para o futuro próximo já ocupava as conversas de militantes e simpatizantes da esquerda gaúcha.

NOVO JEITO – A vitória de Yeda Crusius e de seu vice Paulo Feijó (PFL) coloca o Rio Grande do Sul em uma posição política peculiar. A campanha da coligação vitoriosa fugiu como o diabo da cruz do tema das privatizações e depositou todas as suas fichas na idéia de “um novo jeito de governar” e no fato de Yeda ser mulher. Uma idéia vaga e não-explicitada, a não ser por algumas indicações em seu programa de governo que fala em corte de gastos públicos, realismo orçamentário e racionalização da máquina estatal, expressões que freqüentaram também o discurso do candidato Geraldo Alckmin. Ou seja, a proposta que foi amplamente derrotada no Brasil será aplicada no RS, que se transformará assim em um laboratório do que poderia ter sido um governo tucano em nível nacional. Os gaúchos são considerados useiros e vezeiros em se colocar contra o Governo central. O governo de Yeda será mais uma oportunidade para exercitar esse esporte.

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