Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 112 | Ano 12 | Abr 2007
WEISSHEIMER

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Ilustração: Claudete Sieber

Ilustração: Claudete Sieber

O urso polar é uma das espécies ameaçadas pelo aquecimento global. Quem viu o documentário “Uma verdade inconveniente” pode testemunhar qual é o drama desses animais que estão ficando sem placas de gelo para repousar no oceano. É apenas uma das espécies, destaque-se. O periódico Annual Review of Ecology, Evolution and Systematics publicou uma avaliação envolvendo 866 estudos científicos que afirma que espécies de animais e plantas estão desaparecendo ou mudando antes do previsto, por conta do aquecimento global. Conforme esse estudo, pelo menos 70 espécies de rãs, a maioria moradora de montanhas e que não tinha para onde fugir do calor crescente, extinguiram-se por causa do aquecimento global. Além disso, entre 100 e 200 outras espécies que dependem de temperaturas baixas para sobreviver, como pingüins e ursos polares, estão em grave perigo.

O que temos a ver com as rãs e os ursos polares?

Rãs, pingüins, ursos polares? O senhor não tem nada mais concreto com que se preocupar? – poderia perguntar um interlocutor imaginário. Quem poderia ser tal interlocutor? Talvez um dos jornalistas gaúchos que, no final de 2006, integrou uma equipe de seletos convidados pela empresa Stora Enso para visitar suas fábricas de celulose na Finlândia. A Finlândia, que fica ao lado da Groenlândia, está derretendo devido ao aquecimento global. – Por que não se preocupa com a geração de empregos no RS em vez de ficar aí falando sobre rãs e ursos polares? – poderia perguntar meu interlocutor imaginário. Está bem, vamos tomar um exemplo mais próximo. O desastre ambiental do Rio dos Sinos, causado por despejos industriais poluentes, matou cerca de 100 toneladas de peixes. É lamentável, mas você não vai querer fechar as fábricas que geram centenas de empregos? – poderá dizer esse interlocutor.

A lógica desse tipo de objeção é muito simples. É preciso gerar empregos a qualquer custo. Mas todo mundo é favor do meio ambiente, certo? A maioria das pessoas aplaude o documentário onde Al Gore aparece denunciando as conseqüências dramáticas do aquecimento global. “Precisamos fazer algo”, dizem muitas pessoas após verem o filme. Mas fazer o que exatamente? Qualquer coisa que não atrapalhe a lógica do lucro, é claro. Vamos trocar as lâmpadas em casa, adotando modelos mais econômicos. Vamos contribuir com alguma organização ambientalista; colocar um adesivo no carro; separar o lixo. O resto, o trabalho voluntário ou as empresas “socialmente responsáveis e sustentáveis” vão encarregar-se de encontrar uma saída. E que tal a definição de políticas públicas que não encarem a questão ambiental como uma perfumaria?

E o urso polar? Bem, poderia dizer nosso interlocutor imaginário, não há nenhum urso polar no Rio Grande. Não é um problema nosso. E os peixes do Rio dos Sinos? Vamos injetar oxigênio na água, mandar rezar uma missa e eles ressuscitarão. O problema, caro interlocutor imaginário, é que não é apenas o rio que está a exigir oxigênio, nosso cérebro também.

O planeta está mudando para pior

No plano ambiental, o cenário não é menos dramático. A destruição não se dá apenas pelo atual padrão de atividade industrial e de consumo. No campo, o estrago não é menor.

A diversidade das culturas está reduzindo-se nos terrenos agrícolas de todo o mundo a um ritmo galopante, conforme advertência da FAO (órgão da ONU para a agricultura). Segundo a organização, ao longo dos últimos cem anos, perderam-se 75% das variedades agrícolas. A agricultura mecanizada e as exigências do mercado estão na raiz da redução da biodiversidade. Historicamente o ser humano utilizou entre 7 mil e 10 mil espécies, ao passo que hoje só se cultivam tão-somente 150 espécies, 12 das quais representam 75% do consumo alimentar humano. E desses, só 4 espécies são responsáveis pela metade dos nossos alimentos.

Estamos, portanto, diante de um cenário de alta instabilidade social, política, econômica e ambiental. E esses grandes temas globais estão relacionados diretamente a temas locais. Não se trata de elevar o pensamento à estratosfera e esquecer os problemas práticos do dia-a-dia. O debate sobre qual desenvolvimento queremos, qual matriz energética, que tipo de agricultura, que tipo de Estado, depende de um posicionamento claro sobre essas grandes tendências que estão mudando a face do planeta para pior.

Como anda o mundo em que vivemos

O debate sobre o aquecimento global está servindo, entre outras coisas, para despertar em muitas pessoas algo que andava profundamente adormecido: a preocupação com o mundo em que vivemos. Nunca é demais lembrar alguns números e fatos que são de conhecimento público, mas que costumam ser sacrificados no altar do pragmatismo rebaixado. A ordem econômica mundial está matando 100 mil pessoas de fome por dia, apesar de, segundo a ONU, o mundo ter hoje a capacidade de alimentar 12 bilhões de seres humanos, o dobro de sua população atual.

Segundo dados da ONU, a cada sete segundos uma criança menor de 10 anos morre por problemas ligados à desnutrição, e a cada quatro minutos uma criança fica cega por falta de vitamina A. A atual ordem mundial econômica não é só assassina, mas absurda, porque mata sem necessidade. Enquanto isso, os gastos dos EUA no Iraque e no Afeganistão ajudaram a aumentar as despesas militares no mundo em 3,5%, alcançando 1,12 trilhão de dólares em 2005, segundo levantamento divulgado pelo Instituto de Pesquisa para a Paz Internacional de Estocolmo em seu último anuário. Alguém ainda fica incomodado quando toma conhecimento desses dados? Ou pega o controle remoto e muda de canal?

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