Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 110 | Ano 12 | Jan 2007
ELISA LUCINDA

Tenho uma Noite ocasional comigo.
Uma Noite que só de tempos em tempos é minha.
A dona dela mesmo não sou eu.
A oficial é Kátia, única dentista
da Vila. Explico: Noite
é uma cadela linda, negra,
coroa já, com fios brancos ao
redor do focinho e muito,
muito boa pessoa.
Companheira afetuosa, de
cujo ventre brotaram
incontáveis gerações.
Trata-se de uma cachorra com
muitos namorados, muitos cios, muitos uivos,
muitas luas, muitos desesperos entre as pernas, muitos parceiros… quer dizer, essa
Noite é uma cachorra mesmo!
Mas é uma cachorra senhora, uma cachorra vovó.
De vez em quando ela é nossa, da casinha de Itaúnas.
Uma jóia de casinha!
Uma casinha que honra a palavra.

Noite de Natal, quem nos aparece uma vez? Noite.
Chegou com sons humanos, batidas delicadas e decididas no portão.
Eram as patas da Noite.
Que Noite linda, que Noite bela!
Viera comer os ossos do peru como uma convidada,
uma vizinha amada, uma Martinha.
Todo mundo comia carne sem duvidar:
eram os ossos da Noite.

Dessa vez a cidade chamara depressa os meus
e a Noite pela primeira vez era só minha.
Apesar de vivida e um pouco cansada dos pêlos dos anos,
ela ainda pula o muro com facilidade e late com muita moral!
Tem muita determinação no que sobrara dos dentes.
Devo dizer que Noite é uma cã valente,
que só tem medo mesmo é de trovão e de fogos de artifício.
É alerta. Oferece orelhas despertas pra qualquer evento
e é ao mesmo tempo uma cadela calma.
Você vai rir de mim…mas Noite parece que tem alma!
Se tem! Me segue como amiga na bicicleta
e dorme no meu jardim, no meu pomar.
Passamos a noite assim: eu lá dentro e Noite lá fora,
como deve ser, vigilante mãe da casa que ela é.
Ela entende o esquema.
É assim, Noite lá fora e eu aqui dentro escrevendo poema.

Noite ocasional é uma que é só de vez em quando que ela é minha.
Mas também quando é, é de verdade e é muito. É todinha.
De vez em quando, como você sabe,
uma coisa também contínua, mas muito longe do sempre.
Pois dessa vez em quando Kátia só volta depois que eu for.
Dessa vez a Noite será só minha até o fim, como um presente.

Minha Noite linda, meu pertencimento real,
que acende minhas vésperas, que me renasce menina,
minha Noite de Natal!

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