Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 112 | Ano 12 | Abr 2007
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Segundo o tal relatório sobre o que nos espera se as coisas continuarem assim, mesmo se medidas drásticas forem tomadas agora para diminuir o aquecimento global, os efeitos disto só serão sentidos daqui a mil anos. O que nos leva a imaginar o que deveria ter sido feito há mil anos para impedir que chegássemos a este ponto. Se uma missão de prevenção retroativa pudesse ser mandada ao passado, que sinais ela deveria procurar de que se iniciava o processo que ameaçaria a vida no planeta, mil anos depois? O que poderia ser feito para evitar o processo?

Deixa ver. Mil anos atrás. O ano de 1007. Um programa de conscientização do público teria que começar com recomendações para controlar o número de fogueiras e queimadas e diminuir o fogo nos fogões, e em hipótese alguma adotar aquela novidade, o carvão, que só traria sujeira e desgraça. O carvão, aliás, deveria ser proibido antes de as pessoas descobrirem o que era. Todos teriam que ser convencidos de que a mula, o cavalo, o boi, a carroça e, vá lá, a carruagem eram o máximo que se poderia desejar em matéria de transporte e que o melhor era mesmo acabar com aquela mania de ir de um lugar para outro. Todo mundo deveria ficar sossegado em casa e, principalmente, deixar de inventar coisas ou pensar em fazer coisas, acima de tudo coisas cuja feitura produzisse fumaça.

Mas talvez o ano de 1007 já fosse tarde demais. Em vez de voltar mil anos, nossa hipotética missão salvadora teria que voltar vários milhares de anos e, com sorte, chegar à idade da pedra lascada no local exato e na hora certa.

– Pare!

– O quê?

– O que você está fazendo?

– Mas eu só estava…

– Inventando a roda. Ainda bem que chegamos a tempo. Você não tem idéia do que estava começando. Parando agora, você estará salvando milhões de vidas humanas. Estará salvando o próprio planeta. Desista. Invente outra coisa.

– Mas eu só estava fazendo uma mesa de centro.

– É o que você pensa. Estava inventando o automóvel, o engarrafamento, o monóxido de carbono, os cartéis do petróleo, guerras…

– Mas…

– Faça uma mesa de centro quadrada. E outra coisa.

– O quê?

– Nos leve ao cara que está descobrindo como fazer fogo.

– Por quê?

– Temos que eliminá-lo.

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