Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 112 | Ano 12 | Abr 2007
FRAGA

Você ainda não ouviu falar do Congresso Internacional do Silêncio? Não podia mesmo. A falta de repercussão é a prova do seu não-retumbante sucesso. Nele, milhares de representantes de centenas de entidades sussurram denúncias a respeito dos danos da oralidade contemporânea. Em vez de muito barulho por nada, agora é a vez de nenhum ruído por tudo. Shakespeare sabia o que estava calando.

A OMS já havia antecipado relatórios preocupantes sobre os efeitos do tanto falar e do tanto ouvir em nossa sociedade. Alertas sobre atividades funcionais prejudiciais à saúde em guichês, ouvidorias, consultórios de psicanálise, confessionários, etc. Os excessos de fonemas como fonte de danos auditivos em pessoas altamente expostas. Descobriu-se que o agudo agora é crônico.

Sem estridência, pesquisas inovadoras apontam males inesperados. Advêm de certos tipos de exigência profissional, como vocabulários específicos, jargões científicos e técnicos. Inesperadas causas de distúrbios do aparelho fonético, desde tensões maxilares (o chamado bruxismo parlatorial) até o estresse verbal, em que as cordas vocais seriam reduzidas a barbantes.

Um dos casos que mais notórios é o efeito do matraquear incessante sobre os ossinhos do ouvido médio. Conforme a carga, o estribo estrila, o martelo martiriza, a bigorna bangorneia. Esses desajustes do mecanismo que amplifica os sons resulta em entupimento da trompa da Eustáquio e o bloqueio da cóclea. Aí, de tempos em tempos, é preciso promover a filtragem dos fluidos do ouvido interno, que se tornam espessos demais pelos resíduos acumulados de sotaques e prosódias reincidentes.

Com isso, surgem novíssimas especializações médicas para tratar de sintomas inéditos e doenças atípicas. É o caso da otofoneticologia, que trata desde a surdéia até a otititi, e da foniodontia, que cuida de quem sofre de desarranjos bucais por repetitivos esforços lingüísticos. Daí as clínicas avançadas para a recomposição palratória e recuperação do tímpano empanado. E já há remédio para proparoxítonas oxidantes e cura para consoantes dissonantes e destoantes.

As conclusões da atual edição do Congresso Internacional do Silêncio vêm aí, de algum lugar de baixa acústica. Do múrmur dos participantes, virão as soluções para um salutar vozerio. Ou será o enrouquecimento global.

O movimento por diálogos mais suaves já hasteou sua bandeira: é o pavilhão auricular.

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